Semana On

Quarta-Feira 18.mai.2022

Ano X - Nº 487

Poder

Fascistas, Não Passarão!

Jornalistas são agredidos por seguranças de Bolsonaro em Roma

Postado em 01 de Novembro de 2021 - Jamil Chade e Leonardo Sakamoto (UOL), BBC News – Edição Semana On

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O terceiro passeio de Jair Bolsonaro pelas ruas de Roma em apenas três dias foi marcado pela violência de policiais italianos contra jornalistas. O presidente, depois de retornar para o centro da capital italiana ao concluir o G20, decidiu encontrar com apoiadores em uma rua atrás da embaixada do Brasil.

Depois de sair pelo balcão da embaixada no melhor estilo de Evita Peron para acenar aos apoiadores, Bolsonaro desceu para falar com os brasileiros. Fez um discurso que repetia seus principais motes na pandemia e fez fotos com os apoiadores, sempre sem máscara.

 Mas a violência começou antes de sua aparição. Num certo momento, quando a repórter da Folha de S.Paulo deu um passo na direção de onde o presidente sairia, um policial a empurrou com força. Antes, uma produtora da Rede Globo foi intimidada por supostos populares.

Depois de um breve discurso, Bolsonaro indicou que sairia para caminhar. E, neste momento, diversos jornalistas passaram a ser empurrados e agredidos pelos seguranças que o acompanhavam.

Poucos minutos depois de Bolsonaro deixar a embaixada, a equipe da GloboNews foi agredida por policiais italianos, enquanto um deles levou um dos jornalistas com violência até o encostar em um carro. Já os apoiadores de Bolsonaro eram autorizados a ficar mais perto do presidente. O repórter da GloboNews levou um soco do segurança.

Antes disso, Bolsonaro se mostrou hostil com o trabalho do repórter da Globo. Ao ser questionado sobre por que não havia ido ao encontro do G20 pela manhã, o presidente respondeu: "É a Globo? Você não tem vergonha na cara."

Quando a reportagem do UOL foi filmar a violência contra os jornalistas da GloboNews e tentar identificar o policial italiano que cometeu a agressão, o segurança empurrou, agarrou o braço para torcê-lo e levou o celular. Instantes depois, jogou num dos cantos da rua.

O colunista do UOL e a repórter da Folha registraram queixa das agressões na polícia.

Todos os jornalistas que estavam oficialmente credenciados e portavam suas identificações claramente durante a caminhada do presidente Bolsonaro. Os policiais italianos estavam sendo acompanhados também por seguranças brasileiros.

"Esse episódio lamentável é reflexo direto dos atos do presidente. O comportamento dos seguranças espelha o de Bolsonaro, que reage com violência a quem simplesmente cumpre sua função ao seguir seus passos e o submeter a um contraditório que ele sempre busca evitar", disse Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL.

Em nota sobre o episódio, a Folha de S.Paulo afirmou: "A Folha repudia as agressões sofridas pela repórter Ana Estela de Sousa Pinto e outros jornalistas em Roma, mais um inaceitável ataque da Presidência Jair Bolsonaro à imprensa profissional."

Diante da confusão que se estabelecia, Bolsonaro abortou o passeio menos de dez minutos depois, e retornou para a embaixada.

Num raro momento mais próximo ao presidente, o UOL perguntou a Bolsonaro por qual motivo ele não irá para a Cúpula do Clima, em Glasgow. Ele apenas respondeu: "não te devo satisfação".

Nenhum dos policiais aceitou explicar se eram segurança da embaixada, privados ou do estado italiano. Da parte do governo brasileiro, membros da assessoria de imprensa acompanharam a caminhada e, em nenhum momento, intercederam ou saíram para ajudar os jornalistas.

Procurada, a Secom não respondeu sobre as agressões. Nenhum contato por parte da delegação brasileira foi realizado com os jornalistas depois dos acontecimentos.

Por meio de nota, a comissão de liberdade de expressão da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) repudiou as agressões contra os jornalistas. "É lamentável que incidentes como esse ocorram, refletindo uma postura frequente de desrespeito ao trabalho dos profissionais de imprensa", diz a entidade.

Imprensa internacional repercute agressão

A agressão contra jornalistas brasileiros foi notícia na imprensa italiana e internacional.  Uma reportagem do jornal italiano La Repubblica disse que uma investigação está em curso após queixa prestada por alguns dos profissionais de comunicação agredidos.

