Semana On

Sexta-Feira 03.dez.2021

Ano X - Nº 470

Entrevista

‘É muito natural vermos mulheres reproduzindo valores que são contra elas’, diz teóloga

Evangélica, a teóloga Valéria Vilhena investigou a violência doméstica para entender como mulheres aderem a discursos baseados em interpretações seletivas da Bíblia que as oprimem

Postado em 06 de Outubro de 2021 - Fabiana Moraes – The Intercept_Brasil

Foto: Marcelo Santos Foto: Marcelo Santos

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Dentro da verdadeira guerra cultural que se instalou no país principalmente após a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, a teóloga Valéria Vilhena é uma espécie de farol dentro de um contexto farto em opiniões, mas pobre em discussões mais fundamentadas.

Evangélica, ela resolveu estudar a questão da violência doméstica no espectro cristão, descobrindo ali um enorme silenciamento em relação às muitas mulheres agredidas. Seu interesse resultou na pesquisa “Pela voz das mulheres”: uma análise da violência doméstica entre mulheres evangélicas atendidas no Núcleo de Defesa e Convivência da Mulher Casa Sofia e ainda no livro “Uma Igreja sem voz: análise de gênero da violência doméstica entre mulheres evangélicas”.

Conversei com ela sobre o fenômeno do “feminino” com forte perfume retrógrado em oposição ao feminismo, uma filosofia plural, mas generalizada e desprezada nos perfis da cristandade cor-de-rosa. Confira abaixo a íntegra da entrevista:

 

Esse anti-feminismo tão forte em perfis de mulheres cristãs são, na sua opinião, sintoma de que fenômeno? Seria uma reação ao que foi conquistado – ainda que tenhamos hoje um governo de perfil conservador?

Gosto sempre de buscar as raízes históricas-sociais para basear minhas análises. Somos todas, todos e todes fruto de uma colonização-exploratória-escravocrata-patriarcal-racista-LGBTfóbica-cristã. Nossas bases enquanto sociedade são essas, não podemos fugir disso, aliás reconhecê-las é a primeira forma de enfrentá-las para a transformação. Nós fomos forjadas a partir do olhar eurocêntrico do homem branco, forjadas como colonizadas, exploradas, fazendo surgir a grande massa de trabalhadoras e trabalhadores desse sistema capitalista que inaugura o que conhecemos como Modernidade. A modernidade é, sobretudo, fruto dessa colonização em terras de Abya Ayala, que é como os povos originários a nomeiam e depois se dá o nome, em homenagem à Américo Vespucci, de América.

Homem branco misógino, lgbtfóbico, sexista, cristão, violento para com as mulheres, que coloniza para explorar, para dominar e enriquecer. Por isso não nos surpreende sermos atualmente uma sociedade que se declara quase 87% dela cristã, ao mesmo tempo que ocupa o 5º lugar no ranking de países mais violentos contra as mulheres. Então é muito “natural” vermos mulheres reproduzindo esses valores, mesmo que sejam contra elas mesmas. São séculos de disseminação, engendramento da base econômica de exploração racista e sexista para enriquecimento de poucos e a morte e empobrecimento de muitas e muitos.

A modernidade tem essa base econômica racista e sexista, isso nos diz que o país foi desenvolvido para enriquecimento de poucos, mas com o fruto de trabalho escravo e semi-escravo de muitas e muitos, baseado na ideia de raça superior, mas no que diz respeito às mulheres todas foram sendo confinadas (independentemente de raça/etnia, da miscigenação que ia ocorrendo, da condição religiosa, geracional, classe) todas foram sendo confinadas aos espaços domésticos como sendo espaços não produtivos, sem valor agregado. Isso fez com que o trabalho reprodutivo das mulheres, o trabalho e cuidado com a vida, o que gera e nutre a vida de todos e todas fossem dados cada vez mais como inferior, desvalorizado nesse sistema de dominação, que tem toda a sua construção sociocultural, portanto a manutenção desse sistema econômico nesses valores socioculturais sexistas, misóginos, racistas que violentam, estupram e matam mulheres.

