Semana On

Quarta-Feira 29.set.2021

Ano X - Nº 461

Poder

Ato do MBL neste domingo atrai parte da esquerda contra Bolsonaro

União é importante, mas Kataguiri e cia. não têm credencial democrática para liderar ato plural contra o fascismo

Postado em 10 de Setembro de 2021 - Mariana Schreiber (BBC News), Kennedy Alencar (UOL) - Edição Semana On

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Após capitanearem os protestos pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016, o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem Pra Rua tentam agora repetir a dose contra Jair Bolsonaro.

Os dois grupos, que resistiram a ocupar as ruas antes com o argumento de que não seria seguro em meio à pandemia de covid-19, convocaram atos para este domingo (12/09), e tentam atrair seus antigos adversários, ou seja, partidos e movimentos de esquerda.

Com esse propósito, foi abandonado o mote inicial da convocação, "Nem Bolsonaro, Nem Lula", que defendia o fortalecimento de uma candidatura presidencial alternativa à disputa hoje polarizada entre o atual presidente e o ex-presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva.

Agora, a pauta dos protestos está unificada em uma só, o "Fora, Bolsonaro". Também foi escolhido o branco como cor oficial dos atos — o desejo é que a esquerda compareça, mas abra mão do tradicional vermelho e das bandeiras de partidos, proposta que gera controvérsia do outro lado.

À BBC News Brasil, o deputado Kim Kataguiri (DEM-SP), uma das lideranças do MBL, reconheceu que é necessário unificar diferentes forças políticas para fazer frente aos atos de 7 de setembro, em que Bolsonaro reuniu grande número de apoiadores em São Paulo e Brasília.

"A gente quer amplificar o máximo possível a manifestação pra que todos aqueles que queiram o impeachment do Bolsonaro participem. É um ato de defesa da democracia, um ato em contraposição ao dia sete (de setembro) e que por isso precisa ser robusto", disse Kataguiri.

Ressentimentos de ambos os lados, porém, ainda dificultam uma ampla aliança entre direita e esquerda. Enquanto lideranças de PCdoB, PSB e PDT, incluindo o pré-candidato Ciro Gomes, confirmaram que estarão nos protestos de domingo após o convite do MBL, o maior partido da esquerda, o PT, e organizações próximas a sigla, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), descartaram participar.

A presidente do partido, a deputada pelo Paraná Gleisi Hoffmann, diz que não foi procurada pelo MBL sobre o assunto. "Eu espero que o movimento do dia 12 possa ser realizado, e tem toda legitimidade para ser. Nós não fomos procurados para participar da construção desses atos. Nem por isso vamos falar mal, eles têm que acontecer", afirmou ao portal Poder 360.

Kataguiri confirma que não fez o convite à petista. Para ele, declarações públicas de Hoffmann deixaram claro que o PT já estava decidido a não aderir.

Em sua conta no Twitter, a petista enfatizou que está em construção com partidos de esquerda (PT, PDT, PSB, PSOL, PCdoB, PV, Solidariedade, Rede e Cidadania) um ato nacional pelo impeachment de Bolsonaro em outra data. O objetivo, segundo ela, é atrair também outros partidos e movimentos que "defendem a democracia".

"Enquanto construímos esta grande manifestação de unidade pela democracia, pelo Brasil e pelos direitos do povo, incentivamos todos os atos que forem realizados em defesa do impeachment. O país está cobrando a responsabilidade do presidente da Câmara (Arthur Lira) pela abertura dos processos", disse ainda a presidente do PT, na rede social.

Para Pablo Ortellado, coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital e professor da USP (Universidade de São Paulo), a dificuldade em unir PT e MBL não surpreende, dada a forte polarização dos últimos anos entre o partido e os movimentos que apoiaram a operação Lava Jato.

Na sua visão, será muito difícil os atos de oposição a Bolsonaro superarem o tamanho dos protestos de 7 de Setembro sem uma ampla união da oposição ao governo, da direita à esquerda.

"Houve um processo de polarização muito grande que opôs o pessoal mais lavajatista aos petistas e isso deixou muitos ressentimentos, de parte a parte. Estamos vendo agora a resistência dos petistas de se somarem ao pessoal do MBL e do Vem Pra Rua, mas vemos também a resistência do pessoal do Vem Pra Rua e do MBL de, digamos assim acolher, em seus atos os petistas ou pessoas que eventualmente votariam no PT", nota o professor.

