Semana On

Sexta-Feira 22.out.2021

Ano X - Nº 464

Coluna

A nossa longa Pandemia está muito além do vírus

O flagelo do negacionismo orgulhoso

Postado em 16 de Setembro de 2021 - Theresa Hilcar

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Esta semana, no mesmo dia, fui passageira de dois motoristas de aplicativo bastante conhecidos do público. Devo confessar que logo no início da corrida não os reconheci. Só me dei conta dos personagens quase no final. 

Não, o meu motorista, felizmente, não era o ex-piloto de Fórmula 1 que desfilou no dia 7 de setembro dirigindo o Royce presidencial. Fato que até agora não entendi direito. Nem vou gastar meus neurônios tentando entender por que isto, definitivamente, não me diz respeito.

O primeiro condutor foi ninguém menos que o senador e presidente da CPI, Omar Aziz.  Sim, aquele simpático senhor, que às vezes, quando o tiram do sério (e isto acontece muito, convenhamos) ao invés de esbravejar costuma contar casos e fazer analogias, algumas muito engraçadas. 

A viagem com ele foi bastante segura, devo acrescentar. Trazia duas máscaras no rosto e, como eu, gostava de conversar. Contou que era aposentado, que ficou um ano e meio sem sair de casa se protegendo e protegendo a família. Mas agora, com as duas vacinas no braço, sentiu necessidade de voltar ao trabalho. A solidão, como para a maioria dos “idosos” segundo ele, começou a pesar. “Fiquei deprimido”, confessou.

O trabalho, além da autonomia, lhe dava a chance de levar e buscar as netas na escola. Entre uma corrida e outra passa o tempo ao redor dos livros. Pude notar que era mesmo um homem com razoável cultura e extremamente consciente do seu papel na sociedade.

Além disto, era sim, muito parecido com o senador Aziz, por quem acabei nutrindo simpatia. 

Na volta, como acontece em regimes democráticos, enfrentei o contraditório. E sem enxergar direito no escuro, não percebi que no lugar da máscara, o motorista cobria o rosto com um lenço no estilo cowboy. Ou seja, estava descumprindo a legislação da própria empresa.

Temendo pela segurança, resolvi lhe oferecer uma das máscaras que sempre carrego na bolsa para imprevistos. Ele recusou e disse, de forma arrogante, que estava bem daquele jeito. Não me dei por satisfeita e insisti dizendo que o tecido não o protegia dos aerossóis. Ato contínuo ele me corrigiu dizendo que de fato eram perdigotos. E que eu deveria saber que não se pega o vírus pelo ar. Ou eu não lia nada a respeito? Me perguntou. Expliquei que estudava muito o assunto, inclusive por dever de ofício, como jornalista.

Foi aí que entrou em cena o senador gaúcho. Durante 20 minutos o motorista fez o mesmo discurso, citou as mesmas fontes, as mesmas pesquisas, como se o tal Heinze estive lhe surrando cada palavra ao ouvido. E ignorando solenemente meus argumentos, sugeriu inclusive que eu descesse no meio do caminho. Era noite e faltava um bocado para chegar em casa. Achei melhor não arriscar.

Mas o rei da cocada, o sabichão do pedaço, aquele que sabia mais que qualquer cientista, continuou me lançando pérolas do seu universo paralelo. Discorreu com segurança absoluta sobre estudos de Harvard como se tivesse frequentado a universidade americana. Depois me desafiou a mostrar provas materiais sobre a eficiência das vacinas.

Com tanta munição, o especialista do absurdo continuou dando tiros no escuro. O último foi fatal. “Se as pessoas tivessem recorrido a prevenção, ao invés de ouvir cientistas, não teria morrido tanta gente”.  Nessa hora, já na porta do meu prédio, percebi que a bala passou de raspão.  E dei um basta. Um chega para lá como no verso da música de Rita Lee: “Me cansei de lero-lero/Dá licença, mas eu vou sair do sério...”

Em alto e bom som soltei a palavra que me sufocava e chamei-lhe pelo que se apresentou: negacionista. Ele deu risinho cínico e arrancou o carro sem dar a mínima. Com certeza convicto de que a ignorante sou eu. Afinal, a gente sabe que a Pandemia brasileira enfrenta muito mais que um vírus.


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