Por outro lado, sempre tivemos e ainda temos mulheres e homens que ousam desobedecer tais ordens morais e materiais organizativas da vida e diante disso temos as posições reacionárias, não é mesmo? Mulheres insurgentes, desobedientes, rebeldes a essas normas e valores sempre incomodarão. Por outro lado, as questões socioculturais são dinâmicas e muitos avanços legais, culturais, religiosos já foram alcançados e, portanto, de certa forma enfraquecido esse viés mais conservador, que instrumentaliza valores culturais-religiosos que, por fim e a cabo servem ao poder econômico.

Lembro aqui da afirmação de Walter Benjamim, filósofo e sociólogo. Ele disse que, no Ocidente, o capitalismo se desenvolveu como um parasita do cristianismo. Sendo assim, quando estudamos a história do cristianismo estudamos sim a história desse parasita. Mas seria bom lembrarmos que, na história do cristianismo, que é uma religião judaico-cristã, sempre tivemos, como no Antigo Testamento, profetas e profetisas da corte e profetas e profetisas do povo. Não há só bobos da corte, há também profetas da corte (às vezes fazem esse papel também de bobo da corte [risos]).

Os profetas da corte sempre estão com mensagens que agradam aos poderosos, aos dirigentes, reis e governantes, independentemente se estão cuidando de fato do povo ou não. Independentemente se estão sendo justos e responsáveis com o povo ou não. Estão lá e por aí para agradar aos poderosos, mesmo se o povo está sendo massacrado; eles têm interesses pessoais, projetos pessoais de poder-dominação, são egocêntricos e cuidam de si. Mas as profetisas e profetas do povo não! Sempre enfrentaram e profetizaram com coragem contra os poderosos, contra as injustiças, em favor do povo cansado e oprimido.

Veja o cântico de Maria, mãe de Jesus: “Minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, pois atentou para a humildade da sua serva. (…) Deus realizou poderosos feitos com seu braço; dispersou os que são soberbos no mais íntimo do coração. Derrubou governantes dos seus tronos, mas exaltou os humildes. Encheu de coisas boas os famintos, mas despediu de mãos vazias os ricos”. (Lucas 1:46-53).

Há diversos perfis de mulheres jovens falando sobre o ideal a ser perseguido: casar, ter filhos, cuidar da casa. Não incomodar o marido, falar baixo e outras dicas aparecem também. Como você vê esse traço geracional dentro de um comportamento anacrônico?

Primeiro vejo como o mais “natural” a ser reproduzido do ponto de vista histórico que colocamos brevemente aqui. Sou de tradição evangélica-pentecostal e já reproduzi muitos desses valores androcêntricos-sexistas-misóginos até eu perceber (e ainda estou e estarei nesse processo de desconstrução e reconstrução) e sei que uma vida é pouco, mas o que estou tentando colocar é que todas nós nascemos e crescemos sendo bombardeadas por essas ideias racistas, sexistas e misóginas que sustentam o sistema econômico de exploração capitalista. Ah! Mas Valéria, o sistema feudal não era assim, patriarcal? Sim, era. E, antes, no sistema imperial não era assim? Sim, era. Mas desde a transição do sistema feudal para o sistema capitalista o patriarcado tem se aprofundado contra as mulheres e ainda recebeu na colonização exploratória de Abya Ayala o viés racista, a ideia de raça superior também pela cor da pele, o que diferencia de outras escravidões anteriores.

Portanto, o que temos de real modernidade, de real avanço, de real progresso são as conquistas por direitos sexuais, reprodutivos (ainda limitados e controlados pelos homens), direitos das mulheres como direito humano, enfrentamento das violências contra as mulheres, mesmo após direitos legais dados, direito a educação, saúde, um caminho de democratização e laicidade do estado, tudo isso ainda incipiente, no sentido de garantir que seja a todas, todos e todes de fato. Portanto, isso atrapalha, em muito, os interesses dos poderosos, os interesses da classe dominante, do 1% de ricos que detêm mais do que o dobro de 6,9 bilhões de pessoas! Sabemos também que são as mulheres as mais pobres do planeta. A pobreza afeta mais intensamente as mulheres que os homens. Mas a falta de conhecimento faz com que se continue a deter poder para a dominação e, se precisar, com uso de violências.

