Semana On

Terça-Feira 24.mai.2022

Ano X - Nº 488

Poder

Moro se lança à Presidência fingindo não ter nada a ver com Bolsonaro

O ex-ministro e ex-juiz adota discurso de falsa moderação contra ‘os extremos’

Postado em 12 de Novembro de 2021 - Kenneth Alencar e Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

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O ex-ministro e ex-juiz Sergio Moro se lançou candidato à Presidência com um discurso de falsa moderação contra "os extremos" e como se não tivesse nenhuma responsabilidade pela chegada de Jair Bolsonaro (sem partido) ao poder e a crise que isso desencadeou no país.

Apesar de ter apresentado "apenas ideias de um projeto maior", falando de economia e desigualdade social, a corrupção continua a ser o seu principal mote de campanha. Moro se filiou hoje ao Podemos, em Brasília.

Ele fez um discurso de 50 minutos empostando a voz em tom mais grave, diferente da marcante característica aguda e algo estridente. "Alguns até dizem que não sou eloquente e muita gente critica a minha voz. (...) O Brasil não precisa de líderes que tenham voz bonita, o Brasil precisa de líderes que ouçam a voz do povo brasileiro", disse.

Moro afirmou que seria candidato para liderar um projeto coletivo e não pessoal. "Nunca tive essa ambição [de ser candidato a presidente], mas, se for preciso o meu nome para essa liderança, ele estará sempre à disposição do Brasil."

Segundo Moro, sua postulação seria "para que o país possa escapar dos extremos da mentira, da corrupção e do retrocesso". Ele bateu em Bolsonaro e, indiretamente, no ex-presidente Lula (PT), fazendo falsa equivalência entre petismo e bolsonarismo.

Moro, que é um representante do bolsonarismo sem Bolsonaro, tentou se afastar do presidente. Fingiu que não tem nada a ver com o que ele e a Lava Jato ajudaram a criar, pavimentando o caminho para a chegada ao poder do pior presidente da nossa história. Uma decisão de primeira instância de Moro acabaria sendo confirmada em segunda instância, o que tirou Lula, então líder nas pesquisas, da corrida presidencial de 2018. Logo depois, ele foi trabalhar com o Bolsonaro, o vencedor.

Justificou ter aceitado o convite para ser ministro da Justiça porque "tinha esperança por dias melhores, (...) havia pelo menos uma chance de dar certo e eu não poderia me omitir." Alegou que deixou o governo porque o apoio ao combate à corrupção "foi negado".

Apesar de ter corrompido a lei processual e de ter destruído setores da economia, disse, citando o trabalho dele e da Lava Jato, "quebramos a impunidade da grande corrupção, de uma forma e com números sem precedentes". Afirmou que mais de R$ 4 bilhões foram recuperados e que há "mais R$ 10 bilhões para serem devolvidos".

Disse que ingressou numa consultoria americana que tem como clientes empresas brasileiras que foram afetadas pelas decisões judiciais dele porque "precisava trabalhar" e nunca enriquecera "como juiz ou ministro". Estava "cuidando da vida privada", ressaltou.

Em resposta à crítica de que serviu aos interesses geopolíticos dos EUA, afirmou que resolveu entrar para a política quando um jovem lhe perguntou em Washington se ele havia abandonado o Brasil. "Eu não poderia e nunca vou abandonar o Brasil."

Numa resposta indireta por ter sido julgado suspeito nos processos do ex-presidente Lula, afirmou que poderosos estavam se livrando da cadeia devido a "formalismos e argumentos" que não conseguia entender. "É mentira dizer que acabou a corrupção. Quando, na verdade, enfraqueceram as ferramentas para combatê-la."

Voltando a vestir o figurino de paladino, afirmou: "Eu sonhava que o sistema político iria se corrigir após a Lava Jato. Embora tenha muita gente boa na política, a gente não vê grandes avanços. Resolvi fazer do jeito que me restava, entrando para a política".

Moro repetiu que era alguém que sempre fez a coisa certa e uma pessoa "em que vocês podem confiar". "O Brasil poderá confiar que este filho teu não fugirá à luta."