'Sem vermelho'

Em um manifesto de convocação divulgado nesta semana, o MBL compara os atos de 12 de setembro ao movimento pelas "Diretas Já", frente ampla de partidos e forças políticas que em 1984 cobrava a volta da eleição direta para presidente da República após a Ditadura Militar. A proposta acabou derrotada e o Congresso elegeu Tancredo Neves (PMDB) indiretamente. Com sua morte pouco antes da posse, foi o vice-presidente eleito, José Sarney (PMDB), que assumiu o comando do país.

Críticos da proposta do MBL de impor o branco como única cor dos atos deste domingo lembram que o movimento "Diretas Já" era pluripartidário e colorido, ou seja, todas as forças políticas a favor da eleição direta compareciam com as bandeiras e cores que preferissem.

Já os que defendem a ideia dizem que hoje o contexto é outro e o grande sentimento antipolítica que marca parte da sociedade dificulta a repetição do clima de 1984.

À BBC News Brasil, o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) apoiou a unificação do ato na cor branca e ressaltou que é preciso "dialogar com a maioria da sociedade, que hoje não está ligada em partidos".

Convidado por Kataguiri, ele vai comparecer no ato da Avenida Paulista, onde discursará junto com outras lideranças da esquerda e da direita.

Ciro Gomes, que no passado já trocou ataques agressivos com lideranças do MBL, também deve falar do carro de som, assim como o deputado Alessandro Molon (PSB-RJ), líder da oposição na Câmara dos Deputados.

"Eu acho bacana todo mundo ir de branco, porque é uma coisa neutra. Como é muito diverso e como há cores que dão identidade a grupos políticos, seja verde-amarelo, seja vermelho, seja azul, eu considero que é bem importante a gente conseguir ter uma neutralidade", disse Orlando Silva.

"Não podemos cair na armadilha de 2022. A lógica não pode ser se os atos vão fortalecer ou enfraquecer determinado candidato. O nosso problema é enfrentar Bolsonaro hoje. Se eu for subordinar a disputa que fazemos hoje em defesa da democracia, contra o Bolsonaro, à disputa eleitoral, eu vou diminuir a dimensão do debate. Então, a minha expectativa é que as lideranças de esquerda possam participar da manifestação que tem como núcleo a defesa da democracia. Não é pela terceira via", acrescentou, ao explicar sua adesão.

Para críticos do PT, Lula não quer impeachment

Críticos do PT dizem que sua ausência nos atos de domingo estaria relacionada, na verdade, ao interesse de manter Bolsonaro na disputa de 2022, porque seria um candidato mais fácil de ser derrotado por Lula no segundo turno.

Dentro dessa visão, um impeachment poderia dificultar as chances de vitória petista, já que tornaria Bolsonaro inelegível, abrindo espaço para outra liderança chegar ao segundo turno contra o ex-presidente.

"O problema do PT é o pensamento hegemônico de querer liderar o restante das esquerdas, de ter esse incômodo com outras lideranças, como o Ciro (Gomes), que também está confirmado (no ato de domingo). E isso incomoda os petistas porque, mantidas as condições atuais, o Lula é eleito. Agora, manifestações pelo impeachment podem mudar o cenário atual", afirma Kim Kataguiri.

Manifestação liderada pela esquerda contra Bolsonaro no Rio, em 29 de maio

Os petistas refutam essa tese, destacando que já apoiam o impeachment de Bolsonaro desde o ano passado, muito antes da adesão de movimentos de direita. O partido tem apoiado os atos contra Bolsonaro organizados desde o início do ano por Frente Povo Sem Medo, Frente Brasil Popular e Coalizão Negra por Direitos — as três reúnem centenas de sindicatos, movimentos sociais e coletivos negros e de periferia, como Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a UNEAfro.

Assim como MBL e Vem Pra Rua não quiseram participar desses protestos, a Frente Povo Sem Medo também decidiu não convocar para os atos deste domingo, disse à BBC News Brasil um dos seus integrantes, Josué Rocha, coordenador do MTST.

"A gente defende unidade pelo impeachment de Bolsonaro, mas não achamos que a MBL e o Vem Pra Rua conseguem ter os catalisadores desse processo. São movimentos que têm raízes de extrema-direita, tem posicionamentos que em muitos aspectos se assemelham ao próprio Bolsonaro, apoiaram sua eleição e agora estão com posicionamento contrário de forma eventual", criticou.