Em segundo lugar é inegável, mesmo reconhecendo, minimamente, os contextos socioculturais, o sentimento de tristeza diante do jovem e da jovem reacionária; mas que não é tão anacrônico diante do contexto demonstrado, no entanto, diante da aceleração das mudanças permitidas pela tecnologia da informação parece ser sim anacrônico. A diferença entre uma geração e outra convivendo com acesso à informação é evidente, mas que informação circula? Informação, por si, garante o quê? As pessoas em geral conseguem processar as informações? E a desinformação? E as fake news? A maioria da nossa população, 80% dela, acessa o ensino fundamental e médio pela rede pública de educação, que ainda é muito deficitário e não de cunho crítico-reflexivo;  exatamente porque não há interesse político para que isso mude, e, lembremos, boa parte de nossos políticos respondem aos interesses dos mais ricos. Atualmente, 75% dos brasileiros dependem exclusivamente do SUS, sabemos da falta de interesse em torno dele, lembra do Teto de Gastos? Educação e Saúde pública não foi considerado investimento em um povo!

Pois bem, século 21 e ainda temos 11 milhões de brasileiros acima de 15 anos analfabetos e 52% da população acima de 25 anos não concluiu o ensino básico, etapa que termina no último ano do ensino médio. O que significa uma enxurrada de informações ou desinformações diante da nossa população? O que significa acesso sem educação crítica? Então, se quase 87% da nossa população é cristã, como fruto advindo de uma colonização, por que despejamos preconceitos e mais peso sobre a vida de mulheres, empobrecidos e empobrecidas? Isso não significa que estou passando pano ou concordando com o que está sendo divulgado nesses perfis, só estou dizendo que precisamos responsabilizar quem de fato produz isso e não focar em quem reproduz, sem a chance do conhecimento efetivo.

Há uma influência grande dos pastores neste fenômeno? Seria possível inferir que esse comportamento que pede uma mulher à moda antiga é uma demanda masculina?

Antes de mais nada, gosto sempre de diferenciar os fiéis das lideranças religiosas, especialmente as grandes lideranças, essas que as mídias dão espaço, com quem os líderes políticos de direita e esquerda vão “negociar” a vida de todos, todas e todes. Há essa diferença material, objetiva e também subjetiva entre as vidas cotidianas dos fiéis, e dessas grandes lideranças que, normalmente, enriqueceram, defendendo a vida e os interesses de alguns em detrimento de muitas, muitas vidas.

Quando se domina o corpo, se domina uma sociedade, essa é mais ou menos a ideia dos textos nos quais Michel Foucault vai tratando dos corpos disciplinados, não sem punição, vigilância, para se tornarem dóceis. Ele vai desvendando como se deu esse processo pela prática pedagógica das escolas, com o intuito de se construir essa sociedade mais ou menos homogênea e, sobretudo, útil para a produção capitalista.

Veja, se nem nossas escolas públicas e muitas privadas são críticas e reflexivas, quanto mais nossos seminários teológicos. Não tenho dúvida de que, na sociedade em geral, essas exigências são formas de controle dos corpos das mulheres para interesses, prazer e continuidade da dominação dos homens sobre as mulheres – sim, resposta de uma demanda masculina; a diferença dessa demanda masculina quando vem de um religioso (tirando os pastores que estão mais para lobos dessa análise), é que se reproduz em nome de Deus.

Passa-se a compreender, pelas interpretações seletivas, rasas e literalistas dos textos bíblicos (que está na maioria de nossas igrejas e seminários), essa demanda masculina como vontade de Deus. Então a vontade dos homens passa a ser a vontade de Deus, logo indiscutível, mas pronta a ser obedecida. E, lembremos, que pastores pentecostais e neopentecostais, na maioria das vezes nem acesso a seminário teológico tem, o que os caracteriza por uma liderança mais orgânica e carismática reconhecida dentro da sua própria comunidade de fé.

Penso que há pastores que apregoam tais valores e, portanto, reproduzem muitas violências de gênero crendo que são de fato a vontade de Deus para a vida das mulheres e dos homens. Veja, é uma explicação possível e não justificação. E há também aqueles pastores machistas, orgulhosos, que já compreenderam as estruturas, acessaram informação e formação, mas não querem abrir mãos de seus privilégios e colocam seus interesses/desejos pessoais acima de tudo e todos. Logo, o deus deles também estará acima de tudo e todos.

