Semana On

Domingo 22.mai.2022

Ano X - Nº 488

Poder

Agressão a jornalistas mostra ao mundo a República Miliciana de Bolsonaro

Tristemente legitimada no Brasil, violência contra profissionais de imprensa choca no exterior

Postado em 05 de Novembro de 2021 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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A agressão física a jornalistas que relataram a viagem de Jair Bolsonaro a Roma (um turismo inútil e caríssimo pago com dinheiro público enquanto o povão passa fome) é coerente. O presidente estava reforçando no exterior a imagem do principal produto da República Miliciana do Brasil: a violência.

Agentes de segurança a serviço de Bolsonaro covardemente agrediram Jamil Chade (UOL), Ana Estela de Sousa Pinto (Folha), Leonardo Monteiro (TV Globo), Lucas Ferraz (O Globo) e Matheus Magenta (BBC), no último dia 31, por tentarem fazer seu trabalho, cobrindo a passagem do brasileiro pela capital italiana. Passagem é termo certo, pois sua ida ao G20 só serviu para demonstrar como o Brasil se tornou tóxico sob sua gestão.

Violência naturalizada a ponto de Bolsonaro não ter vergonha de dizer a Tedros Adhanom, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), que ele é o "único chefe de Estado no mundo investigado, acusado de genocida". E ainda achar graça.

A situação, legitimada pela hostilidade de Jair contra profissionais de imprensa, pode chocar no exterior, mas é tristemente comum no Brasil. Cansado de atacar jornalistas por aqui, o bolsonarismo exporta esse tipo de violência, talvez interessado em vender o método para algum autocrata iniciante. Método que inclui a defesa vazia da liberdade de expressão, enquanto a esmaga na base da porrada, do empurrão, da chave de braço, da misoginia violenta.

Apesar de provocar engulhos no naco civilizado da sociedade, as imagens de agressões a jornalistas são um deleite para o bolsonarismo-raiz - aquele 11% da população que justifica os atos tresloucados do presidente, defendendo a violência como meio para a sua perpetuação no poder. Em grupos bolsonaristas em redes sociais e aplicativos de mensagens, na madrugada desta segunda (1º), as notícias de agressões eram festejadas e ironizadas, chamadas de mimimi e de vitimismo.

Cenas como a deste domingo, do bolsonarismo atacando jornalistas, se tornaram recorrentes na República Miliciana do Brasil - onde pessoas acertam suas divergências na base do justiçamento e do linchamento, após decidirem quem tem direitos e quem tem só deveres. E onde grupos de seguidores do presidente atuam para silenciar e punir, nas redes e fora delas, aqueles que fiscalizam seu líder e denunciam as irregularidades que ele comete.

A situação lembra, por exemplo, o 3 de maio do ano passado, em frente ao Palácio do Planalto, quando uma turba de fãs de chutou e esmurrou o fotógrafo Dida Sampaio e atacou o motorista Marcos Pereira, ambos do jornal O Estado de S. Paulo. Outros profissionais de imprensa também foram empurrados e xingados. Enquanto isso, da rampa da sede do governo, o ocupante da Presidência sorria e acenava para a multidão. A turba pedia o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional. Celebrava-se, a propósito, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.

Bolsonaro é o responsável pela violência contra jornalistas cometida em seu nome. Não é necessário que ele demande uma ação - apesar de não duvidar que ordens nesse sentido tenham sido passadas a seus seguranças.

No Brasil, seu comportamento e seus discursos, acusando a imprensa de mentir quando a narração dos fatos lhe desagrada, alimentam as milícias que agem para defendê-lo, tornando a vida de outros um inferno. Para muitos de seus seguidores, um ataque à imprensa em nome de Bolsonaro é uma missão civilizatória, quase divina.

O Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil, elaborado pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), aponta que 2020 foi o pior ano para a nossa profissão desde que a entidade começou o levantamento no início da década de 1990. Foram 428 ataques, um aumento de quase 106% em relação ao ano anterior. Desse total, Jair Bolsonaro respondeu sozinho por 175 registros - ou seja 41%.

