Semana On

Domingo 28.nov.2021

Ano X - Nº 469

Brasil

Após salvar o Brasil da covid, ciência recebe do governo um cuspe na cara

Orçamento do setor foi reduzido por Bolsonaro em 99%

Postado em 14 de Outubro de 2021 - Leonardo Sakamoto (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

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O corte de R$ 600 milhões nos recursos previstos para o Ministério da Ciência e Tecnologia reforça o equívoco de quem afirma que o governo Bolsonaro acabou. Pelo contrário, ele segue a todo vapor no seu principal objetivo: desconstruir o país para reconstruí-lo à sua imagem e semelhança. E na realidade paralela do bolsonarismo, ciência muitas vezes é um problema, não a solução.

Entidades científicas avisam que a tungada - realizada pelo Congresso Nacional a pedido do ministro da Economia, Paulo "Ilhas Virgens" Guedes - reduzirá o financiamento e, por conseguinte, a produção de conhecimento no Brasil. No ano em que a ciência nos salvou do charlatanismo, do curandeirismo e do negacionismo, ela recebe um cuspe na cara como agradecimento.

O Brasil ficou menor durante a pandemia porque o governo e seus aliados deram as costas para médicos e cientistas, promovendo tratamentos e remédios ineficazes, atacando o isolamento social, afirmando que vacinas transformariam pessoas em jacarés ou matariam adolescentes, fazendo experimentos em cobaias humanas.

O epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas, calcula que mais de 400 mil das 600 mil mortes poderiam ter sido evitadas.

O bolsonarismo elabora seus planos visando às suas necessidades políticas e econômicas, da reeleição ao lucro fácil. Qualquer entrave colocado no caminho de seus objetivos é atacado violentamente. Nesse contexto, a ciência, que expõe as mentiras de Bolsonaro, tem sido asfixiada - o orçamento do CNPq, que financia a pesquisa nacional, neste ano, é 38% do que era em 2013.

Não à toa, Bolsonaro acusou o Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe) de manipulação de dados de satélites quando o desmatamento na Amazônia disparou. O seu governo atacou a fiscalização ambiental e deu liberdade a madeireiros, garimpeiros, grileiros e agropecuaristas ilegais para agirem. Quando veio a conta, porque a conta sempre chega, ele acusou a ciência de mentir.

A tragédia é que Bolsonaro está nos condenando a um apagão de conhecimento nas próximas décadas, uma vez que projetos científicos não são ligados e desligados do dia para a noite. A redução no orçamento para pesquisa não apenas atrapalha processos em andamento, mas desestimula os novos cientistas a persistirem na carreira.

O governo se justifica afirmando que apenas realocou recursos e que a ciência vai ser beneficiada com recursos para a educação ou a produção de radiofármacos. Mas não é a mesma coisa. Estamos falando de produção científica de base, coisa difícil de construir e fácil de dilapidar.

O neurocientista Miguel Nicolelis, considerado um dos principais nomes da ciência brasileira em todo o mundo, afirmou à coluna tempos atrás, que esses cortes do governo Bolsonaro representam uma renúncia à nossa soberania e amputa as pernas intelectuais de um país, impedindo-o de andar.

"Não consigo lembrar, nos últimos 50 anos, de um país que ceifou sua base científica de forma rápida, dramática e sem justificativa lógica. Porque a economia que está sendo feita é nada comparado com o impacto que isso vai trazer para o futuro do país", disse Nicolelis.

O mais desconcertante é que para além de cortes por necessidades orçamentária, a porrada de R$ 600 milhões nos recursos a serem destinados ao ministério e ao CNPq faz parte do projeto de desmonte do governo Bolsonaro. O presidente, que vê os fatos como inimigos, precisa reduzir o país a cinzas para reergue-lo sob novas bases.

"Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer. Que eu sirva para que, pelo menos, eu possa ser um ponto de inflexão, já estou muito feliz."

A declaração dele, dada a lideranças de extrema direita em um jantar nos Estados Unidos em março de 2019, vai ao encontro da desconstrução de um país minimamente iluminado pela razão e por fatos por um baseado em superstições e mentiras, no qual ele próprio possa ser, como diria o Evangelho de João, capítulo 14, versículo 6, o caminho, a verdade e a vida.

Pede pra sair

Quando soube que, a pedido do ministro Paulo Guedes, da Economia, o Congresso reduzira a pó o orçamento de sua pasta, o ministro Marcos Pontes, da Ciência, Tecnologia e Inovação, falou em pedir demissão. No dia seguinte, disse que ficaria no cargo em consideração aos jovens cientistas que precisam dele.

Depois, voltou a reclamar – desta vez em mensagem postada no Twitter: “Falta de consideração. Os cortes de recursos sobre o pequeno orçamento de Ciência do Brasil são equivocados e ilógicos. Ainda mais quando são feitos sem ouvir a Comunidade. Científica e Setor Produtivo. Isso precisa ser corrigido urgentemente”.

E se não for corrigido, e muito menos urgentemente? O que pesará mais: sua consideração pelos jovens cientistas ou seu apego ao emprego? Antes, ele era apenas lembrado como o primeiro e único astronauta brasileiro até aqui. Dava palestras e vendia um bonequinho onde aparecia em trajes de astronauta.

Preocupado em agradar a Força Aérea depois de tanto agradar o Exército e a Marinha na montagem do seu governo, o presidente Jair Bolsonaro lembrou-se de Pontes e o escalou para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Mas de que adianta ser ministro e não ter dinheiro para gastar e investir?

Do ministério foram retirados 600 milhões de reais para uso em outras áreas. O ministério ficou apenas com 89,8 milhões. Os recursos específicos para projetos de ciência e tecnologia caíram de 655,4 milhões para 7,2 milhões. Dá para nada, a não ser para revelar o apreço que o governo tem pela ciência e tecnologia.


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