Semana On

Segunda-Feira 16.mai.2022

Ano X - Nº 487

Coluna

Indígenas Guarani Kaiowá retornam ao território tradicional em Naviraí

Ao todo, são trinta famílias, 56 adultos e 65 crianças e adolescentes instalados no tekoha urbano Teko-Ava

Postado em 20 de Outubro de 2021 - Adi Spezia - Cimi

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Indígenas Guarani Kaiowá, vivendo em contexto urbano em Naviraí, no Mato Grosso do Sul (MS), realizaram o retorno ao território tradicional na sexta-feira, 15 de outubro. Ao todo, são trinta famílias, 56 adultos e 65 crianças e adolescentes instalados no tekoha urbano Teko-Ava, na Aldeia Borevi-ry. Juntos, cobram a garantia de seus direitos originários, como a demarcação do território tradicional.

Expulsos de seu território e, novamente expulsos da cidade, os indígenas buscam viver conforme seu modo de vida, tradições e cultura. “Estamos vivendo do nosso jeito, com nossa cultura. Queremos e precisamos de diálogo sobre educação, saúde e território”, destaca o Povo Guarani Kaiowá em nota publicada no sábado, 16.

Segundo as lideranças do Povo Guarani Kaiowá, que devido ao acirramento dos conflitos na região não serão identificadas, a retomada fica em Área de Preservação Permanente (APP) da prefeitura de Naviraí, município próximo à Dourados, com mata ciliar e córrego completamente poluídos.

“Às margens ao córrego Mboreviry viviam nossos ancestrais. Mas o desmatamento da região para a formação de cidade fez com que o Povo Guarani Kaiowá se deslocasse para outros lugares vizinhos, como a Aldeia Jarará, em Juti Mato Grosso do Sul”, contam os indígenas.

Hoje, os Guarani Kaiowá relatam que a “área tem risco de desmoronamento, erosão, água de esgoto, que corta dentro da cidade. Nossas famílias moram em baixo de lona, sem atendimento médico. Sem condições foi ouve picada escorpião e internação, com urgência, de uma criança de 3 anos”, destacou uma das lideranças do tekoha-urbano Teko-Ava.

Em nota, os indígenas esclarecem o porquê decidiram realizar o retorno ao território, uma ocupação de luta e resistência em retorno ao território, de preservação ecológica e cultural, asseguram. A exclusão social, insegurança alimentar, racismo e a violência estão entre as razões pelas quais decidiram pela retomada.

 “Resolvemos ocupar, pois a pandemia afetou as famílias em várias áreas: falta de empregos; sem condições de pagar aluguel; falta de sustento, de alimentos; sem espaço para plantar; a inexistência da assistência social para acompanhar, ou a participação nos projetos sociais; sem educação e saúde, que as mulheres e crianças indígenas necessitam”, denunciam os indígenas. Eles ainda asseguram que as decisões são tomadas de forma coletiva no tekoha urbano Teko-Ava.

Muito além de retornar ao território tradicional, com a ação os indígenas buscam retomar sua identidade, sua luta pelo território e a defesa de seus direitos tradicionais. A retomada é símbolo de resistência aos povos. “Nossa luta é por território, moradia educação e preservação da cultura”, afirmam os Guarani Kaiowá.

Raízes Guarani Kaiowá em Naviraí

Em Naviraí, há evidências e história de pessoas que viviam no local antes mesmo da cidade ser emancipada, em 1963. O cemitério da cidade tem origem indígena, as histórias contadas pelos mais velhos dão conta da existência dos Guarani Kaiowá na área urbana de Naviraí. “Tanto que Naviraí vem dos Guarani”, explica a professora do povo Guarani Kaiowá, Cunhã Poty Rendy.

Embora invisibilizada, ela conta que existem evidências, estudos antropológicos que não foram publicados ainda, das raízes Guarani e Kaiowá em Naviraí, Mato Grosso do Sul. “Temos a árvore genealógica viva aqui, não só de uma, mas de várias famílias. A anciã mais idosa que temos tem 94 anos. Ela nasceu aqui e conta toda a história que existe. Há muitas histórias sobre o lavar de roupa em comunidade, das brincadeiras das crianças desse rio no centro da cidade”, conta a professora.

Naviraí foi uma região com muita madeira. Com a colonização, madeireiras se instalaram no local e a comunidade Guarani Kaiowá foi sendo expulsa do território. Indígenas das aldeias Jarará, Taquara e Kurupi contam sobre a passagem de seus ancestrais por Naviraí e lutam pela demarcação do território.

“Essa luta vai permanecer, não é porque saímos da aldeia que deixamos de ser indígenas. Temos direito à moradia, temos direitos aos estudos com respeito a língua Guarani Kaiowá, temos de ser respeitados no modo de ser, agir e viver”, afirmou Cunhã Poty Rendy.

-

Confira a Nota na íntegra:

TEKOHA URBANO NAVIRAÍ/MS

OCUPAÇÃO DE LUTA E RESISTÊNCIA EM RETORNO AO TERRITÓRIO

PRESERVAÇÃO ECOLÓGICA E CULTURAL

Povo Guarani Kaiowá em Naviraí/MS

 Nós, indígenas Guarani Kaiowá em área urbana de Naviraí, depois de viver em contexto urbano sem viver em aldeia, sofrendo com a escassez de trabalho e serviço assalariado, não temos os direitos constitucionais à igualdade racial, segurança, segurança alimentar para essas famílias excluídas da sociedade, sendo invisibilizados como povo. São constantes as agressões de racismo, discriminação entre outras formas de nos sentir excluídos da sociedade urbana do município. Sobrando como última possibilidade sair das aldeias para viver e trabalhar do jeito karaí, sofremos com alto preço dos mantimentos básicos de supermercado fez com que ficassem encurralados em dívidas e dificultando o pagamento no aluguel.

Em diálogo constante com comunidade, sobre as dificuldades enfrentadas pelos parentes em todos os aspectos, as decisões da comunidade sempre são consultadas a comunidade por completo, a decisão sempre corresponde ao coletivo respeitando os anciãos e lideranças do Tekoha.

A oportunidade e oferta de trabalho para o Guarani Kaiowá em contexto urbano é mais difícil, pois temos a barreira da língua materna, porém buscamos oportunidades de melhorias para nossos familiares. Por tudo isso, reocupamos nosso território tradicional para viver novamente em comunidade, no lugar que não nos deixaram viver nele pela criação de APP.

Na ocupação ocorrida na data do dia 15/10/2021, às 18 horas, com apoio e permanência de 30 famílias, inicialmente com perspectivas de 67 famílias, realizarem a ocupação. Atualmente, são 56 adultos, 65 crianças e adolescentes.

Com moradias de barraco de lona, ausência de energia elétrica e água encanada. Aqui estamos vivendo do nosso jeito, com nossa cultura, queremos nossos direitos originários, com a demarcação do lugar que sempre foi nosso território, mas que cidade nos expulsou.

A comunidade já utiliza o local com registros (fotos e vídeos) de ocupação para preservação do ativismo da cultura Guarani Kaiowá. Queremos e precisamos de diálogo sobre educação, saúde e território.

Teko-Ava, Naviraí/MS, 16/10/2021.


Voltar


Comente sobre essa publicação...