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Terça-Feira 07.dez.2021

Ano X - Nº 470

Brasil

Rendimento médio mensal do brasileiro cai 3,4% e chega ao menor valor desde 2012, diz IBGE

1% mais rico ganha 35 vezes mais dos que os 50% mais pobres

Postado em 19 de Novembro de 2021 - Daniel Silveira (G1), Leonardo Vieceli (Folha de SP), Hygino Vasconcellos (UOL) – Edição Semana On

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Os efeitos provocados pela pandemia da Covid-19 na economia brasileira levaram à uma queda generalizada da renda no país. Dados divulgados nesta sexta-feira (19) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o rendimento médio mensal do brasileiro teve queda recorde em 2020 e atingiu o menor valor desde 2012.

De acordo com o levantamento, o rendimento mensal médio real de todas as fontes no país passou de R$ 2.292 em 2019 para R$ 2.213 - valor mais baixo desde 2013, quando era estimado em R$ 2.250 (já descontada a inflação do período). Este recuo corresponde a uma queda de 3,4%, a mais intensa da série histórica da pesquisa iniciada em 2012.

A queda foi generalizada entre a maioria das fontes que compõem a renda do brasileiro. O recuo mais intenso foi observado entre as chamadas “outras fontes”, que incluem aposentadoria, pensão e aluguéis.

As exceções foram observadas entre o rendimento habitualmente recebido do trabalho, devido a um efeito estatístico, e entre os chamados “outros rendimentos”, que registraram salto recorde devido ao auxílio emergencial, criado pelo governo para socorrer a população mais vulnerável diante da crise sanitária.

De acordo com o IBGE, o rendimento médio mensal real habitualmente recebido de todos aumentou na comparação com 2019 em razão da saída de 8,1 milhões de pessoas do mercado de trabalho – a maioria delas recebia rendimentos mais baixos, contribuindo com a elevação dessa média. Tanto que o rendimento efetivamente recebido de todos os trabalhos teve queda no período.

Diferenças regionais

A queda no rendimento médio mensal real de todas as fontes ocorreu na maioria das regiões do país. No Sudeste (-4,7%) e no Sul (-4,3%) o recuo foi mais intenso que a média nacional. No Centro-Oeste (-3,3%) ela foi equivalente à do país. A região Norte, por sua vez, registrou estabilidade do indicador, enquanto no Nordeste ele apresentou aumento de 1%.

O rendimento médio proveniente de outras fontes, por sua vez, caiu em todas as grandes regiões, tendo sido mais intensa que a média nacional no Centro-Oeste (-21%) e no Sudeste (-19,6%). No Sul (13,2%), Norte (-8,7%) e Nordeste (-5,4%) o recuo foi menos intenso.

Já o rendimento médio habitual do trabalho também apresentou aumento regionalmente. No Norte (4,5%) e Nordeste (7,6%) ele foi acima da média nacional, enquanto Sudeste (2,8%) e Centro-Oeste (3,2%) registraram expansão levemente menor que a geral do país. No Sul (0,3%), porém, ficou praticamente estável.

O auxílio emergencial, por sua vez, impactou de maneira distinta a média dos outros rendimentos entre as regiões do país. Norte e Nordeste tiveram ganhos expressivos, de 47,8% e 55,0%, respectivamente, enquanto no Centro-Oeste o aumento foi de apenas 0,6%. Já nas Regiões Sudeste e Sul esse tipo de rendimento teve queda respectiva de 16,5% e 5,0%.

Desemprego recorde reduz peso da renda do trabalho

O desemprego recorde provocado pela pandemia fez com que, em 2020, o país registrasse a menor proporção de pessoas com renda proveniente do trabalho. O contingente de brasileiros que tiveram rendimento efetivo do trabalho correspondeu a 38,7% da população.

Antes, menor proporção de pessoas nesta condição havia sido registrada em 2017, quando ficou em 42%. O recorde havia sido registrado em 2014, quando correspondeu a 43,7% da população residente no país.

Em contrapartida, a proporção de pessoas com renda proveniente de outras fontes e de outros rendimentos bateu recorde. O aumento mais expressivo ocorreu na proporção de pessoas com outros rendimentos que saltou de 7,8% em 2019 para 14,3% em 2020. Esse aumento ocorreu devido a abrangência do auxílio emergencial no país.

"A tendência de aumento do peso do rendimento de outras fontes e redução da parcela correspondente ao rendimento do trabalho, observada entre 2019 e 2020, ocorreu em todas as Grandes Regiões", destacou o IBGE.

Regionalmente, a Região Sul permanecia com o maior percentual de pessoas com rendimento habitualmente recebido de todos os trabalhos (46,0%). A Região Nordeste, por outro lado, registrava o menor percentual de pessoas com rendimento recebido de todos os trabalhos (32,3%) em 2020 e o maior percentual daquelas que recebiam de outras fontes (32,8%).

Da mesma forma, o desemprego provocou uma mudança na composição do rendimento domiciliar per capita no país. O rendimento proveniente do trabalho perdeu peso no orçamento das famílias brasileiras.

Em 2020, o rendimento de todos os trabalhos compunha 72,8% do rendimento médio mensal real domiciliar per capita, menor proporção da série histórica da pesquisa. Em contrapartida, as proporções provenientes de outras fontes (27,2%) e de outros rendimentos (7,2%) alcançaram o maior patamar da série.

“Houve uma combinação de fatores. O mercado de trabalho sofreu bastante com a pandemia. Por causa do distanciamento social, alguns setores que dependiam de movimentação de pessoas, como o setor de serviços, foram ainda mais afetados. O trabalho em si perdeu espaço. Isso explica a perda da participação do rendimento de todos os trabalhos", apontou a analista do IBGE, Alessandra Scalioni,.