O que mulheres cristãs evangélicas e praticantes fazem hoje para atenuar esse cenário no qual a mulher é entendida como uma “auxiliar do homem”?

Resistem. Lutam. Se juntam e se fortalecem. Reaprendem e educam, de forma diferente da que aprenderam, seus filhos e filhas. Olham também para si e para os relacionamentos que construíram e se permitem fazer diferente. Recomeçam.  O Coletivo de Mulheres EIG – Evangélicas pela Igualdade de Gênero é um coletivo de mulheres plurais, casadas, solteiras, separadas, mães, avós, brancas e não brancas, lbts, pouco escolarizadas, doutoras, biblistas, teólogas feministas, mães que afirmam a diversidade de seus filhos, profissionais da educação, assistência social, profissionais da saúde, advogadas etc. Mas um ponto liga todas a todas, são mulheres de fé. São religiosas. Mulheres que oram, que vão à igreja ou estão “desigrejadas”, mas escolheram continuar a crer. Mulheres cristãs e feministas que cultivam o diálogo inter-religioso, que se encontram para formações contínuas para voltarem aos textos bíblicos que outrora foram utilizados para a opressão de suas vidas e encontram, na releitura, a libertação de muitas opressões. Mulheres que através desse coletivo estão reorganizando suas vidas, mas também a própria família, comunidade de fé e, em última instância, a própria sociedade.

A Bíblia é usada como razão pelo repúdio aos direitos das mulheres. Há adeptas do anti-feminismo lendo trechos para “provar” que as mulheres precisam, por exemplo, servir aos homens. Gostaria que você comentasse esse uso da Bíblia para a defesa dessa manutenção patriarcal. É possível ler a Bíblia com outras lentes, nas quais as mulheres são mais autônomas?

Sim, tanto possível que muitas mulheres estão fazendo e não é de hoje! Estamos na esteira de muitas mulheres de fé e luta que vieram antes de nós. Mulheres negras, indígenas religiosas ou não, que deram suas vidas para que hoje, nós pudéssemos dar continuidade a esse legado feminista, e, no nosso caso, cristãs feministas.

A questão é que cada uma vai ensinar a partir das bases que aprendeu. Nós, mulheres evangélicas e feministas, por exemplo, vamos balizar muito nossas práticas pela Teologia Feminista Popular, Comunitária, mas reconhecemos que a maioria de nós evangélicas, nascemos, crescemos, aprendemos e apreendemos na escola, mas também na igreja, pelas pregações, nos aconselhamentos, nas doutrinas, nos usos e costumes, na teologia, e, sobretudo, na família, os níveis suportáveis de violências contra nós mulheres, e aprendemos como cristãs, aprendemos inclusive, permeadas por medos e culpas.

Dentro de uma cultura cristã em casa, mas também por mídias, redes sociais, na igreja, aprendemos como a mulher deve desejar ser sedutora, consumista, desejar um casamento para ter mais status social, a reconhecer outra mulher como concorrente, aprender como um casamento pode ser importante para poder ser, existir sem preconceitos. Aprendemos como a gravidez fora do casamento ou na adolescência pesa muito mais para a mulher; aprendemos como a mulher é muito mais responsável pelos filhos do que os homens, como somos também quase que as únicas responsáveis por sermos traídas, aprendemos também como precisamos ser sábias para manter o “lar” e aprendemos também como somos responsabilizadas quando algo não dá certo no lar. Aprendemos sobre pecado e culpa muito mais forte para nossos corpos de mulher do que para os homens. Aprendemos também como os desejos sexuais são mais livres para os homens, como tudo é mais perdoável para eles.

Aprendemos tudo isso como mulher e como mulher cristã. Mas por que os homens resistem às mudanças e por que as mulheres suportam? Porque as igrejas, na maioria, dirigidas por homens, não têm interesse em mudar isso. Porque teriam que rever e decolonizar as teologias, consequentemente as pregações, os aconselhamentos e, sobretudo suas práticas dentro e casa, dentro da igreja, na escola, no trabalho, no supermercado, na padaria, entre os amigos, entre os irmãos – nas relações interpessoais e nas relações com as mulheres.

