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Sexta-Feira 20.mai.2022

Ano X - Nº 487

Poder

‘Três partidos me querem. São três namoradas’, diz Bolsonaro

Na verdade, legendas 'namoram' o presidente de olho no patrimônio, não no matrimônio

Postado em 05 de Novembro de 2021 - Carta Capital, Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

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Cortejado publicamente por Progressistas e PL, o presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta semana que o Republicanos também está na “bolsa de apostas” para se tornar seu novo partido. “Tem três partidos que me querem, fico muito feliz. São três namoradas, vamos assim dizer. Duas vão ficar chateadas. O PRB (antigo nome do Republicanos), o PL e o PP, e cada dia um está na frente na bolsa de apostas”, disse ele após receber título honorário na cidade italiana de Anguillara Veneta. “Agora, iria para o PL; ontem, iria para o PP”, acrescentou, em tom de indecisão.

Muitos parlamentares da base aliada do governo são filiados ao Republicanos, partido ligado à Igreja Universal do Reino de Deus do pastor Edir Macedo. No último dia 29, Bolsonaro se reuniu em seu gabinete com o presidente nacional do Republicanos Marcos Pereira. As três siglas citadas pelo presidente fazem parte da sua base de apoio.

“Eu tenho que ter um partido. Não pode ficar para última hora essa questão aí”, afirmou. Na mesa de negociações para a definição da próxima legenda estão o controle de diretórios regionais e a escolha de candidatos ao Senado. Pelas contas de Bolsonaro, mais de 30 parlamentares devem acompanhá-lo na filiação ao novo partido.

Hoje, parte da tropa de choque do governo na Câmara ainda está no PSL, partido pelo qual o presidente se elegeu em 2018, mas deixou após desentendimentos com a cúpula.

De olho no patrimônio

Sem partido, Bolsonaro aninhou-se no centrão. Mantém com as legendas do grupo um relacionamento aberto. Ninguém é de ninguém. E o Tesouro Nacional é deles todos. Por exigência legal, o capitão terá de escolher um partido para disputar a reeleição.

Anteontem, Bolsonaro escolheria o PP de Ciro Nogueira e Arthur Lira, campeão no ranking de encrencados do falecido petrolão. Hoje, optaria pelo PL do ex-presidiário do mensalão Valdemar Costa Neto. Amanhã, nada impede que caia nos braços do Republicanos, ramificação política da igreja Universal.

Qualquer que seja a legenda escolhida por Bolsonaro o cruzamento resultará em filhos com a feiura do centrão e a esperteza do capitão. Ou vice-versa. Há de tudo neste namoro coletivo, exceto interesse público.

Bolsonaro é cortejado mesmo ostentando taxa de reprovação de 53% e rejeição eleitoral de 59% no Datafolha. Por quê? Avalia-se que as verbas que o presidente tem a oferecer financiarão a eleição de grandes bancadas na Câmara.

O tamanho da mordida nos fundos partidário e eleitoral é proporcional à dimensão da bancada de deputados federais. De resto, quanto maior for o número de cadeiras no Legislativo mais incontornável será a chantagem fisiológica a ser feita ao próximo presidente, seja ele quem for.

As legendas namoram Bolsonaro de olho no patrimônio, não no matrimônio. "Quem anda com lobo, lobo vira, lobo é", uivou o delator do mensalão Roberto Jefferson depois que o seu PTB foi excluído do páreo. Jefferson insinua que a via monetária tem mão dupla. Sustenta que Bolsonaro e sua prole adquiriram o "vício nas facilidades do dinheiro público". Impossível discutir com um especialista.


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