Semana On

Quarta-Feira 18.mai.2022

Ano X - Nº 487

Poder

Uma reação salutar

Encarar o homofóbico, como fez o senador Contarato, é lição

Postado em 01 de Outubro de 2021 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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Em um dos momentos mais fortes da CPI da Covid até agora, o senador Fabiano Contarato (Rede-ES) deu uma lição de civilidade diante de uma postagem homofóbica feita contra ele pelo empresário bolsonarista Otávio Fakhoury, que depõe hoje por, vejam só, espalhar discurso de ódio e fake news sobre a pandemia nas redes sociais.

Escreveu o empresário: "O delegado homossexual assumido [em referência a Contarato] talvez estivesse pensando no perfume ali de alguma pessoa daquele plenário... Quem seria o perfumado que o cativou?". Sim, o nível é pré-escolar.

Convidado por Omar Aziz (PSD-AM) a ocupar a cadeira da presidência da comissão, Contarato confrontou Fakhoury de forma emocionada e elegante. Projetou para todos lerem o que o bolsonarista havia divulgado, afirmou que a família dele não é pior que a do empresário, detalhou o mal que esse tipo de preconceito, comum ao presidente da República, causa. O senador lembrou que o Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTQIA+.

Essa ação conta com uma enorme potência transformadora, se não para o empresário, ao menos para quem assistir a cena.

Se nós, homens, pudéssemos ser confrontados com o nosso comportamento machista, o mundo seria muito melhor. Porque uma coisa é a covardia do pseudo-anonimato das redes sociais e aplicativos de mensagens e a covardia dos agressores que andam armados e em bando nas ruas. A outra é ter que ouvir, frente a frente, a vítima de nossa agressão.

Soma-se a isso a vergonha por conta das câmeras de TV que transmitiam tudo, produzindo conteúdo que será reexibido nos telejornais.

Como resposta, a mesma desculpa de sempre: foi "brincadeira". Brincadeira é termos que discutir homofobia a esta altura do campeonato, na terceira década do século 21. Brincadeira é um empresário sabotar o combate à covid-19, distribuindo informações falsas sobre a doença, bombando ataques ao isolamento social e às vacinas, promovendo inúteis elixires mágicos.

"Sonho com o dia em que não vou ser julgado pela minha orientação sexual, que meus filhos não serão julgados por serem negros, que minha irmã não será julgada por ser mulher", disse Contarato.

Nas redes sociais, ele afirmou que expôs sua família para que outras famílias LGBTQIA+ não sofram o que a dele sofre. Ele tem marido e dois filhos. "O dinheiro não compra dignidade, não compra caráter", concluiu.

Fakhoury acabou se desculpando ao senador e "a quem se sentiu ofendido". Mas a cúpula da CPI pediu à Polícia do Senado a instauração de inquérito sobre o crime de homofobia. Mais tarde, o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), também mostrou postagens do empresário com ataques homofóbicos a ele.

O caso reforça que o bolsonarismo é também uma ilusão de ótica, composto por pessoas que parecem bem maiores quando estão na internet.

Lavando a alma

Se a passagem dos empresários bolsonaristas Luciano Hang e Otávio Fakhoury pela CPI da Covid serviu para alguma coisa foi para comprovar a importância do silêncio. Verificou-se que são abençoadas as pessoas que, não tendo nada a dizer, evitam demonstrar sua debilidade mental com palavras.

Graças a Contarato, o depoimento de Fakhoury foi menos inútil do que o de Hang. Serviu para comprovar que o bolsonarismo só morde quando está escondido atrás do teclado do computador ou da tela do celular. Ao vivo, os devotos do mito abanam o rabo.

Em sua exposição inicial, o depoente apresentou-se à audiência da CPI como vírus de uma cepa quatrocentona de São Paulo. Declarou-se cristão, cultor da família, defensor da liberdade de expressão e obediente às leis. Sentado na cadeira reservada ao presidente da CPI, Contarato apresentou Fakhoury a si mesmo.

Alvo de ataque homofóbico que o depoente postara havia quatro meses, Contarato informou a Fakhoury o seguinte: dinheiro não compra dignidade, a família de um casal gay é tão respeitável quanto qualquer outra, homofobia é crime inafiançável e liberdade de expressão não socorre quem se exprime fora dos limites da lei.

Reduzido à sua insignificância, Fakhoury desculpou-se pelo que chamou de "brincadeira de mau gosto". Terá de explicar o seu humor torto ao Ministério Público Federal, para onde a direção da CPI remeteu um pedido de investigação do crime.

O sabão de Contarato lavou a alma da plateia. Desnudado, Fakhoury exibiu-se à CPI por cinco horas vestido apenas com seu negacionismo sanitário. O episódio magnificou o erro cometido pela CPI ao fornecer palco para gente, além de não ter nada de aproveitável a dizer, desconhece o valor do silêncio.


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