Enfrentar as violências contra as mulheres requer mudanças dos homens, das mulheres, das crenças, da educação dos filhos e filhas. Se aprendemos e reproduzimos tudo isso como cristãs, por que não encontraríamos mudança também na fé cristã? E é a partir daí que começamos a pensar, a escrever, a estudar, a partir da fé cristã, a possibilidade de ser feminista. Rever a cultura cristã, suas doutrinas, teologias, usos e costumes, sua linguagem é atitude feminista. Então, não estávamos só assumindo o feminismo como pensamento crítico, mas também como antissistêmico: do ponto de vista cultural  contra o sistema patriarcal, e do ponto de vista econômico anticapitalista e do ponto de vista político contra o sistema neoliberal.

É questionar como a nossa fé cristã coaduna com tantas desigualdades que reproduzem tantas violências, especialmente para as mulheres? Então a nossa fé não pode estar baseada em um Deus que oferece sua mão ao mercado, ao lucro, à exploração, a escravidão, ao racismo (base econômica de nossa AL), aos genocídios indígenas, que despreza, e tem nojo, condena a diversidade sexual humana.

Então o que está fora do lugar? Deus(es), a religião(es)? Ou o que construímos como cultural, natural e reproduzimos sem refletir? Sem criticar? Então não precisamos abandonar nossa fé cristã se o Cristo não for esvaziado de sua condição de classe, de raça-etnia, do seu contexto social dentro da sociedade em que foi encarnado, o que andou com as prostitutas, que disse ao ladrão: hoje mesmo estará comigo no paraíso.

Esta fé pode e deve me ajudar no resgaste desta sociedade para que ela se livre de todas as suas amarras de opressão. É a compreensão do cerne do evangelho, das boas novas, do valor da vida – como o dom mais precioso que foi nos dado – o qual toda vida importa, na qual ninguém é ilegal, superior, melhor!

É por isso que começamos a pensar, a refletir, a viver e a concluir: somos cristãs e, por isso, somos feministas – porque os valores feministas que citei acima harmonizavam com o Deus que nós havíamos encontrado nos evangelhos. Na história, movimentos feministas são movimentos de mulheres em busca de igualdade. Por que esse movimento não seria ou não teria o sopro da Ruah divina, o espírito de Deus?

A teologia feminista da qual aprendemos e ensinamos é uma teologia social, historicamente contextualizada. Como outras teologias, tem diversos conceitos, posições e métodos. Por exemplo: Um critério muito utilizado na TF é a “hermenêutica da suspeita”. Tal hermenêutica vai estranhar, suspeitar, desconfiar da interpretação masculina canonizada. Uma sacralização sexista dos textos bíblicos. Segundo Fiorenza, ao suspeitar, recuperam-se memórias, tradições, faz-se uso de novos conceitos. E então surgem novos modelos. É uma nova interpretação que leva a práxis, porque propões formações. Para Ivone Gebara, a hermenêutica feminista é nova ética que se contrapõe à ética patriarcal.

Demoraremos mais nos processos de transformação em nossa sociedade se continuarmos a negligenciar a influência transformadora da religião, especialmente na nossa sociedade colonizada e domesticada pelo uso da religião. A Teologia Feminista reconhece e sabe como a Bíblia tem sido instrumentalizada para manter as mulheres sujeitas ou assujeitadas. Então, quando mulheres, a partir de suas próprias experiências se tornam sujeitos de suas próprias histórias e como sujeitos se aproximam voltam aos textos bíblicos, como algo que faz parte de sua formação, da construção de suas identidades individuais e coletivas, da construção de suas memórias individual e coletiva é muito potente. É transformador.

A recuperação do seu protagonismo a partir de suas crenças, a partir do que era, até então, opressor, se torna potente. Então, eu não vim negando que a Bíblia não seja também produto de uma cultura patriarcal-androcêntrica-sexista, estou dizendo que não só! Mas estamos refletindo que as interpretações feitas pelas teologias “oficiais” precisam ser revistas. E foram e continuam sendo revistas pela “hermenêutica da suspeita”, por exemplo, uma interpretação que desconfia que questiona – e ela foi e está sendo feita por mulheres, por mulheres cristãs, que nasceram desse “caldo cultural sexista-misógino”, de teologias dadas como “oficiais”, legítimas, mas nós ousamos fazer outro caminho.

