Semana On

Sexta-Feira 03.dez.2021

Ano X - Nº 470

Brasil

Inflação complica projeto eleitoral de Bolsonaro

Em 2021 ela já é quase a soma dos dois anos anteriores: apenas a gasolina já soma 43% de alta em 12 meses. Preço do gás de botijão acumulando 45% de aumento

Postado em 11 de Novembro de 2021 - Josias de Souza (UOL), Vitor Nuzzi (RBA) – Edição Semana On

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A escalada da inflação dá aos profissionais que se dedicam a prever o comportamento dos preços uma aparência de quiromantes. Estimava-se que a taxa roçaria os 7% no meio do ano. E começaria a cair. Fechadas as contas de outubro, o índice acumulado em 12 meses foi de 10,67%, exatamente a mesma taxa que foi registrada no final de 2015, sob Dilma. A inflação rosna para a política na antessala de 2022. O Brasil entrará no ano eleitoral com o pé esquerdo, cambaleando como um país bêbado.

Não é que a economia seja imprevisível. A questão é que ela se tornou surpreendentemente previsível. A conjuntura tóxica paira sobre o sonho de reeleição de Bolsonaro como uma nuvem carregada em cima de uma casa muito parecida com aquela da canção de Vinicius de Moraes. Uma casa muito engraçada, que não tinha teto, não tinha nada. Ninguém podia entrar nela não, porque a casa não tinha chão.

Paulo Guedes, o ex-superministro da Economia, sai gradativamente de cena. Aproxima-se cada vez mais do centro do palco Roberto Campos Neto, o presidente do Banco Central. Ele assegura que a instituição fará o que for necessário para devolver a inflação à meta, que é de 3,25% no ano que vem. Significa dizer que os juros continuarão em trajetória de alta.

Contra um pano de fundo em que a inflação de dois dígitos se mistura ao desemprego elevado, fome, juros ascendentes e economia em recessão, os eleitores tendem a ser mais seletivos em relação à pregação dos candidatos. Ainda não há na praça presidenciáveis falando a língua da crise sem tradutores. Não se sabe quem extrairá benefícios eleitorais da balbúrdia econômica. Mas já é certo que Bolsonaro será o grande prejudicado.

Parte da encrenca vem de fora, como reflexo da crise mundial pós-pandemia. Mas a crise brasileira é agravada pelo "custo Bolsonaro". No Brasil, o único empreendimento que não para de crescer é a usina de crises instalada no Planalto. A deterioração econômica faz de Bolsonaro o principal adversário de si mesmo.

Falar mal da ruína de Dilma pode servir para iluminar um dos calcanhares de vidro de Lula. Mas o arremesso de pedras já não rende votos. Bolsonaro passou o mandato produzindo conflitos em escala industrial sem atentar para um detalhe trivial: no presidencialismo, a crise costuma ter a cara do presidente.

Fora de controle

A inflação oficial no Brasil se mantém em disparada, e teve em outubro sua maior variação em 20 anos. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 1,25% no mês passado. Agora, está acumulado em 8,24% no ano – quase as taxas dos dois anos anteriores, somadas (9,02%). Em 12 meses, já chega a 10,67%. Assim, se mantém dois dígitos pelo segundo mês seguido, atingindo o maior índice em mais de cinco anos, de acordo com os dados do IBGE.

Segundo o instituto, que divulgou os resultados no último dia 10, os nove grupos pesquisados tiveram alta em outubro. Destaque, mais uma vez, para itens como gasolina, gás de botijão e energia elétrica, além de alguns alimentos.

Assim, o grupo Transportes, por exemplo, com alta de 2,62% no mês, contribuiu com 0,55 ponto percentual na taxa geral. Apenas a gasolina, que subiu 3,10%, foi responsável por 0,19 ponto. Depois da sexta alta seguida, esse combustível acumula 38,29% em 2021 e 42,72% nos últimos 12 meses. Também aumentaram os preços do óleo diesel (5,77%), do etanol (3,54%) e do gás veicular (0,84%).

Ainda nesse grupo, o IBGE apurou alta de 33,86% nas aéreas, atingindo todas as regiões pesquisados. Além disso, o transporte por aplicativo voltou a subir (19,85%). Assim como os preços dos automóveis, tanto novos (1,77%) como usados (1,13%). Esses dois itens acumulam, em 12 meses, variação de 12,77% e 14,71%, respectivamente.

Comer fora está mais caro

Em Alimentação e Bebidas (1,17%), o item alimentação no domicílio teve alta de 1,32%, com vários aumentos em outubro. O IBGE cita tomate (26,01%), batata inglesa (16,01%), café moído (4,57%), frango em pedaços (4,34%), queijo (3,06%) e frango inteiro (2,80%). O instituto apurou queda nos preços do açaí (-8,64%), leite longa vida (-1,71%) e arroz (-1,42%).

Já comer fora de casa ficou 0,59% mais caro, em média, principalmente por causa do lanche (0,78%). Já a refeição teve alta um pouco menor que no mês anterior (0,74%).

Conta de luz também sobe

No grupo Habitação (1,04%), a influência principal veio do aumento da energia elétrica, embora com menor variação do que em setembro: de 6,47% para 1,16%. “Em outubro, foi mantida a bandeira Escassez Hídrica, que acrescenta R$ 14,20 na conta de luz a cada 100 kWh consumidos”, lembra o IBGE. Houve aumentos em Goiânia e São Paulo, com redução tarifária em Brasília e Campo Grande.

Já o gás de botijão (3,67%) subiu pela 17ª vez seguida. Acumula alta de 44,77% desde junho do ano passado. E a taxa de água e esgoto subiu 0,225, com reajuste em Vitória.

Altas em todo o país

Com aumentos nos preços das roupas femininas (2,26%), infantis (2,01%) e masculinas (1,70%), o grupo Vestuário teve alta de 1,80% no mês. Também subiram os preços médios de calçados e acessórios (1,44%), superando as altas de setembro. Em outro grupo, Artigos de Residência (1,27%), o IBGE registrou elevação nos itens mobiliário (1,89%) e eletrodomésticos e equipamentos (1,54%). Preços dos artigos de TV, som e informática (0,99%) subiram pelo nono mês seguido – e contribuíram com 0,01 ponto na taxa geral.

O IPCA teve alta em todas as áreas pesquisadas. O maior índice da inflação oficial em outubro foi apurado na região metropolitana de Vitória e no município de Goiânia: 1,53% em ambos. O menor, em Belém (0,64%). Em 12 meses, a taxa oficial de inflação varia de 9,27% (Belém) a 13,48% (Grande Curitiba). Está acima de dois dígitos em Vitória (12,22%), Rio Branco (11,94%), Porto Alegre (11,92%), São Luís (11,58%), Campo Grande (11,41%), Fortaleza (11,34%), Goiânia (11,03%), Belo Horizonte (10,46%), Salvador (10,38%), Recife (10,29%) e São Paulo (10,22%).

INPC soma 11,08%

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) subiu 1,16%, também no maior resultado deste indicador de inflação para o mês de outubro desde 2002. Agora, acumula alta de 8,45% no ano e 11,08% em 12 meses.

Segundo o IBGE, os produtos alimentícios subiram 1,10%, ante 0,94% no mês anterior. Já os não alimentícios foram de 1,28% para 1,18%. Todas as áreas registraram alta.


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