É claro, como já disse aqui mais de uma vez, que há outros políticos, da esquerda à direita, que também agem de forma intolerante com a imprensa, cujas militâncias já chegaram às vias de fato contra jornalistas. Esses casos também merecem repúdio. Mas o que temos agora é um presidente que usa o ódio à imprensa como instrumento estrutural de política com o uso de tecnologia de comunicação em massa.

Portanto, seria leviano comparar o que acontece hoje com os Camisas Negras do fascismo italiano, que atacavam jornalistas que desagradavam seus líderes. Até porque, a Itália da primeira metade do século 20 não contava com nossa tecnologia de comunicação, que garante que ações de justiçamento sejam promovidas de forma imediata e massiva.

Com a gasolina a mais de R$ 8, o botijão de gás chegando a R$ 140, gente remexendo caminhões de lixo e depósitos de ossos em busca de saciar a fome, 13,7 milhões de desempregados, 608 mil mortos por covid e riscos de apagão elétrico, Bolsonaro está fragilizado. Ele e sua equipe econômica são incapazes de apresentar um projeto para o Brasil, tentando empurrar projetos toscos e tortos para ver se cola. E quando fragilizado, ele ataca.

Se o terreno estava ruim para a imprensa, principalmente as jornalistas mulheres, que ele elegeu como alvos preferenciais (o machismo bolsonarista ao encontrar com o autoritarismo bolsonarismo, cria um ambiente violento, ainda mais porque vem delas as principais reportagens que mostram ao Brasil quem de fato o presidente é), a situação deve piorar.

Cabe à sociedade decidir se quer uma imprensa livre, mesmo que discorde dela, e sair em sua defesa. Ou está satisfeita com a proposta colocada à mesa por Bolsonaro: substituir a pluralidade por uma "Verdade" ditada por ele em lives nas redes sociais, lives em que ele ensina que vacina contra a covid-19 causa Aids.

Uma verdade rasa que esconde um desprezo pela vida e um profundo vazio de políticas para o Brasil e que serve como cortina de fumaça para encobrir os casos de corrupção de sua família. Uma verdade fabricada, que agride quando questionada e que não aceita o contraditório.

Em tempo: E cabe à parcela dos veículos de imprensa que se ajoelhou perante o presidente decidir, diante de ataques a profissionais, se querem defender o jornalismo livre ou preferem atuar como esfregões para passar pano para o fascismo.

Jornalistas têm de reagir à violência praticada ou consentida por Bolsonaro

Deve-se louvar a queixa elaborada pelo repórter Jamil Chade, do UOL, junto com o jurista Paulo Lugon Arantes, sobre as agressões de guarda-costas de Bolsonaro contra jornalistas em Roma, no último domingo. Acompanhado de vídeo, o documento será analisado na ONU e na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA. Jamil foi uma das vítimas das agressões. Ele também registrou queixa numa delegacia de Roma. Assim devem proceder os jornalistas atacados verbalmente pelo presidente e fisicamente por seus seguranças.

Outros repórteres também registraram queixa. A Globo contratou um advogado italiano, para exigir a apuração do episódio. O contribuinte brasileiro paga as viagens do presidente para que ele faça campanha fora de época no Brasil e exiba sua condição de pária no exterior. Não é admissível que Bolsonaro não pague por nada, nem mesmo pelos excessos que comete ou consente. Bolsonaro virou símbolo do patrimonialismo mal-educado e mal investigado.

Graças à inércia de autoridades e instituições, o símbolo não costuma responder pelo que simboliza. Bolsonaro é tratado como um ser inimputável. Não parece razoável que jornalistas agredidos também tratem o chefe da nação como se fosse um menor de idade ou um índio isolado, insuscetível de enquadramento penal ou cível. É preciso reagir, sob pena de estimular o presidente e sua segurança miliciana a adotarem a violência como padrão na cobertura jornalística da campanha presidencial de 2022.

Vítima de ataques misóginos de Bolsonaro e de sua prole, a repórter Patrícia Campos Mello, da Folha, processou o presidente e o Zero Três Eduardo. Obteve sentenças condenando a dupla a pagar indenizações por danos morais de R$ 20 mil e R$ 35 mil. Certas coisas não podem passar em branco.


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