Semana On

Quinta-Feira 19.mai.2022

Ano X - Nº 487

Coluna

As esquinas que contam nossas histórias

Recordar não é apenas viver novamente. É, sobretudo, valorizar a estrada percorrida

Postado em 07 de Outubro de 2021 - Theresa Hilcar

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Depois da terceira dose da vacina, veio a coragem para ir à agência bancária. Aí vem a pergunta: com tanta tecnologia à disposição, quem ainda vai ao banco hoje em dia? A terceira idade, claro! À medida que os serviços tecnológicos avançam, diminuem nossa capacidade de alcança-los. Simples assim.

E ainda por cima mudaram minha agência. Quando digito o endereço novo no aplicativo não me dou conta do local. Parece remotamente conhecido e só. Mas para minha surpresa, o prédio é o mesmo onde, há mais de 30 anos abri a conta em outro banco. Ou é o mesmo? Nunca sei. De lá pra cá o nome da instituição mudou duas vezes, mas eu continuo firme e forte. Gosto de coisas e locais que me dão conforto.

O banco que se chamava Bamerindus - e depois mudou para HSBC é hoje o Bradesco – fica em frente ao Correio do Estado. A conta foi aberta justamente por isto. Quem cuidava da minha vida financeira era o simpático gerente, Darly Friozi que depois largou a carreira bancária para se tornar corretor de imóveis. No que fez muito bem.

Na porta do banco lanço um olhar saudoso para a sede do jornal. Lugar que já foi local de trabalho e de aprendizado. Para mim o Correio foi a universidade, cuja prática diária do jornalismo superava qualquer sala de aula. E confesso, sinto uma ponta de inveja da jovem que entra apressada no prédio, carregando um bloco de anotações e agenda.  

Consigo-me ver subindo o pequeno elevador – que de tão pequeno, tínhamos instruções expressas para não aglomerar - até o segundo andar. No pequeno “aquário”, como chamávamos as salas envidraçadas, ficava nossa timoneira, a Ester, que dirigia a redação com mãos firmes e certeiras. No aquário maior, dividíamos as baias com mais três colegas, todos de olhos abertos para a notícia. E sem a facilidade da Internet, é bom ressaltar. 

Política, futebol, cidades, polícia, economia e cultura eram as principais. Entrei fazendo matérias de cultura, ganhei espaço para a crônica e anos depois fui incumbida de escrever uma coluna social. Que, a bem da verdade, não falava de firulas, mas de pessoas que eram notícia.

O sol quente me lembra de que preciso sair da esquina do banco. A bem da verdade, as lembranças estão me deixando com olhos marejados.

No caminho de volta passo por ruas e prédios que nem me lembrava mais. Vejo o condomínio de apartamentos que nunca foi bom, mas, que agora, está destroçado. Um outro, cuja propaganda de lançamento na TV participei com outras dezenas de pessoas, numa gravação que durou a noite inteira. Nosso papel era gritar, juntos, um refrão, que já não me recordo.

São tantas imagens e histórias que me vem à mente, que seria preciso duas (ou mais) crônicas para revisitar as memórias. Vamos vivendo tão atropeladamente, de forma tão aleatória, que deixamos para trás tudo que já fomos e o que fizemos. Deixamos “barato” todo o esforço que fizemos. E sim, esquecemos também dos inúmeros passos, das horas aflitas, das escolhas - às vezes difíceis, de tudo que nos fez crescer.

Recordar não é apenas viver novamente. É, sobretudo, valorizar a estrada percorrida, os percalços, erros, aprendizados e conquistas. Somos o que somos porque já fomos muitos. É essa a beleza de viver.


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