O texto acrescentou que ainda não está claro se os agressores faziam parte da "escolta de Bolsonaro" ou se eram "policiais" cedidos pelas autoridades italianas para garantir a segurança do presidente brasileiro.

"A Delegacia de Polícia negou o episódio ocorrido no domingo na Piazza Navona (praça onde fica a embaixada brasileira em Roma, que serviu de acomodação para Bolsonaro). Mas os repórteres não recuam e agora há uma investigação sobre o caso", escreveu o La Repubblica.

"Existem vários vídeos que documentam o ataque aos dois jornalistas e que agora foram entregues aos carabinieri (polícia militar italiana), em apoio à denúncia".

Já o site da emissora Sky TG24, o segundo maior canal de notícias da Itália, republicou o vídeo da agressão, feito pelo jornalista e colunista do portal UOL Jamil Chade.

No Reino Unido, o jornal The Guardian disse que "os ataques contra repórteres brasileiros, que Bolsonaro há muito acusa de tratá-lo injustamente e publicar notícias falsas, culminaram em um fim de semana sombrio para o presidente de direita".

O diário descreveu Bolsonaro como "uma figura isolada, que não fez parte da foto tirada na Fontana de Trevi (famoso ponto turístico de Roma) com os líderes mundiais. Nas ruas de Roma, ele foi fortemente criticado por sua forma de lidar com a pandemia brutal do país, sendo considerado 'genocida' pelos críticos".

No Twitter, o Instituto Internacional de Imprensa (IPI) disse condenar "veemente a violência contra os jornalistas brasileiros" e pediu às autoridades italianas que "investiguem esses incidentes".

Em nota, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) repudiou o ataque e disse que Bolsonaro "incentiva mais ataques do gênero" ao não condenar "atos violentos de seus seguranças e apoiadores a jornalistas que tão somente estão cumprindo seu dever de informar".

"A Abraji repudia mais esse ataque à imprensa envolvendo a maior autoridade do país. Ao não condenar atos violentos de seus seguranças e apoiadores a jornalistas que tão somente estão cumprindo seu dever de informar, o presidente da República incentiva mais ataques do gênero, em uma escalada perigosa e que pode se revelar fatal", disse a entidade por meio de um comunicado.

"Atacar o mensageiro é uma prática recorrente do governo Bolsonaro que, assim como qualquer outra administração, está sujeito ao escrutínio público. É dever da imprensa informar à sociedade atos do poder público, incluindo viagens do presidente no exercício do mandato. E a sociedade, por meio do art 5º da Constituição, inciso XIV, tem o direito do acesso à informação garantido", acrescentou a nota.

Agressão a jornalistas mostra ao mundo a República Miliciana de Bolsonaro

A agressão física a jornalistas que relatam a viagem de Jair Bolsonaro a Roma (um turismo inútil e caríssimo pago com dinheiro público enquanto o povão passa fome) é coerente. O presidente estava reforçando no exterior a imagem do principal produto da República Miliciana do Brasil: a violência.

Agentes de segurança a serviço de Bolsonaro covardemente agrediram Jamil Chade (UOL), Ana Estela de Sousa Pinto (Folha), Leonardo Monteiro (TV Globo), Lucas Ferraz (O Globo) e Matheus Magenta (BBC), no domingo (31), por tentarem fazer seu trabalho, cobrindo a passagem do brasileiro pela capital italiana. Passagem é termo certo, pois sua ida ao G20 só serviu para demonstrar como o Brasil se tornou tóxico sob sua gestão.

Violência naturalizada a ponto de Bolsonaro não ter vergonha de dizer a Tedros Adhanom, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), que ele é o "único chefe de Estado no mundo investigado, acusado de genocida". E ainda achar graça.

A situação, legitimada pela hostilidade de Jair contra profissionais de imprensa, pode chocar no exterior, mas é tristemente comum no Brasil. Cansado de atacar jornalistas por aqui, o bolsonarismo exporta esse tipo de violência, talvez interessado em vender o método para algum autocrata iniciante. Método que inclui a defesa vazia da liberdade de expressão, enquanto a esmaga na base da porrada, do empurrão, da chave de braço, da misoginia violenta.

Apesar de provocar engulhos no naco civilizado da sociedade, as imagens de agressões a jornalistas são um deleite para o bolsonarismo-raiz - aquele 11% da população que justifica os atos tresloucados do presidente, defendendo a violência como meio para a sua perpetuação no poder. Em grupos bolsonaristas em redes sociais e aplicativos de mensagens, na madrugada desta segunda (1), as notícias de agressões eram festejadas e ironizadas, chamadas de mimimi e de vitimismo.