Também devido ao impacto do auxílio emergencial, o peso dos outros rendimentos na renda domiciliar mais que dobrou na comparação com 2019, quando era de 4,4%.

"De 2019 para 2020, o auxílio emergencial e o desemprego mudaram o perfil do rendimento domiciliar. A proporção de domicílios com pessoas recebendo outros programas sociais saltou de 0,7% para 23,7%, aumentando em todas as regiões, sobretudo no Norte (0,5% para 32,2%) e Nordeste (0,8% para 34,0%)", destacou o IBGE.

A analista da pesquisa, Alessandra Scalioni, ressalvou, no entanto, que "o rendimento do trabalho continua sendo a principal fonte de renda dos domicílios” no país.

Regionalmente, porém, o Nordeste foi a primeira grande região do país, em toda a série da pesquisa, a registrar um percentual de pessoas com rendimento de trabalho (32,3%) inferior ao das pessoas que recebiam rendimento de outras fontes (32,8%).

O instituto enfatizou que, por outro lado, caiu a proporção de domicílios que recebiam o Bolsa Família (de 14,3% para 7,2%), "pois parte dos beneficiários passou a receber o Auxílio Emergencial". Já a proporção de domicílios que recebiam BPC-LOAS passou de 3,5% para 3,1% no período.

Além disso, o IBGE destacou, também, que pela primeira vez, desde 2012, o grupo dos outros rendimentos superou o das pessoas que recebiam aposentadoria e pensão (12,4%).

Concentração cai, mas 1% mais rico ganha 35 vezes a mais do que os 50% mais pobres

Apesar da pandemia, a concentração de renda no Brasil em 2020 caiu ao menor patamar dos últimos seis anos. No ano passado, o 1% mais rico da população recebeu, em média, 34,9 vezes a renda da metade mais pobre. Enquanto a parcela mais abastada ganhou uma média de R$ 15.816 por mês, per capita, os mais vulneráveis receberam R$ 453. Em 2019, a relação havia ficado em 40 vezes.

A redução da concentração se deve principalmente ao pagamento do auxílio emergencial de R$ 600 (ou R$ 1.200, no caso de mulheres chefes de família) a trabalhadores informais que ficaram sem serviço na pandemia. Depois, o valor foi reduzido para R$ 300. Em muitos casos, o auxílio fez a renda do trabalhador superar a que ele tinha antes.

Com isso, o Índice de Gini no Brasil melhorou, caindo de 0,506 em 2019 para 0,500 em 2020. No índice, que vai de zero a um, usado para medir a desigualdade social, quanto mais perto de zero, maior a igualdade. Desde 2017, o Brasil não atingia esse patamar.

Segundo o IBGE, "a desigualdade medida pelo Gini se reduziu em todas as grandes regiões, sobretudo no Norte e Nordeste, regiões onde o recebimento do auxílio emergencial atingiu maior proporção de domicílios."

Na comparação com 2019, houve queda de 9,4% (R$ 1.632) nos rendimentos médios do 1% mais rico da população. Conforme a pesquisa mostra fatias mais pobres, porém, há aumento nos rendimentos. O maior, percentualmente, foi para os brasileiros que estão entre os 5% e os 10% dos mais pobres. A renda deles subiu 17,6% em 2020, indo para R$ 200 por mês.

Com auxílio, programas sociais chegam a 23,7% das casas

A pesquisa mostra que 23,7% das casas brasileiras receberam recursos de programas sociais em 2020, como o auxílio emergencial. Em 2019, o índice era de 0,7% —não é especificado que benefício era ofertado nesse ano.

Os 23,7% desconsideram dois programas sociais: o Bolsa Família e o BPC (Benefício de Prestação Continuada). Na comparação com 2019, esses dois benefícios registraram queda no ano passado. No caso do Bolsa Família a redução pode ser explicada pela migração automática dos beneficiários para o auxílio emergencial, nos casos em que o auxílio era mais vantajoso.

No Bolsa Família, o percentual de casas que recebiam a quantia caiu de 14,3%, em 2019, para 7,2%, no ano passado. Já no BPC a queda foi menor: de 3,5% para 3,1%.

Coleta de dados passou por alteração

Devido à pandemia, o IBGE alterou a forma de coleta de dados — de presencial para exclusivamente por telefone — a partir do segundo semestre de 2020. Segundo nota técnica do órgão, a mudança ocorreu pela "segurança tanto dos entrevistados quanto dos entrevistadores".

Porém, o novo método provocou uma "redução considerável" na taxa de aproveitamento da pesquisa, ainda conforme o IBGE. Para o levantamento, há um esquema de rotação de domicílios consultados. Quando uma casa é consultada, fica dois meses seguidos de fora da amostra.

O problema é que não havia telefone de contato em parte dos endereços. Com isso, a amostra (número de pessoas entrevistadas) diminuiu.

O IBGE diz que investiu em "técnicas de pareamento de dados" e "esforço das equipes regionais" para obter os telefones das residências selecionadas.

Sem dados por sexo, raça e idade

Além da mudança na coleta de dados, a pesquisa também não apresenta detalhamento por sexo e faixa etária. Segundo o IBGE, a decisão de não apresentar os dados decorre da falta de um Censo Demográfico recente.

"A equipe técnica entendeu que era oportuno aguardar pelos totais populacionais do próximo Censo Demográfico, que seriam menos defasados do que a utilização dos resultados do Censo de 2010."

Os dados da Pnad Contínua serão recalculados após o próximo Censo.

A pesquisa também não tem dados por raça.


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