Em respostas a essas críticas, a porta-voz do MBL Adelaide Oliveira disse à BBC News Brasil que o movimento apoiou Bolsonaro no segundo turno de 2018 por compartilhar de algumas bandeiras levantadas por ele na campanha, como a agenda anticorrupção e a pauta econômica liberal.

"Nós continuamos apoiando as pautas que ele abandonou: somos contra privilégios, queremos o combate à corrupção, queremos um Estado eficiente. Quem abandonou todas as pautas que prometeu foi o Bolsonaro", disse Oliveira.

"Eu acho natural que os mais radicais de esquerda não se se sintam impelidos (a participar no domingo) porque eles sabem da nossa resistência histórica contra, por exemplo o presidente Lula", acrescentou.

MBL não tem credencial democrática para liderar ato plural contra Bolsonaro

O MBL aproveita a oportunidade de ter marcado uma manifestação logo depois de 7 de Setembro para se reposicionar no jogo de poder. A democracia permite isso. Tudo certo. Mas é ingênuo não enxergar uma jogada que mescla oportunismo político e falso moralismo.

As exigências do novo texto de convocação não são nem o principal. O que importa é que a convocação suprapartidária do MBL é verdadeira como uma nota de três reais. Em primeiro lugar, o movimento nunca fez parte da direita democrática. Demonizou a política, invadiu museu e hospital, atacou adversários com fake news e apoiou a ascensão do autoritarismo ao poder em 2018. Chamou de "vergonha" o STF, hoje o principal alvo de Bolsonaro. O MBL defende bandeiras retrógradas em relação a minorias, meio ambiente, armas e economia. Tem identidade ideológica com o bolsonarismo.

Trata-se de um movimento autoritário que sempre recorreu a métodos fascistas em suas manifestações e campanhas eleitorais. A ruptura com o atual governo aconteceu porque o presidente Jair Bolsonaro não deu ao MBL o protagonismo que o movimento desejava dentro de um projeto regressivo. Bolsonaro descartou o MBL depois de tirar proveito dele. Este é o fato.

Desenhando: o MBL é o bolsonarismo sem Bolsonaro. Para salvar a democracia, que está sob real ameaça, não basta derrotar o genocida, mas também as ideias que ele representa.

"Deixem de revanchismo. Se formos fazer julgamento do passado, não vamos ter gente suficiente para derrubar Bolsonaro via impeachment ou no voto?", questionam políticos e jornalistas que defendem a adesão ao ato de 12 de setembro.

O MBL não tem as credenciais democráticas para liderar uma frente ampla e suprapartidária para tirar Bolsonaro do poder. Que faça seu ato de bolsonaristas arrependidos. Como diria José Simão, "vai indo que eu não vou".

Há diferença entre ter memória, aprendendo com a História, e ser revanchista e sectário. O MBL, que tem um projeto de poder obscurantista, nunca pertenceu à direita democrática. Não possui a legitimidade necessária para se sentar na janelinha dos que defendem a democracia brasileira.

É fundamental que os democratas, da esquerda à direita, disputem a política, as redes sociais e as ruas com Bolsonaro e seus fascistas. Mas fascistas recém-convertidos à democracia merecem e devem ser vistos com desconfiança.

Após 7 de Setembro, partidos políticos e entidades da sociedade civil deram início a conversas para convocar um grande ato suprapartidário. É boa a ideia de unir Lula, FHC, Ciro, Doria, Rodrigo Maia, Gilberto Kassab e outros políticos num palanque em defesa da democracia. OAB, centrais sindicais, a Igreja Católica e outras entidades da sociedade civil também devem participar da articulação desse palanque amplo e plural.

Nesse palanque, o MBL pode até subir, mas pegando carona, como pegaram nas "Diretas Já" os dissidentes da ditadura militar. O protagonismo em defesa da democracia tem de ser dos democratas, com o perdão da obviedade.

É hipócrita o empenho de certo jornalismo em cobrar da esquerda uma adesão ao ato do MBL. Não se viu tanta gritaria para que a direita apoiasse manifestações da esquerda.

Democratas de pandemia descobriram recentemente que Paulo Guedes é um engodo. Nesta semana, chegaram à original constatação de que o Brasil não tem governo. Quem sabe um dia admitam que normalizaram o genocida e ajudaram Moro e cia. a demonizar a política ao corromper o processo penal.

Quando fizerem isso, terão adquirido autoridade ética para um "rebranding" sem recorrer a tanto óleo de peroba.


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