Semana On

Domingo 23.jan.2022

Ano X - Nº 475

Brasil

Itamaraty admite à ONU que grupos neonazistas se intensificaram no Brasil

Carlos e Eduardo Bolsonaro praticam tiro em clube nos EUA acusado de usar sinais nazistas

Postado em 07 de Outubro de 2021 - Jamil Chade (UOL), Alice Maciel, Bruno Fonseca, Clarissa Levy, Ethel Rudnitzki (Agência Pública) – Edição Semana On

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Em informações submetidas às Nações Unidas, o governo brasileiro admite: o movimento neonazista passou por uma expansão no país desde os anos 80 e hoje está ativo. Os dados fazem parte de um informe da ONU que será debatido na segunda-feira (11), no Conselho de Direitos Humanos, em Genebra.

Os organizadores do documento liderado pela relatora das Nações Unidas, Tendayi Achiume, pediram para que cada governo entregasse dados nacionais da situação dos movimentos de tendências neonazistas, num esforço internacional para tentar mapear o cenário e dar uma resposta.

No caso das respostas brasileiras, a constatação que é citada no informe final da relatoria da ONU, de 13 de setembro, é de que houve uma intensificação desses grupos neonazistas. "Desde os anos 1980, o movimento neonazista se intensificou no Brasil. Ele continuou ativo e incluiu mais de 12 grupos", apontou o texto da ONU, citando as respostas dadas pelo Itamaraty.

Outro aspecto avaliado pela relatoria se referia à promoção do discurso do ódio, aproveitando-se de novas tecnologias e a incapacidade das plataformas digitais de dar uma resposta às tendências.

Nas informações que submeteu para a ONU, porém, o governo brasileiro ignorou a promoção do discurso do ódio por parte do próprio presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e diversos ministros.

Se no Brasil o governo Bolsonaro tenta impedir que as redes sociais retirem conteúdo de seus sites, a versão oficial ao mundo é outra. "O governo do Brasil declarou que com o aumento do uso de novas tecnologias da informação, o discurso do ódio e da intolerância na Internet também aumentou significativamente", aponta o documento oficial da ONU.

"Atos de incitamento ao ódio, violência racial e discriminação haviam sido incluídos na legislação penal, assim como a disseminação de símbolos e qualquer forma de publicidade destinada a promover o nazismo", explicou.

De acordo com o texto da relatoria da ONU, o Brasil referiu-se em suas respostas "aos desafios enfrentados na perseguição de atos de incitamento ao ódio em nível nacional".

"Como o discurso do ódio ainda não havia sido explicitamente criminalizado, ele foi processado como um crime de discriminação, tornando difícil intervir e obter provas quando mensagens de discurso de ódio eram difundidas através da Internet", alegou o governo. "A prevenção e repressão de tais crimes foram cruciais para combater a impunidade e evitar a perpetuação de tais atos", completou o governo brasileiro.

Ao longo dos últimos dois anos, flertes de membros e ex-membros do atual governo com símbolos questionáveis ou encontros com descendentes desses grupos deixaram grupos na sociedade indignados. Um deles foi o secretário de Cultura, Roberto Alvim, que, antes da pandemia, fez uma alocução em um cenário que usava referências do regime nazista na Alemanha. Ele acabou perdendo seu cargo.

"Emular a visão do ministro da Propaganda nazista de Hitler, Joseph Goebbels, é um sinal assustador da sua visão [de Alvim] de cultura, que deve ser combatida e contida», disse na época a Confederação Israelita do Brasil (Conib).

Em meados do ano, Bolsonaro recebeu uma deputada alemã de extrema-direita e neta do ministro das Finanças de Adolf Hitler. No início de setembro, o presidente e a ministra Damares Alves concederam entrevistas para um site alemão que está sob monitoramento por suas relações com grupos neonazistas.

Enquanto isso...

Reportagem da Agência Pública aponta que Carlos e Eduardo Bolsonaro praticaram tiro em clube nos EUA acusado de usar sinais nazistas. Era janeiro de 2016 quando Eduardo Bolsonaro vestiu a camisa do clube de tiro 88 Tactical e foi a uma feira de armas nos Estados Unidos, acompanhado do amigo Tony Eduardo de Lima e Silva Hoerhann, instrutor do clube no site da Tactical 88. O evento era a SHOT Show, uma das maiores convenções privadas de tiro e armas do mundo, realizada em Los Angeles a portas fechadas para a indústria armamentista, representantes de clubes de tiro e forças policiais — para participar, era necessário comprovar atuação no setor de comércio de armas.

Em uma foto tirada na ocasião, o deputado federal aparece segurando um rifle rente ao peito, posicionado de forma que deixa visível o logotipo estampado em sua camisa. Sobre o tecido cinza, a insígnia do clube de tiro americano chama atenção: uma águia vermelha que carrega no peito um distintivo com o número 88.

