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Sexta-Feira 22.out.2021

Ano X - Nº 463

Coluna

Apenas os fortes sobrevivem às crises e às palavras

Em épocas sombrias, onde tudo que é sólido se desmancha no ar, é preciso aceitar que só os fortes sobrevivem. Inclusive às palavras

Postado em 08 de Setembro de 2021 - Theresa Hilcar

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Toda semana é a mesma coisa, a mesma sensação: acho não vou conseguir escrever a crônica. O sofrimento começa na terça pela manhã. Logo ao acordar me dou conta de que preciso decidir o tema. São tanto os tópicos, tantos assuntos, tantas atrocidades, que só em pensar me canso. A grande Raquel de Queiróz certa vez confessou numa entrevista que sofria muito para escrever. Faço coro a ela. 

Se a escritora cearense, autora de O Quinze entre outras obras importantes que lhe valeram vários prêmios internacionais, carregava consigo a dor de escrever, imaginem o que uma reles escrevinhadora como eu sente ao ver a tela do computador em branco e a cabeça vazia?

Raquel escrevia sobre a realidade brasileira, destacava o caráter regionalista com uma linguagem verossimilhante e muito próxima do coloquial. Com seu estilo equilibrado entre a forma e o conteúdo, Raquel conseguia fazer críticas à sociedade e seus costumes de um jeito simples e delicado. Quando o leitor percebia o truque já estava fisgado pela leitura. Era uma maestrina.    

No século 21, os assuntos são um emaranhado de narrativas e opiniões que, na maioria das vezes, só nos confundem. De vez em quando lembro de Camus, o escritor argelino que questionava como devemos reagir diante da inutilidade da vida. Penso às vezes na inutilidade de escrever, quando a melhor literatura já está nas melhores bibliotecas. 

Toda a poesia já foi colhida, romances vividos e revividos, a realidade supera a ficção e nas redes sociais todo mundo escreve sobre tudo o tempo todo. O que sobra para nós, pobres cronistas? Um punhado de lembranças e um tiquinho de inspiração. Na maioria das vezes o sentimento é de cansaço tingido de espanto. Principalmente quando temos que responder à pergunta crucial: Por que continuamos a escrever?

Boa parte da literatura clássica foi escrita durante períodos de tormenta, de guerras e incertezas. Hemingway, por exemplo, usou a guerra da Espanha como pano de fundo para obras célebres. O caos, muitas vezes, anima a produção. Escritores recorrem à literatura para exorcizar as ansiedades e refletir sobre as crises. 

Em um 2020 enredado por acontecimentos que parecem ter saído da ficção, não é surpreendente que distopias literárias como Admirável Mundo Novo, O Conto da Aia e 1984 estejam entre os títulos mais buscados ao redor do mundo. Em março, “A Peste”, romance de 1947 de Albert Camus, entrou para a lista dos mais vendidos na Itália em plena pandemia. Tudo a ver com o momento atual.

Outro dia ouvi do filósofo Ponde, que a literatura do escritor e teatrólogo Nelson Rodrigues não sobreviveria na atualidade. Seria defenestrado por seus artigos, romances e peças teatrais que hoje seriam considerados imorais e politicamente incorretos. Estamos vivendo sob uma vigilância quase vulgar da cultura, dos costumes, crenças, filosofia e ideias. Até a inspiração fica comprometida. A minha, com certeza.

Iniciei a crônica com intenção de falar sobre o corajoso texto da colega jornalista, Hildegard Angel, publicada esta semana. Foram palavras fortes, sinceras e precisas. Um desabafo de quem conhece bem o peso da resistência. De quem lutou e continua lutando contra todo e qualquer tipo de injustiça. Para surpresa dos seus leitores, a jornalista revelou que se encontra no hospital enfrentando, como tantos outros brasileiros, este vírus impiedoso. 

Deve ser por isto que, especialmente hoje, não estou com vontade alguma de escrever sobre nenhum assunto ou tema específico. Estou sem ânimo para frases e sem argumentos para alguma coerência. Em épocas sombrias, onde tudo que é sólido se desmancha no ar, é preciso aceitar que só os fortes sobrevivem. Inclusive às palavras.


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