Semana On

Quinta-Feira 19.mai.2022

Ano X - Nº 487

Brasil

De olho em evangélicos, governo quer ser sede de cúpula mundial de religião

Em culto, Bolsonaro diz que ‘minorias’ devem ‘se manter na linha’

Postado em 07 de Outubro de 2021 - Jamil Chade (UOL), Carta Capital - Edição Semana On

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O governo brasileiro quer sediar, em 2022, uma cúpula sobre religião no país. A pauta é um dos carros-chefe da nova diplomacia brasileira e que, ao longo dos últimos dois anos, fechou alianças com governos ultraconservadores para promover a agenda.

O encontro - conhecido como Reunião Ministerial para o Avanço da Liberdade ou Crença Religiosa da Aliança Internacional para a Liberdade ou Crença Religiosa (IRFBA) - deveria ser realizado em 2021. Mas, por conta da covid-19, foi cancelado. O governo quer, ainda assim, manter o evento no Brasil para 2022. Mas, para isso, negocia com os demais parceiros.

As revelações fazem parte de uma resposta que a entidade Conectas Direitos Humanos recebeu ao solicitar, por meio da Lei do Acesso à Informação, esclarecimentos sobre o evento.

Ainda em 2019, o tema passou a ser um dos assuntos que aproximou o Brasil do governo de Donald Trump, além de governos como o da Polônia e Hungria. De fato, no ano passado, a cúpula ministerial foi promovida pelo governo polonês, um dos principais defensores da pauta no cenário internacional, ultraconservador e acusado por entidades de direitos humanos de atacar pautas de gênero.

Num discurso no Conselho de Direitos Humanos neste ano, a delegação brasileira garantiu que "se orgulha de sua cultura de tolerância religiosa, pluralismo e diálogo". Mas insistiu que o Brasil está "firmemente ancorado em nossas fundações cristãs".

O próprio presidente Jair Bolsonaro também usou o seu discurso de abertura na Assembleia Geral da ONU para fazer referências a pautas cristãs e acenar aos grupos evangélicos. "Temos a família tradicional como fundamento da civilização. E a liberdade do ser humano só se completa com a liberdade de culto e expressão", disse.

Ao citar o Afeganistão e a possibilidade de vistos humanitários, o presidente voltou a indicar que eles seriam concedidos "para cristãos, mulheres, crianças e juízes afegãos".

Em reuniões fechadas na ONU, o governo brasileiro também tem insistido em incluir referências a "organizações de fé" quando resoluções são negociadas no Conselho de Direitos Humanos e que citam a sociedade civil.

Se oficialmente o tema do encontro em 2022 é a liberdade religiosa, observadores na ONU destacam que o real motivo da iniciativa é a de promover a liberdade do culto cristão, tanto em países como maioria muçulmana como em debates sobre a laicidade no Ocidente.

Tanto o esforço do governo em sediar a cúpula de religiões como a inclusão de referências cristãs em discursos e resoluções são interpretadas até mesmo dentro do Itamaraty como um sinal do uso da política externa como instrumento para consolidar o apoio evangélico, num momento crítico para a campanha eleitoral de 2022.

Na semana passada, a coluna revelou com exclusividade como, fora do Itamaraty, o governo tem liderado uma diplomacia paralela e que tem a rede ultraconservadora como foco das atenções.

No início de setembro, coube à Secretária Nacional da Família do ministério comandado por Damares Alves realizar uma turnê por vários países, participando de debates e reuniões com grupos religiosos. Ângela Gandra passou por países como Ucrânia, Portugal e Espanha, em encontros com negacionistas, membros da Opus Dei e ultraconservadores.

Oficialmente, o Ministério da Família, Mulheres e Direitos Humanos informou à reportagem que Angela Gandra tirou férias entre os dias 2 e 12 de setembro. «Portanto, ela estava afastada das funções públicas», disse. Mas o governo não respondeu ao ser questionado sobre quem teria pago pela viagem da secretária. A pasta tampouco explicou o que foi tratado em cada uma das paradas da secretária.

Na linha?

O presidente Jair Bolsonaro reforçou no último dia 5 seu discurso negacionista sobre a pandemia e fez um novo aceno à sua base social minoritária durante cerimônia religiosa em Brasília. No Simpósio Cidadania Cristã, na Igreja Batista Central da capital federal, o ex-capitão também voltou a incitar a desconfiança no sistema eleitoral brasileiro.

“Tem muita gente melhor que eu pelo Brasil. Mas quis o destino que a Presidência estivesse com a gente. Temos que trabalhar, aguentar pressões, desaforos, fake news, ameaças. E tocar o barco”, afirmou o presidente no início de seu discurso. “Respeitemos as minorias, mas as leis são para que eles se mantenham na linha, não nós, que já estamos na linha”.

Bolsonaro tornou a dizer que defende a família ‘tradicional’ e que sabe ‘o que representa a família para a sociedade’. Em uma de suas tentativas de piada, declarou que o fato de sua filha Laura ter 10 anos indica que ele está “na ativa e sem aditivo”. Ministros como Onyx Lorenzoni (Trabalho e Previdência), Marcelo Queiroga (Saúde) e Damares Alves (Família, Mulher e Direitos Humanos) marcaram presença no evento.

Durante o pronunciamento, o presidente exibiu em um telão um vídeo gravado por um apoiador. Sem nenhuma crítica ao governo, o homem não identificado lista supostas realizações da gestão e diz que ‘descobrimos que há fraude nas eleições’. Apesar dos ataques ao sistema eleitoral, Bolsonaro jamais conseguiu demonstrar qualquer irregularidade nos pleitos.

Na cerimônia religiosa, o ex-capitão ainda voltou a exaltar remédios ineficazes contra a Covid-19 e alegou que as dificuldades econômicas que o País enfrenta decorrem das medidas adotadas por prefeitos e governadores para frear a disseminação da doença.

“Eu não me furtei de falar na ONU, para o mundo, de tratamento precoce. Que deveríamos respeitar a autonomia do médico. Ou temos que nos consultar com William Bonner e os três patetas da CPI?”, perguntou o presidente, em novo ataque aos senadores Omar Aziz (PSD-AM), Renan Calheiros (MDB-AL) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP). “Tem gente que fala que não tem comprovação científica. Tá bom, então você recomenda o quê? Não tem o que recomendar. Grandes remédios foram descobertos por acaso”.

Por fim, Bolsonaro defendeu a indicação de André Mendonça, ex-ministro da Justiça e da Advocacia-Geral da União, para uma cadeira no Supremo Tribunal Federal. A sabatina na Comissão de Constituição e Justiça do Senado sequer tem data marcada.

“Espero que Mendonça seja aprovado. Terá uma sabatina, creio que não terá dificuldade de ser questionado sobre questões jurídicas. Se for aprovado, tomará posse. Só fiz dois pedidos a ele: que toda semana, ao iniciar os trabalhos, peça dois minutos e faça uma oração dentro do STF e que todo mês quero tomar com ele uma Tubaína”.


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