Semana On

Quarta-Feira 29.set.2021

Ano X - Nº 461

Entrevista

Reação violenta de policiais em caso de derrota ou impeachment de Bolsonaro está no horizonte

Para o professor Adriano de Freixo, as reações aos atos de 7 de Setembro servirão como termômetro da situação

Postado em 07 de Setembro de 2021 - Alisson Matos – Carta Capital

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As reações de policiais militares às manifestações do 7 de Setembro servirão de termômetro para a possibilidade de impeachment ou de derrota do presidente Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. A avaliação é de Adriano de Freixo, professor do Departamento de Estudos Estratégicos e Relações Internacionais do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (Inest-UFF).

Em janeiro, em entrevista a CartaCapital, o professor já alertava que a influência de Bolsonaro nas polícias era mais preocupante do que nas Forças Armadas.

Em nova conversa oito meses depois, Freixo afirma que “a preocupação aumentou consideravelmente”.

“Ao lado de uma série de manifestações concretas de apoio a Bolsonaro e às teses bolsonaristas por parte de integrantes das forças policiais, nós temos uma pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que tomou por base a interação de integrantes das várias corporações policiais nas redes sociais, que mostra um aumento preocupante da adesão de policiais militares, principalmente oficiais, às teses do bolsonarismo radical”, diz.

Para ele, a adesão ao bolsonarismo é maior na Polícia Militar quando comparada a outras corporações.

“A recente pesquisa que mencionei anteriormente nos apresenta indícios bastante fortes de um crescente apoio a Bolsonaro e às teses bolsonaristas radicais entre policiais militares. No entanto, em outras corporações como a polícia federal e a polícia civil, essa adesão aos ambientes de apoio ao presidente da república não teve crescimento significativo em relação à pesquisa de 2020”, aponta.

 

 Em janeiro, o senhor chegou a me dizer que a bolsonarização da polícia é fator de preocupação maior do que nas Forças Armadas. Desde então, o senhor acha que temos mais ou menos motivos para nos preocupar com o tema?

Creio que nesses oito meses a preocupação aumentou consideravelmente, principalmente em relação ao crescimento do bolsonarismo entre os policiais militares. Ao lado de uma série de manifestações concretas de apoio a Bolsonaro e às teses bolsonaristas por parte de integrantes das forças policiais – por exemplo, a repressão da PM de Pernambuco aos manifestantes contrários ao governo em 19 de maio, a forte presença de policiais nas “motociatas” em apoio ao presidente, o discurso recente do comandante da PM de Brasília que foi encerrado com o slogan de campanha Bolsonaro ou os incidentes envolvendo o Coronel Aleksander Lacerda, da PM paulista – , nós temos uma pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que tomou por base a interação de integrantes das várias corporações policiais nas redes sociais, que mostra um aumento preocupante da adesão de policiais militares, principalmente oficiais, às teses do bolsonarismo radical.

Esse processo de bolsonarização das polícias começou com o presidente já eleito ou é um fenômeno anterior?

Na verdade, eu entendo o bolsonarismo como um fenômeno político que transcende a própria figura de Bolsonaro e que se caracteriza por uma visão de mundo ultraconservadora, pela retórica “patriótica” e pela crítica a tudo aquilo minimamente identificado com o “progressismo”, o que inclui a defesa dos direitos humanos, associada pelo discurso bolsonarista, à defesa de bandidos e à leniência com a criminalidade. Tal visão de mundo encontrava eco em parte das corporações militares, mesmo antes da ascensão de Bolsonaro à presidência. A sua chegada ao Planalto só intensificou esse processo. Não podemos esquecer também que a atuação parlamentar do deputado Jair Bolsonaro e de seus filhos os aproximou das demandas corporativas das corporações policiais, mesmo que, na maior parte das vezes, essa aproximação não tenha garantido ganhos efetivos para a categoria, No entanto, ajudou a construir a imagem do clã Bolsonaro como defensor dos interesses dos policiais.

O senhor atribui esse apoio mais à questão ideológica ou a questões práticas, como benefícios concedidos à categoria?

Há uma convergência entre esses dois fatores: uma identificação ideológica de parte dos integrantes das corporações policiais, notadamente os policiais militares, com as teses bolsonaristas e a associação de Bolsonaro com a defesa de interesses corporativos da categoria, associação esta que vem desde que o atual presidente era deputado federal. Já na presidência, Bolsonaro e a bancada bolsonarista no congresso têm procurado levar avante algumas demandas de setores das forças de segurança, como por exemplo a proposta de reforma das polícias estaduais, com o aumento de sua autonomia em relação aos executivos estaduais.

E como o senhor acha que reagirão policiais em caso de derrota do presidente?