Cenas como a deste domingo, do bolsonarismo atacando jornalistas, se tornaram recorrentes na República Miliciana do Brasil - onde pessoas acertam suas divergências na base do justiçamento e do linchamento, após decidirem quem tem direitos e quem tem só deveres. E onde grupos de seguidores do presidente atuam para silenciar e punir, nas redes e fora delas, aqueles que fiscalizam seu líder e denunciam as irregularidades que ele comete.

A situação lembra, por exemplo, o 3 de maio do ano passado, em frente ao Palácio do Planalto, quando uma turba de fãs de chutou e esmurrou o fotógrafo Dida Sampaio e atacou o motorista Marcos Pereira, ambos do jornal O Estado de S. Paulo. Outros profissionais de imprensa também foram empurrados e xingados. Enquanto isso, da rampa da sede do governo, o ocupante da Presidência sorria e acenava para a multidão. A turba pedia o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional. Celebrava-se, a propósito, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.

Bolsonaro é o responsável pela violência contra jornalistas cometida em seu nome. Não é necessário que ele demande uma ação - apesar de não duvidar que ordens nesse sentido tenham sido passadas a seus seguranças.

No Brasil, seu comportamento e seus discursos, acusando a imprensa de mentir quando a narração dos fatos lhe desagrada, alimentam as milícias que agem para defendê-lo, tornando a vida de outros um inferno. Para muitos de seus seguidores, um ataque à imprensa em nome de Bolsonaro é uma missão civilizatória, quase divina.

O Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil, elaborado pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), aponta que 2020 foi o pior ano para a nossa profissão desde que a entidade começou o levantamento no início da década de 1990. Foram 428 ataques, um aumento de quase 106% em relação ao ano anterior. Desse total, Jair Bolsonaro respondeu sozinho por 175 registros - ou seja 41%.

É claro, como já disse aqui mais de uma vez, que há outros políticos, da esquerda à direita, que também agem de forma intolerante com a imprensa, cujas militâncias já chegaram às vias de fato contra jornalistas. Esses casos também merecem repúdio. Mas o que temos agora é um presidente que usa o ódio à imprensa como instrumento estrutural de política com o uso de tecnologia de comunicação em massa.

Portanto, seria leviano comparar o que acontece hoje com os Camisas Negras do fascismo italiano, que atacavam jornalistas que desagradavam seus líderes. Até porque, a Itália da primeira metade do século 20 não contava com nossa tecnologia de comunicação, que garante que ações de justiçamento sejam promovidas de forma imediata e massiva.

Com a gasolina a mais de R$ 8, o botijão de gás chegando a R$ 140, gente remexendo caminhões de lixo e depósitos de ossos em busca de saciar a fome, 13,7 milhões de desempregados, 608 mil mortos por covid e riscos de apagão elétrico, Bolsonaro está fragilizado. Ele e sua equipe econômica são incapazes de apresentar um projeto para o Brasil, tentando empurrar projetos toscos e tortos para ver se cola. E quando fragilizado, ele ataca.

Se o terreno estava ruim para a imprensa, principalmente as jornalistas mulheres, que ele elegeu como alvos preferenciais (o machismo bolsonarista ao encontrar com o autoritarismo bolsonarismo, cria um ambiente violento, ainda mais porque vem delas as principais reportagens que mostram ao Brasil quem de fato o presidente é), a situação deve piorar.

Cabe à sociedade decidir se quer uma imprensa livre, mesmo que discorde dela, e sair em sua defesa. Ou está satisfeita com a proposta colocada à mesa por Bolsonaro: substituir a pluralidade por uma "Verdade" ditada por ele em lives nas redes sociais, lives em que ele ensina que vacina contra a covid-19 causa Aids.

Uma verdade rasa que esconde um desprezo pela vida e um profundo vazio de políticas para o Brasil e que serve como cortina de fumaça para encobrir os casos de corrupção de sua família. Uma verdade fabricada, que agride quando questionada e que não aceita o contraditório.

Em tempo: E cabe à parcela dos veículos de imprensa que se ajoelhou perante o presidente decidir, diante de ataques a profissionais, se querem defender o jornalismo livre ou preferem atuar como esfregões para passar pano para o fascismo.


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