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Sexta-Feira 22.out.2021

Ano X - Nº 463

Coluna

Por que floparam?

Idelber Avelar fala de manifestações, massas e de nosso irreconciliável desejo comum

Postado em 16 de Setembro de 2021 - idelber avelar

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Se eu tivesse que dizer qual é o meu maior desejo político para o Brasil em um futuro imediato, não seria a consolidação de uma terceira, quarta ou quinta via, mas a consolidação de uma cultura política em que fosse mais universalmente aceito o princípio de que há uma diferença abissal entre o que é razoável cobrar de um cidadão comum e o que se deve cobrar de um político.

É um princípio simples, simplérrimo, que funciona, mal e capengamente, mas funciona, nas democracias mais consolidadas, e funciona melhor nos nossos vizinhos latino-americanos que entre nós. No Brasil, a tendência é que a politização aconteça quando o cidadão se pendure no saco de um político e comece a fazer o cálculo do que é melhor para o país, o tempo todo, à luz do que é melhor para aquele político. É deprimente e constrangedor pra nós como pais.

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Veja o caso das manifestações pró impeachment que floparam. Por que floparam? Olhando com mirada de historiador, atento a “la longue durée”, poderíamos dizer que floparam porque, apesar de o impeachment ser um desejo disseminado na sociedade brasileira, não há forças políticas capazes de pôr gente na rua que queiram o impeachment.

Nas últimas décadas, no Brasil, quem foi capaz de pôr gente na rua foi o petismo (pelo seu caráter de partido de massas) e, a partir de 2015-16, o antipetismo, com o qual o bolsonarismo de 2018-21, também capaz de pôr gente na rua, mantém relações que não são lineares. Como sabemos, partes dos que convocaram o impeachment contra Bolsonaro estavam entre as multidões antipetistas de 2015-16. Só que agora floparam.

No Brasil, capaz de pôr gente na rua, hoje, há o petismo e o bolsonarismo, ambos inimigos figadais do impeachment.

(A exceção a essa regra das últimas décadas foram as multidões insurretas de 2013, que não eram petistas nem antipetistas. Mas essas multidões, sabemos, foram massacradas igualmente por polícias de estados comandados pelo peemedebismo, pelo petismo e pelo pessedebismo).

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Então é evidente que as manifestações pró impeachment iriam flopar. O que é extra constrangedor pra nós é ver esse triste espetáculo: cidadãos comuns atacando outros cidadãos comuns que decidem ir a uma manifestação pelo impeachment de um presidente extremista, fascista e assassino e que, a priori, todos odeiam, só porque esse impeachment não é do interesse do candidato que, talvez, a se manter a curva das pesquisas, e se houver eleição, provavelmente será eleito. E que, se houver eleição, e ele conseguir tomar posse, fará nas atuais condições um governo parecido com o anterior sabe-se lá como.

É baseado nesse cálculo eleitoral de um político que se atacam as pessoas que querem sair pelo impeachment. O impeachment DELE, do minúsculo que todos entre nós concordamos ser o pior da história.

É deprimente a nossa situação. Enquanto não parar de idolatrar político, hipotecar todo o discurso ao político, não vai rolar uma transformação minimamente significativa.

UM CONVITE

Compartilho com vocês uma alegria e um convite.

Este semestre sou Visiting Distinguished Fellow na Universidade de Nebraska, através de seu Institute of Ethnic Studies. Haverá um minicurso de uma semana, apenas para o doutorado deles, mas há também uma palestra aberta ao público. Agradeço às Profas Ingrid Robin e Joy Castro, ao Prof. Othoniel, e a toda a equipe de lá que me recebe.

Na quarta-feira, dia 22/09, às 19h30 de Brasília, vocês estão convidadas/os a ouvir um balanço dos dois anos e meio de Brasil sob a extrema-direita, feito a partir do meu recente livro "Eles em nós". A palestra será em inglês.

Tem que fazer inscrição, mas é o evento é aberto e gratuito. Link para inscrições: https://events.unl.edu/cas/2021/09/22/156012/

O resumo da palestra anuncia uma longa explicação histórica, mas eu devo focalizar mesmo estes 33 meses de agonia bolsonarista, que é o que preocupa todo mundo.


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