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Sexta-Feira 22.out.2021

Ano X - Nº 464

Mundo

ONU alerta que pandemia não freou aquecimento global

Brasil regrediu no combate ao fenômeno

Postado em 17 de Setembro de 2021 - DW

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Um relatório sobre as mudanças climáticas divulgado pela ONU no último dia 16 alerta que a pandemia de covid-19 não diminuiu o ritmo das mudanças climáticas.

A desaceleração econômica e os lockdowns relacionados ao coronavírus causaram apenas uma queda temporária nas emissões de CO2 no ano passado, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

"Houve quem pensasse que os lockdowns devido à covid teriam um impacto positivo na atmosfera, mas não foi o caso", disse o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas, em entrevista coletiva.

O documento reúne os últimos dados científicos e descobertas relacionadas às mudanças climáticas, afirmando que, entre janeiro e julho, as emissões globais de CO2 associadas ao uso de combustíveis fósseis nos setores de energia e indústria já voltaram ao mesmo nível ou estão acima do mesmo período em 2019, antes da pandemia.

O Acordo de Paris sobre mudanças climáticas de 2015 estabeleceu como objetivo limitar o aumento da temperatura global a até 2 °C em relação ao nível pré-industrial, ficando idealmente mais perto de 1,5 °C.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou que essa meta de limitar o aquecimento global a 1,5 °C será impossível sem cortes de emissões imediatos. "Ainda estamos significativamente atrasados para cumprir as metas do Acordo de Paris", disse.

"A menos que haja reduções imediatas, rápidas e em grande escala nas emissões de gases de efeito estufa, será impossível limitar o aquecimento a 1,5 ºC, com consequências catastróficas para as pessoas e o planeta do qual dependemos", acrescentou o chefe da ONU. "Este é um ano crítico para a ação climática", disse, avisando que os resultados do estudo trazem uma "avaliação alarmante de quão longe estamos do rumo".

Intitulado Unidos na Ciência 2021, o relatório foi publicado por várias agências da ONU e parceiros científicos poucas semanas antes da reunião de cúpula do clima COP26. O texto alerta também que a mudança climática e seus impactos estão acelerando.

Pausa pandêmica foi breve

A OMM disse que as reduções de emissões durante a primeira onda de covid-19, no início do ano passado, representaram um "breve lapso".

"As reduções gerais de emissões em 2020 provavelmente reduziram o aumento anual das concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa de longa duração, mas esse efeito foi muito pequeno para ser distinguido da variabilidade natural", concluiu o relatório.

Neste ano, embora as emissões de CO2 provenientes do tráfego rodoviário tenham ficado abaixo dos níveis anteriores à pandemia, as concentrações dos principais gases de efeito estufa que contribuem para o aquecimento global continuaram a aumentar, de acordo com o relatório.

No Brasil

Um relatório da organização Climate Action Tracker (CAT) publicado nno último dia 15 aponta que o Brasil retrocedeu no combate à emissão de gases de efeito estufa.

A CAT reclassificou as políticas e compromissos climáticos brasileiros de "insuficientes", segundo o relatório de setembro de 2020, para "altamente insuficientes" neste último estudo. Se forem totalmente implementadas, as políticas atuais do Brasil resultariam em reduções de emissões além de suas metas, mas ainda assim apenas em linha com o aquecimento global a 3 °C.

De acordo com a organização, o Brasil também não está dando sua contribuição para a mudança climática e, para melhorar sua classificação, o país poderia, no mínimo, alinhar suas metas para 2030 com suas políticas atuais e estabelecer uma meta condicional em linha com a limitação do aquecimento a 1,5 °C, conforme previsto no Acordo de Paris.

A análise do CAT abrange o total de 37 países que perfazem 80% das emissões globais e 70% da população mundial. A organização afirma que a evolução dos governos nacionais neste assunto não é grande e salienta que é necessário que os países aumentem suas contribuições na redução das emissões.

Segundo a CAT, apenas um país – Gâmbia – é classificado como tendo uma ação climática global compatível com o Acordo de Paris de não superar os 1,5 °C de aquecimento global.

Sete nações – Costa Rica, Etiópia, Quênia, Marrocos, Nepal, Nigéria e Reino Unido – tiveram suas políticas classificadas como "quase suficientes", quer dizer, bastando algumas melhorias para se chegar à meta fechada no Acordo de Paris.

Há nove países – incluindo a União Europeia como um todo, Alemanha, EUA, Suíça, Noruega, Japão e África do Sul – cujas medidas são insuficientes. O Brasil e outros 14 países apresentaram medidas altamente insuficientes, como Canadá, Austrália, China, Colômbia, México, Nova Zelândia e Índia.

"Particularmente preocupantes são os governos de Austrália, Brasil, Indonésia, México, Nova Zelândia, Rússia, Cingapura, Suíça e Vietnã, que não conseguiram elevar a ambição de forma alguma", afirma o texto do relatório. "Eles apresentaram as mesmas metas ou até mesmo menos ambiciosas para 2030 do que haviam proposto em 2015. Esses países precisam repensar suas escolhas".

Cinco países – Irã, Rússia, Arábia Saudita, Cingapura e Tailândia – têm situação "criticamente insuficiente", com lacunas profundas na ação climática.

"UE deu grandes passos"

Sobre a União Europeia, a CAT reconhece que foram dados "grandes passos" na mitigação dos efeitos climáticos, com a aprovação do chamado Acordo Verde e da Lei do Clima, ou com o reforço do objetivo de redução de emissões de 55% até 2030.

Mas a organização avisa que é preciso acelerar a eliminação gradual do carvão, aumentar o financiamento da ação climática no estrangeiro, e ir além da redução de 55% aumentando, por exemplo, as energias renováveis e a eficiência energética.

"A UE também precisa assegurar que as medidas de política climática adotadas em Bruxelas sejam aplicadas pelos Estados-membros. Até agora, a ação em cada Estado membro tende a variar, e muitos deles ainda não aplicaram medidas suficientes para cumprir os objetivos a nível da UE", disse a organização.


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