Semana On

Quarta-Feira 29.set.2021

Ano X - Nº 461

Poder

Para 6 em 10 bolsonaristas, o principal inimigo é o STF, e não a esquerda

Tietagem de Queiroz em ato golpista prova que corrupção nunca foi a questão

Postado em 10 de Setembro de 2021 - Leonardo Sakamoto (UOL) - Edição Semana On

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Dos manifestantes que participaram do ato golpista de apoio a Jair Bolsonaro, na avenida Paulista, no último dia 7, 59% consideram que o Supremo Tribunal Federal é o principal inimigo do presidente, seguido pela esquerda (17%), a imprensa (15%), o Congresso Nacional (3%), os governadores (1%) e a CPI da Covid, com menos de 1%.

Os dados são de levantamento realizado durante a manifestação por pesquisadores do Monitor do Debate Político no Meio de Digital, da Universidade de São Paulo, coordenado pelos professores Márcio Moretto e Pablo Ortellado.

O principal motivo para participarem do ato, que contou com um discurso de Bolsonaro prometendo não mais seguir decisões judiciais do ministro Alexandre de Moraes, foi pedir o impeachment de membros do STF (29%), defender a liberdade de expressão (28%), autorizar o presidente a agir (24%), implementar o voto impresso (12%) e pedir intervenção militar para moderar conflitos entre os poderes (5%).

"O antagonismo com o STF é o que está movendo a base bolsonarista hoje", afirmou Ortellado à coluna. Para ele, chama a atenção que o artigo 142 da Constituição, cuja interpretação distorcida é utilizada por apoiadores do presidente para justificar um golpe militar, é o motivo que tem menos apelo na base entre os listados.

Outro ponto destacado pelo pesquisador é que o discurso golpista embalado na justificativa da defesa da liberdade de expressão mostrou engajamento.

O presidente vem usando repetidamente a justificativa de que o STF está censurando a população após ele e seus aliados passarem a ser investigados pela corte por propagarem mentiras sobre fraudes no sistema eleitoral e atacarem instituições democráticas.

Ortellado aponta que edição da Medida Provisória 1068, no último dia 6, impedindo a remoção de conteúdos falsos pelas plataformas de redes sociais, como Facebook, Twitter e Google, pode ter ajudado a bombar o tema entre os manifestantes. A tendência é que o Senado Federal devolva a matéria sem análise devido aos vícios de inconstitucionalidade.

A pesquisa realizou 642 entrevistas entre às 13h e às 16h30 em toda a extensão da avenida Paulista ocupada pelos manifestantes. O nível de confiança é de 95% e a margem de erro de quatro pontos percentuais para mais ou para menos.

Mais da metade é contrária ao uso de máscaras contra covid-19

Os manifestantes bolsonaristas também se mostraram contrários às políticas adotadas por governadores e prefeitos para combater a covid-19. Quase metade (49%) não usava máscaras na manifestação.

Do total, 53% são contrários ao uso de máscaras no dia a dia, 87% consideraram inadequado o fechamento do comércio e 84% discordam da imposição de restrições a quem não tomou vacina, como a proposta de um passaporte sanitário para poder entrar em eventos e restaurantes.

Mesmo minoritário, chama a atenção que 41% do total seja a favor do uso de máscaras para evitar a contaminação pela doença. Jair Bolsonaro tem atacado o uso do equipamento e costuma usar apenas quando sai do Brasil.

Perfil conservador: homens, brancos, mais velhos

Enquanto pessoas com 45 anos ou mais representaram 53% dos presentes, apenas 5% tinham entre 19 e 24 anos e 2% entre 13 e 18 anos, mostrando que os participantes têm perfil semelhante a de outras manifestações conservadoras e diferente dos atos na avenida Paulista contra Bolsonaro, mas também das jornadas de junho de 2013.

Apesar de 56% da população brasileira ser negra (pretos e pardos), de acordo com o IBGE, eles representavam 33% dos presentes, de acordo com a cor de pele autodeclarada. Os brancos eram 60% dos manifestantes na avenida Paulista, amarelos, 2%, e indígenas, 1%. E 3% não responderam.

Homens representaram 61% dos presentes e mulheres, 39%. Católicos eram 37%, evangélicos, 36%, espíritas e kardecistas, 9%, e adeptos de religiões de matriz africana, 1%, judeus, 1%. Outras, 5%. Nenhuma religião, 12%.