O cenário para 2022 ainda é bastante nebuloso, já que há possibilidades, mesmo que remotas, do afastamento de Bolsonaro antes do término do mandato ou do presidente ser considerado inelegível pelo TSE, não podendo assim disputar as eleições. Além disso, diversos governadores têm procurado conter essa politização/bolsonarização de suas forças policiais, inclusive com a adoção de punições disciplinares, como fez o governo de SP recentemente. Tem que se aguardar para ver quais serão os desdobramentos disso. Os próprios atos realizados no 7 de Setembro e as possíveis reações a eles servirão como termômetro da situação. Mas a possibilidade de reações mais fortes e violentas por parte de integrantes das corporações policiais a não reeleição ou mesmo a um eventual afastamento de Bolsonaro da presidência é algo que está no horizonte e é motivo de preocupação.

Há diferenças no nível de apoio ao presidente em diferentes corporações?

A recente pesquisa que mencionei anteriormente nos apresenta indícios bastante fortes de um crescente apoio a Bolsonaro e às teses bolsonaristas radicais entre policiais militares. No entanto, em outras corporações como a polícia federal e a polícia civil, essa adesão aos ambientes de apoio ao presidente da república não teve crescimento significativo em relação à pesquisa de 2020.

As manifestações do dia 7 representaram algum risco à democracia?

Via de regra, as manifestações bolsonaristas representam, por si só, um risco à democracia por serem mobilizadas em torno de teses antidemocráticas – como intervenção militar, fechamento do STF ou questionamentos à segurança e à própria legitimidade do sistema eleitoral, por exemplo. Além disso, o presidente tem utilizado a estratégia de esticar a corda até o limite para, por um lado, manter a mobilização de sua base mais fiel e, por outro, testar até onde as instituições e os demais atores políticos o deixam chegar. Nas últimas semanas, a reação por parte de algumas dessas instituições e de setores da sociedade organizada, finalmente, se fez sentir de forma um pouco mais intensa. No entanto, ela ainda é bastante tímida e insuficiente diante da quantidade de ameaças – e não só no plano retórico – que o presidente e o núcleo duro do bolsonarismo fazem à já frágil democracia brasileira.

O senhor acha que o Bolsonaro apresenta condições para dar um golpe?

A ideia de uma ruptura institucional, hoje, não é algo necessariamente majoritário nem entre as principais bases de sustentação do governo Bolsonaro, como o “partido militar”, por exemplo. Como mencionei anteriormente, a reação um pouco mais intensa de parte das instituições e dos demais atores políticos às ameaças golpistas e aos arroubos autoritários de Bolsonaro e dos bolsonaristas demonstram que a base de sustentação política do presidente se esvai. As elites econômicas, entusiastas das teses liberais, mas que buscam estar sempre próximas dos que estão à frente do Estado, tem procurado mostrar distanciamento do governo nas últimas semanas, até porque a política econômica de Paulo Guedes tem sido desastrosa e a crise política e a ineficiência da gestão Bolsonaro, definitivamente, contaminaram a economia. A ambiência internacional, após a derrota de Trump e outros revezes da direita global, também não é muito favorável a aventuras golpistas. No entanto, como já disse, Bolsonaro testa o limite das instituições o tempo todo e, muitas vezes, consegue esgarçá-los ainda mais, diante da condescendência e da extrema “tolerância” dos demais atores. A lógica de Bolsonaro parece ser a de semear o caos, para aparecer como restaurador da ordem, replicando a estratégia e as táticas de Trump, que tiveram o desfecho que todos conhecemos. Mais uma vez, a dinâmica dos atos do dia 7 e a forma como as instituições e os principais atores políticos responderem a eles serão cruciais.

E com relação às Forças Armadas, já é possível descartar que elas embarcariam em uma aventura golpista?

Não se deve esquecer que a candidatura de Bolsonaro à presidência foi, antes de tudo, um projeto do “Partido Militar”, articulado em torno da defesa de interesses corporativos, do desejo de retomar o protagonismo político e de persistência de uma forte ideologia anticomunista – em um sentido bastante amplo do termo – nos quartéis. No entanto, o desastre que é o atual governo, que conta com a participação de um número inédito de militares em cargos da Administração Direta e em estatais, tem trazido um grande desgaste para as Forças Armadas, o que tem feito com que parte do estamento militar venha procurando mostrar certo distanciamento em relação a ele. Ao mesmo tempo, é visível o incômodo de parte da oficialidade com a crescente politização dos quartéis e com o incentivo à quebra da hierarquia e da disciplina militares por parte do próprio presidente (seja nas Forças Armadas, seja nas polícias militares, constitucionalmente definidas como forças auxiliares do Exército). Parece ganhar força entre os militares a ideia de se afastar gradualmente do atual governo, reforçando o discurso de respeito à constituição e à ordem democrática por parte das Forças Armadas, ao mesmo tempo em que o “Partido Militar” parece sinalizar simpatias pela ideia de uma “terceira via”, de “centro”, que impeça o retorno do “esquerdismo lulista” e mantenha os privilégios e o protagonismo militares, que vêm se consolidando desde o governo Temer, com a configuração de uma “democracia tutelada”. Porém, é difícil prever qual seria, por exemplo, a reação das Forças Armadas a algum “levante” de policiais militares em apoio a Bolsonaro.


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