Semana On

Segunda-Feira 16.mai.2022

Ano X - Nº 487

Poder

Ex-liberal, Guedes agora é ministro do centrão

Sequestrado por Bolsonaro, o ministro sente-se em débito com ele

Postado em 29 de Outubro de 2021 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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A caminho do Natal, o brasileiro descobriu que há uma semelhança entre Papai Noel e o liberalismo de Paulo Guedes. São duas fantasias. O ex-liberal chegou ao governo como superministro. Prometeu ser um gestor inconveniente "piratas privados", "burocratas corruptos" e "criaturas do pântano político". Hoje, é um administrador conveniente aos interesses daqueles que jurava combater. Guedes Virou um subministro da Economia a serviço do centrão e do plano de reeleição de Bolsonaro.

A pretexto de reiterar o hipotético prestígio de Guedes, Bolsonaro disse no domingo que o ex-Posto Ipiranga só deixará o governo junto com ele. Em retribuição, o ministro mimetizou a prática do chefe ao transferir para os economistas que o criticam —Mailson da Nóbrega, Henrique Meirelles e Celso Pastore, por exemplo— as culpas por suas próprias deficiências.

Quando o presidente repete que um ministro está forte e tudo o que o auxiliar tem a mostrar são os músculos de suas cordas vocais, fica evidente que chefe mente e o subordinado finge acreditar. Ainda que os economistas que deram as cartas no passado tenham cometido erros, desconstruir-lhes a obra não apagará o insucesso de Guedes.

Além de não construir o que prometera, Guedes dedica-se a demolir a obra alheia, dinamitando um teto de gastos que dizia ser inegociável. O subministro afirmou várias vezes que, se não conseguisse aprovar as reformas, pegaria "um avião" e iria "morar lá fora". Parte de sua fortuna foi na frente. Livre da inflação e corrigida pelo dólar, aguarda por ele num paraíso caribenho.

Quando Bolsonaro admitiu, ainda em campanha, que não entendia nada de economia, inspirou medo. Mas muita gente ficou tranquila porque o capitão esclareceu que dispunha de um Posto Ipiranga. Imaginou-se que o presidente não teria um ministro da Economia. O ministro é que teria o presidente. Engano. Bolsonaro revelou-se um presidente indomável sob controle do centrão. E Guedes, desmoralizado, é um subministro da cota das "criaturas do pântano político".

Síndrome de Estocolmo

Por pouco, por pouco mesmo, Paulo Guedes, ministro da Economia, não perdeu o emprego na semana passada. Resistiu o quanto pôde às pressões para pedalar a lei do teto de gastos. Ante o risco de ser mandado embora, capitulou, salvando-se a si mesmo.

Mas não é o que ele diz. Atribui sua salvação ao presidente Jair Bolsonaro: “É sempre assim, estou morrendo afogado e ele aparece e renova a confiança. E nós continuaremos nessa aliança de conservadores e liberais por um futuro melhor para o nosso país”.

A síndrome de Estocolmo é um transtorno psicológico que pode acontecer em pessoas que se encontram em situação de tensão. O subconsciente é capaz de fazer com que a vítima estabeleça uma conexão mais pessoal e emocional com o agressor.

Foi descrita pela primeira vez em 1973 após assalto a um banco em Estocolmo, na Suécia. As pessoas ali feitas reféns pelos bandidos depois foram visitá-los na prisão e negaram ter sofrido qualquer espécie de violência capaz de pôr em risco suas vidas.

Bolsonaro sequestrou Guedes, que há uma semana só faz lhe agradecer pelo que ocorreu.


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