Quanto à renda, 42% afirmaram ter renda familiar de mais de cinco salários mínimos por mês, 38% entre dois e cinco e 14% com menos de dois. Dos entrevistados, 48% tinham curso superior completo e 12%, incompleto.

Questionados sobre o posicionamento político, 77% afirmaram ser de direita, 5% de centro e menos de 1% de esquerda. Ao todo, 16% disseram que não são "nada disso". Votaram em Bolsonaro nas eleições de 2018 88% dos presentes, enquanto 3% afirmaram ter depositado o voto em João Amoêdo (Novo) e 2% em outros candidatos.

Corrupção nunca foi a questão

Foi extremamente didática a recepção que Fabrício Queiroz teve de fãs de Jair Bolsonaro na manifestação o dia 7. O operador das "rachadinhas", como são carinhosamente conhecidos os desvios de salários dos servidores da Assembleia Legislativa do Rio, foi tietado e tratado como estrela.

Melhor, como um "pica do tamanho de um cometa" - para usar a icônica expressão por ele adotada para explicar o tamanho de seu medo em relação às investigações do Ministério Público sobre as maracutaias de corrupção.

E ele tinha razão. Em novembro do ano passado, Queiroz veio a ser denunciado junto com o ex-chefe, o ex-deputado estadual e hoje senador, Flávio Bolsonaro, por lavagem de dinheiro, apropriação indébita, organização criminosa e peculato.

O desenrolar desse processo avança vagarosamente por conta de disputas sobre o foro e provas nos tribunais. Mas, no geral, tudo pode ser resumido à palavra "papai".

Da mesma forma, Queiroz, que já ficou escondido na casa do advogado da família Bolsonaro, Frederick Wassef, em Atibaia, e depois passou um tempo preso em meio ao processo das rachadinhas, está mais solto do que nunca. Deve estar se sentindo protegido. Ganha um pão com leite condensado quem descobrir quem é o seu anjo da guarda e vier me contar.

Há uma parcela de 15% da população que acredita em absolutamente tudo o que Jair diz, segundo o Datafolha. Esses fanáticos creem que há um complô contra seu "mito" e que Queiroz, seu amigo, é um trabalhador honesto e injustiçado.

Esse grupo põe fé quando Bolsonaro diz que acabou com a corrupção no Brasil e diga que garantiu transparência total - mesmo que ele, logo depois, ameace meter a porrada na boca de um jornalista que perguntou a razão de Queiroz ter depositado R$ 89 mil na conta da primeira-dama, Michelle.

Mas há uma parcela dos bolsonaristas radicais que sabe que Messias é mito, mas não é santo - e não se importa com isso. Para eles, não há problema algum se Bolsonaro tirar o seu cascalho. Pelo contrário, acham isso justo uma vez que ele estaria ajudando a livrar o Brasil do fantasma do comunismo.

Alerta de spoiler: o Brasil nunca foi um país comunista, mas o delírio é livre.

A preocupação desse grupo específico com o combate à corrupção é uma fraude tão grande quanto a honestidade do presidente da República.

E não é só porque o Ministério da Saúde, que deveria se dedicar a combater a pandemia de covid-19, especializou-se em superfaturar para o bem de políticos, militares, religiosos, policiais, parecendo um microcosmo da cidade de Sucupira, de "O Bem-Amado", de Dias Gomes. Mas porque Bolsonaro vem sendo acusado de ter usado familiares como servidores-fantasma de seu gabinete, recolhendo os salários, durante os anos em que foi deputado federal. Nos mesmos moldes de Queiroz e Flávio.

E, ao que tudo indica, também do vereador Carlos Bolsonaro. Sim, Jair é o patriarca das rachadinhas.

Há também o grupo que tira selfie com qualquer pessoa famosa para ganhar likes. Contudo, este post não vai discutir patologias.

Ter o Queiroz do Rolo fazendo selfies como um herói em um protesto de bolsonaristas que pediam o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional e criticavam a corrupção dos tempos do PT é um resumo desse ano bizarro de 2021.

Deveria ser tema de redação do Enem, se o Ministério da Educação não estivesse sem comando, claro.


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