Além da foto, a participação de Eduardo no evento nos EUA com o amigo Tony foi tema de um vídeo postado nas redes em fevereiro do mesmo ano, que contou com a presença do pai, o presidente Jair Bolsonaro. Ambos defenderam o acesso às armas de fogo pela população, junto ao instrutor da 88.

O 88 ostentado por Eduardo Bolsonaro e que dá nome à marca está no centro de uma controvérsia: esse e outros símbolos usados pelo clube de tiro americano são também utilizados por grupos neonazistas e supremacistas brancos. O 88, por exemplo, é empregado por neonazistas para se referirem à saudação “Heil Hitler”, numa aliteração de HH (H é a oitava do alfabeto).

Ao menos desde 2012, o 88 da Tactical tem sido alvo de associações com neonazismo. Na época, o clube ganhou projeção — e críticas — através de uma produção da Netflix chamada Doomsday Bunkers, que mostrou abrigos subterrâneos fortemente armados nos Estados Unidos. Em uma entrevista em 2016, o presidente do clube, Shea Degan, foi a público responder às acusações: segundo ele, o 88 se refere a um código do estado de Nebraska para “situação segura”. 

As acusações, contudo, não se restringem ao número utilizado pelo do clube. A logomarca do Tactical é um pássaro que se assemelha a uma águia carregando o numeral de asas abertas e com a face virada para o lado direito. No brasão do partido nazista alemão havia uma águia adornada pela suástica virada para o mesmo lado.

Em uma das paredes do clube, num mapa de curvas de nível que representariam altitudes de relevo, aparece destacado o número 1488; outro código frequentemente utilizado por grupos neonazistas e supremacistas, que tem origem em uma referência a slogans nazistas.

O 88 Tactical oferece ainda em sua loja e constantemente anuncia em suas redes o café Black Rifle Coffee, uma marca fundada por ex-militares  que se tornou popular nos Estados Unidos entre armamentistas e apoiadores do ex-presidente Donald Trump. Um boné da marca foi uma das pistas para o FBI identificar um dos invasores do Capitólio, em janeiro de 2021. O filho do ex-presidente, Donald Trump Junior, já frequentou o 88 e inclusive autografou uma arma que foi leiloada pelo clube, em 2020.

Em uma publicação no Instagram, o clube 88 divulgou uma ação com um sabor específico da Black Rifle: o café SS, segundo o rótulo, uma sigla para o nome Silencer Smooth (silenciador suave). Essas são as mesmas iniciais da Schutzstaffel, organização paramilitar ligada ao partido nazista, que atuou na repressão policial inclusive nos campos de concentração. 

Há inclusive, na postagem da 88 Tactical com o café SS, comentários que acusam a marca de simbolismo nazista e de fazer dogwhistle. O termo, que significa apito de cachorro em inglês, é usado para descrever a tática de incluir conteúdos subliminares em mensagens para que apenas um público determinado a entenda, numa analogia ao fato de humanos não conseguirem ouvir sons de alta frequência usados para chamar cães.

O cachorro de Shea Degan, presidente do clube, tem o nome Panzer — palavra utilizada para se referir a tanques de guerra em alemão, abreviação de Panzerkampfwagen. O termo ficou conhecido internacionalmente justamente durante a Segunda Guerra Mundial, quando Panzer alemães foram utilizados pelas forças armadas nazistas.

“Ninguém vai admitir que são imagens que remetem ao nazismo, é claro, mas é visível demais a ligação dessas imagens. Eles dizem, por exemplo, que o [1488] é uma coisa da localização do clube no mapa, mas eu fui ver. O clube não está nem localizado nessa altitude”, diz Adriana Dias, pesquisadora especialista em movimentos neonazistas e que analisou os símbolos e posts de divulgação do 88 Tactical a pedido da Agência Pública. Foi ela quem descobriu uma carta do então deputado federal Jair Bolsonaro publicada em sites neonazistas em 2004, conforme revelou o The Intercept Brasil.

A reportagem procurou o clube por email e questionou sobre as acusações de utilização de símbolos usados por grupos neonazistas, mas ainda não houve resposta.

Instrutores do clube acusado de simbolismo neonazista são antigos amigos dos irmãos Bolsonaro

A relação de Eduardo Bolsonaro com a 88 Tactical não se restringe à convenção de armas em 2016. No ano seguinte, ele e o irmão Carlos voltaram ao evento junto a Tony Eduardo e postaram uma foto com representantes da National Rifle Association — um dos principais grupos armamentistas dos EUA. Os filhos de Bolsonaro gravaram também uma live com Tony comentando a SHOT show de 2017.

Além de Tony, a visita à convenção teve a participação de Yves Daberkow de Sousa, outro brasileiro instrutor do 88 Tactical e amigo dos irmãos Bolsonaro. Em um vídeo de 2017, os irmãos visitam a casa de Yves e exibem a coleção de armas do brasileiro no Texas. Eduardo Bolsonaro apresenta Yves como um dos diretores da 88.