Como índices de violência doméstica entre mulheres evangélicas são recebidos dentro da comunidade?

Muitas vezes são recebidos como algo pontual ou até corriqueiro. Muitas vezes não se tem clara distinção do que é uma crise conjugal, de um relacionamento abusivo. Toda violência contra as mulheres deveria ser rechaçada. Deveria ser incômoda, chocar. E falando de ambientes religiosos, imaginamos que muito mais. Mas, na prática? Na prática, é outra história. E por quê? Porque, em parte, a religião está refletindo ou sendo espelho dessa sociedade. Normalmente a religião é sempre mais resistente às mudanças, consequentemente às conquistas sociais das mulheres. Questiona-se as mulheres, em condições de violências, mas não a devastação emocional-física que uma mulher sofre ao ser abusada, assediada ou violentada fisicamente.

Ao denunciarmos um líder espiritual, questionam por que estamos manchando o nome da nossa comunidade de fé, igreja etc. Se somos estupradas perguntam com que roupa estávamos vestidas e a que horas ocorreu. Somos sempre culpadas. As narrativas utilizadas são sempre as mesmas para culpar e também duvidar da veracidade, da fala da mulher. E estou falando a partir dos relatos das mulheres em situação de violência nas igrejas? Sim, mas não só, estou também falando da sociedade como um todo, da família, ou de como a igreja trata a situação, ou de como a mídia propaga, a escola trabalha ou os poderes públicos atendem e assim por diante.

No Brasil, temos uma média de 180 pessoas estupradas por dia, maioria mulheres, sendo 54% com menos de 13 anos. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, temos uma média de 66.041 estupros no ano; 75,9% dos agressores são conhecidos das vítimas; Nem vamos falar das subnotificações. Estamos falando de uma ferida social, com fundação histórica baseada na misoginia e no sexismo, na cultura do estupro em nossa sociedade?!  E para lembrarmos “a culpa nunca é da vítima”, 10,3% das vítimas de estupro possuíam alguma deficiência. O Brasil é o quarto país no mundo em casos de casamento infantil. Então tem muita gente dentro de caixinhas, fora da nossa realidade, até políticos que desconhecem o nosso Brasil.

Dados alarmantes! Não são? Mas não o suficiente para se reconhecer, por exemplo, que há necessidade do reconhecimento de políticas de Estado, e não de governo para o enfrentamento desse fenômeno social mundial. O Brasil para as mulheres, parafraseando Arendt, é a banalização do mal. O Brasil precisa se debruçar em suas causas estruturais, históricas, porque poderíamos dizer que “Não temos um Estado que de fato proteja as mulheres”.  Mesmo sendo as mulheres maioria no Brasil, 51,8% da população de 209,5 milhões de pessoas. “Metade do mundo são mulheres, a outra metade os filhos delas”, disse Efu Nyaki.

Encerro com a pergunta: como a religião esteve, não apenas envolvida, mas marcada como propulsora das violências contra as mulheres na história do Brasil? E acrescento: como as igrejas, as religiões como um todo, que fazem parte desse problemão social, poderiam fazer parte da solução? Não são somente as mulheres religiosas que estão ou ficam em condição de violências, mas é preciso considerar que elas ficam e recorrem à religião.

Se não encararmos as questões de gênero, imbricadas com as questões de raça, de renda, das desigualdades abissais que temos no nosso país, como estruturais e estruturantes de um sistema econômico-social e cultural, não avançaremos com as questões de saúde, de autonomia, na diminuição dessas desigualdades, bases de muitas violências de gênero e raça. Porque não estaremos enfraquecendo ou atingindo as estruturas e continuaremos na perfumaria do “empoderamento” –  perfumaria do empoderamento econômico para as  mulheres, daquele empoderamento que agrada e é cooptado pelo mercado, que dá marketing, que vira moda, mas que não muda os números. Não muda as estatísticas. E que mesmo esse, sempre terá teto, teto de vidro (transparente que muitos e muitas não veem) – mas as diversas violências continuarão a se reproduzir, talvez em novas roupagens, mas continuarão.


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