Semana On

Domingo 23.jan.2022

Ano X - Nº 475

Poder

Prevent tentou economizar seu patrimônio gastando a vida de Tadeu no lugar

CPI deseja saber de que borda da terra plana doutor Queiroga planeja pular

Postado em 08 de Outubro de 2021 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O depoimento de Tadeu de Andrade, no último dia 7, reforçou que hospitais da Prevent Senior adotaram um protocolo de enfrentamento da pandemia visando não à saúde de seus pacientes, mas à sua própria saúde financeira.

Como havia sido adiantado por Bruna Morato, advogada que representa 12 médicos que trabalhavam para a empresa, Tadeu confirmou que após um pacote de semanas na UTI, tentaram removê-lo para os cuidados paliativos à espera da morte. Queriam economizar o patrimônio da Prevent gastando sua vida no lugar.

Emocionado, ele disse à comissão que se a família não tivesse batido o pé e ameaçado chamar a imprensa, provavelmente não estaria vivo. Em seu prontuário, foi registrado que sua filha deu autorização à mudança - o que, segundo ele, é mentira.

"Esse período de UTI durou praticamente, mais ou menos, uns 30 dias, quando uma das minhas filhas recebe um telefonema da doutora Daniella de Aguiar Moreira da Silva, comunicando que eu passaria a ter os cuidados paliativos. Ou seja, sairia da UTI, iria para um chamado leito híbrido e lá teria, segundo as palavras da doutora Daniella, maior dignidade e conforto, e meu óbito ocorreria em poucos dias", afirmou aos senadores.

Para não ficar mexido com as declarações de Tadeu uma pessoa precisa ter esquecido, há muito, sua humanidade. Foi uma das falas mais fortes da CPI da Covid até agora. Menos para quem é sócia ou apoiador do grande esquema de morte envolvendo o governo Jair Bolsonaro, o Gabinete Paralelo da Saúde, produtores de fake news, políticos amigos e a própria Prevent Senior.

Resumidamente: o plano de saúde fornecia subsídios a médicos negacionistas e a Jair Bolsonaro para que convencessem a população de que a cloroquina funcionava contra a covid. Assim, poderiam empurrar as pessoas de volta à rua - e satisfazer aos moços que têm offshores nas Ilhas Virgens. Para tanto, usava seres humanos como cobaias em experimentos humanos manipulados à la Josef Mengele. Sendo peça-chave do esquema, a Prevent Senior acreditava estar blindada para encher seus clientes de cloroquina, cortar tratamentos e retirar a covid de atestados de óbito

Afinal, é mais barato dar comprimido do que manter no respirador - o que pode ser decisivo para uma rede que atende basicamente idosos. O nível era tão baixo que, segundo a advogada Bruno Morato, um dos profissionais de saúde ouviu do hospital uma tétrica recomendação: "óbito também é alta".

Em outro país, os responsáveis pela empresa e pelo experimento humano seriam impedidos de passar a um quilômetro de um posto de saúde. No Brasil, contudo, são defendidos bravamente por senadores da base governista, pelos fãs de Jair Bolsonaro e pelo próprio bilionário que passou pano para a fraude no atestado de óbito da mãe.

É tanta porcaria que vem sendo revelada na sequência que uma população anestesiada, seja pelo cansaço ou pela descrença, corre o risco de encarar a repetição de um dos mais odiosos crimes contra a humanidade como algo normal.

Até porque o bolsonarismo já anestesiou várias das instituições que não conseguiu sequestrar. Tanto que o diretor da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Paulo Roberto Rebello Filho, afirmou à CPI, nesta quarta (6), que vai sim rolar intervenção na Prevent Senior... em, pelo menos, 15 dias. A agilidade impressiona.

Como já disse aqui, o segredo do sucesso da Prevent Senior no tratamento da covid não foi a hidroxicloroquina, mas a borracha, que apagou a doença dos prontuários médicos e dos atestados de óbito. Como no registro das mortes do médico negacionista Anthony Wong e de Regina Hang, mãe do empresário negacionista Luciano Hang.

Tadeu, por pouco, não se transformou em mais um dos casos que vem sendo tratados pela CPI. Pois, se tivesse morrido, alguém faria a mágica de tirar a covid de seu prontuário, como foi feito com vários outros pacientes.

Espera-se que o Brasil ainda se emocione com a história de uma pessoa que quase morreu por culpa da ganância e do negacionismo de outros, mas sobreviveu para contar a história.

A impressão, contudo, é que vamos sair dessa pandemia mais à imagem e semelhança do presidente da República, mesmo que ele perca a eleição. Seu legado será um país mais enamorado da morte, mais insensível à dignidade humana, em que "todo mundo morre um dia" substitua o "ordem e progresso", com cada um por si e Deus acima de todos.

Queiroga e a Terra Plana

O segredo para quem está numa corda bamba é continuar andando. Parar é perigoso. No interminável debate sobre a ineficácia da cloroquina, Marcelo Queiroga equilibra-se entre o diploma de médico e a insanidade anticientífica de Bolsonaro. E o ministro da Saúde decidiu parar. Fez isso ao avalizar a retirada da pauta de uma reunião da Conitec a análise de parecer que condena categoricamente o uso de cloroquina e outras poções mágicas da predileção de Bolsonaro no tratamento de Covid.

Conitec é a sigla que identifica a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Como o nome indica, esse órgão consultivo do Ministério da Saúde serve para recomendar ou desaconselhar a incorporação de remédios e procedimentos médicos na rede hospitalar do SUS. Os senadores da CPI enxergaram as digitais de Bolsonaro no sumiço do parecer anticloroquina que constava da pauta da Conitec. Concluiu-se que, com o auxílio de Queiroga, o Planalto agiu para evitar o fornecimento de material novo para o relatório final da CPI, a ser aprovado na semana que vem.

A CPI decidiu, então, reconvocar Queiroga. A quinta-feira (7) seria o último dia de depoimentos na comissão. Mas os senadores resolveram esticar a agenda exclusivamente para inquirir Queiroga na segunda-feira. Será a terceira inquirição de Queiroga. Num de seus depoimentos anteriores, em maio, o ministro citou 27 vezes a Conitec para se esquivar de responder se concorda ou não com a defesa que Bolsonaro faz do tratamento precoce à base de cloroquina. Disse que havia solicitado ao órgão uma posição técnica sobre o tema. Alegou que, como ministro, teria de aguardar.

Pois na hora que a Conitec estava pronta para condenar, com um ano e meio de atraso, o uso do kit cloroquina, o assunto sumiu da pauta. Para desassossego de Bolsonaro, o parecer contrário ao uso dos seus remédios de estimação ganhou as manchetes. A CPI já não quer saber se o cardiologista Queiroga é contra ou a favor do uso da cloroquina. O que a comissão deseja esclarecer é de que borda da terra plana o ministro da Saúde planeja pular. Queiroga trocou a ciência pela ficção científica bolsonarista.


Voltar


Comente sobre essa publicação...