Yves está registrado como dono e diretor de um rancho privado de prática de tiro que também fica no Texas, assim como a Tactical. O local se chama USBR Defense, nome que pode ser uma analogia a US de Estados Unidos e BR de Brasil. E assim como o clube de tiro, o espaço tem símbolos utilizados por grupos armamentistas e supremacistas.

Em um celeiro utilizado para treinamento de lutas, há uma versão da bandeira de Gadsden, com a imagem de uma cobra e a frase Don’t tread on me (não pise em mim, em inglês). A bandeira, que foi criada durante a guerra de independência dos Estados Unidos, tem sido progressivamente utilizada por grupos de direita do país, como o Tea Party, e mais recentemente se tornou um símbolo presente em marchas e manifestações armamentistas, como o grupo armado miliciano que desafiou o governo dos Estados Unidos em Oregon, em 2016. Ela também foi utilizada pelos apoiadores de Donald Trump que invadiram o Capitólio, em 2020.

Outra bandeira pendurada no celeiro da USBR é a do Three Percenters, grupo de extrema-direita dos Estados Unidos e Canadá — e que foi listado como grupo terrorista pelo governo canadense em 2021. Bandeiras do Three Percenters também foram usadas pela multidão que invadiu o Capitólio.

O rancho da USBR foi frequentado pelos próprios irmãos Eduardo e Carlos Bolsonaro. Em um vídeo postado por Eduardo em janeiro de 2018, ele treina no local junto a Yves e Tony e defende o livre acesso às armas de fogo. O vídeo é encerrado, inclusive, com a frase don’t tread on me (não pise em mim). Já Carlos postou um vídeo atirando no local em julho de 2018 e marcou o amigo Yves na postagem.

A reportagem procurou a assessoria de imprensa de ambos os irmãos, mas não obtivemos retorno até a publicação. A assessoria de Carlos Bolsonaro confirmou o recebimento da demanda.

No Brasil, família Bolsonaro frequenta clube de instrutor dos EUA

No Brasil, Tony Eduardo é um dos sócios da Escola de Tiro .38, um clube frequentado por Eduardo e Carlos Bolsonaro. Localizado na região metropolitana de Florianópolis, o .38 ficou conhecido nacionalmente não apenas por ser frequentado pelos dois filhos de Jair Bolsonaro, mas também por Adélio Bispo, responsável pelo atentado a faca contra o presidente durante a campanha eleitoral, em 2018. Adélio passou no clube em julho, dois meses antes da facada em Juiz de Fora (MG).

A relação da família Bolsonaro com o .38 vem ao menos desde 2016. Em abril daquele ano, o clube fez propaganda de um treinamento particular de tiro de Carlos Bolsonaro com o instrutor Tony. O vereador foi anunciado como “presença ilustre”. No mesmo ano, o clube anunciou uma conversa com Jair Bolsonaro.

O .38 é mencionado em uma série de postagens de Eduardo e Carlos Bolsonaro, geralmente em vídeos gravados pelos irmãos junto a Tony e Yves. Em uma das postagens de Eduardo no .38, há uma bandeira de Gadsden ao fundo. No Instagram, o próprio .38 anuncia a venda de camisetas com o símbolo da bandeira.

O clube é uma herança familiar de Tony. Foi fundado em 1992 pelo seu pai, delegado de polícia Tim Omar de Lima e Silva, na época como Escola de Tiro .38. Hoje, o negócio é administrado por Tony e seu irmão, Rafael Casanova Hoerhann. Em Santa Catarina, o clube é um ponto de encontro para policiais, oferecendo inclusive treinamentos para as forças policiais civis e militares do estado. Com associados integrantes do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) de Santa Catarina, o clube .38 já teria organizado cursos dentro da força policial, como uma formação com oficiais do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA e com o próprio Tony Eduardo.

Em 2016, Carlos Bolsonaro atuou na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro para que o clube catarinense fosse homenageado com a medalha de mérito Pedro Ernesto. Na justificativa, o filho do presidente citou “a importância deste clube para os cariocas, mesmo tendo sua sede em outro município é algo notório, e com o desenvolvimento dos meios de divulgação da informação cria-se um ambiente perfeitamente plausível para oferecimento desta honraria por nós, vereadores da cidade do Rio de Janeiro”. No ano seguinte, 2017, Carlos Bolsonaro solicitaria à Câmara dos Vereadores uma outra honraria, desta vez para homenagear diretamente Tony Eduardo.

Em suas redes sociais, regularmente Tony Eduardo posta conteúdos sobre armas e treinamentos táticos. Lá divulga o treinamento que fez na SWAT americana, braço policial especializado dos Estados Unidos. Além dos cursos que frequentou junto com forças policiais nos EUA, Tony também posta fotos de treinamentos com forças policiais brasileiras.

A Pública procurou o clube 38 por e-mail, que não retornou até a publicação da reportagem.


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