Para se vender como alguém que teria ideias, ele citou chavões sobre desigualdade social, erradicação da miséria, responsabilidade fiscal e combate ao crime organizado. "São apenas ideias de um projeto maior. (...) Tenho ouvido especialistas."

"Chega de ofender ou intimidar jornalistas", disse. Ressaltou ser preciso "proteger a família contra as drogas e a violência". "Defendemos o livre mercado, a livre empresa e a livre iniciativa. Precisamos reformar nosso sistema confuso de impostos. Privatizar estatais ineficientes, abrir e modernizar nossa economia."

A frase de maior efeito veio quase no fim: "Chega de corrupção, chega de mensalão, chega de Petrolão, chega de rachadinha... chega de orçamento secreto".

Agora político assumido, Moro tem ideias de extrema-direita semelhantes às de Bolsonaro. Comporta-se com hipocrisia. Cometeu crimes para combater o crime. Não deu uma palavra que pudesse ser entendida como autocrítica. A imprensa ganhou hoje candidato à Presidência que deverá ser o queridinho dos democratas de pandemia.

Moro chega à arena eleitoral como um alienígena

Sergio Moro sobe ao ringue eleitoral como uma espécie de alienígena. No planeta Lava Jato, ele era um magistrado todo-poderoso. Emitia ordens de prisão e anotava no final: "Cumpra-se". Desde que trocou a 13ª Vara Federal de Curitiba pelo Ministério da Justiça de Bolsonaro, Moro passou a ser prisioneiro do labirinto da política.

Nesse ambiente, o sujeito chega a Brasília imaginando que é um superministro e percebe que a ordem "me traz um café bem quente e bem forte" pode ser apenas algo que se diz antes de tomar um café bem fraco e bem frio.

Ao sentar praça no Podemos, Moro se equipou formalmente para participar de uma corrida presidencial que é liderada por personagens que grudaram em sua biografia marcas pouco lisonjeiras. Bolsonaro enferrujou a fama de juiz perspicaz. E Lula providenciou para que o Supremo lhe concedesse o título de juiz suspeito.

Quando migrou de Curitiba para Brasília, Moro disse que estava "cansado de tomar bolas nas costas". Achava que seu trabalho na Lava Jato "poderia se perder se não impulsionasse reformas maiores, que não poderia fazer como juiz." Como ministro, além de bolas por trás, especializou-se em levar caneladas.

Como candidato, Moro incluiu no seu repertório escândalos com os quais conviveu gostosamente enquanto emprestou sua fama para a família Bolsonaro usar. "Chega de corrupção, chega de mensalão, chega de petrolão, chega de rachadinha, chega de orçamento secreto", discursou o neocandidato no ato de filiação ao Podemos.

O combate à corrupção, assunto predileto de Moro, foi o tema central de 2018. Não será mais. A promiscuidade tornou-se tão generalizada que roubaram até a esperança do eleitor.

A decoração do ambiente em que o ex-juiz se lançou como pré-candidato foi ornamentada com palavras que sinalizam que a disputa de 2022 tornou-se pluritemática: "educação", "saúde", "trabalho", "sustentabilidade" e "comida no prato".

Sob Bolsonaro, Moro descobriu da pior maneira que o universo da política é habitado por três tipos de personagens. Tem gente que faz, tem gente que manda fazer e tem os alienígenas, que perguntam no final: "O que está acontecendo?"

Na arena eleitoral, Moro é apenas mais um candidato de terceira via à procura de discurso. Pode rebater provocações de Lula. Pode roubar alguns votos de Bolsonaro.

Pode também soar ambicioso: "Precisamos nos unir em torno de um projeto que tenha as seguintes linhas: combater a corrupção; reduzir a pobreza; reduzir a inflação; gerar empregos; proteger a família e respeitar o próximo, o diferente."

Infelizmente, Moro já não pode anotar "cumpra-se" no rodapé de uma sentença. Dependendo da evolução das pesquisas, talvez possa sair pela porta lateral de uma candidatura ao Senado.


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