Semana On

Segunda-Feira 16.mai.2022

Ano X - Nº 487

Poder

Federação dos bancos reafirma apoio a manifesto em defesa da democracia

Mercado financeiro ensaia 'desembarque silencioso' do governo, diz ex-secretário de Política Econômica

Postado em 03 de Setembro de 2021 - DW, Josias de Souza (UOL), Camilla Veras Mota (BBC News) - Edição Semana On

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A Federação Brasileira de Bancos, a Febraban, declarou na quinta-feira (2) apoio a um manifesto que defende a democracia e pede harmonia entre os Poderes.

Em nota, a Febraban afirma que o conteúdo do manifesto, intitulado A Praça é dos Três Poderes, tem o papel de pedir "equilíbrio e serenidade" aos Poderes, e disse que não ficará mais vinculada às decisões da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

A publicação da peça estava programada para ocorrer na última terça-feira (31/08), mas foi adiada por decisão de Paulo Skaf, presidente da Fiesp, entidade encarregada da coordenação da coleta de adesões e divulgação do documento.

Em nota oficial divulgada na última segunda-feira (30/08), a Fiesp afirmou ter adiado a publicação do manifesto para dar mais tempo para as entidades aderirem ao texto.

O manifesto, assinado por cerca de 200 entidades de classe, como a Associação Brasileira de Agronegócio (Fecomercio) e a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores, foi elaborado após a intensificação dos ataques de Jair Bolsonaro contra a legitimidade das urnas eletrônicas, ameaçando também a realização das eleições de 2022, e contra instituições como o Supremo Tribunal Federal (STF).

Resistência de bancos públicos

A ação desagradou o presidente, que viu no texto críticas à sua gestão, levando dois bancos públicos, a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil, ameaçarem sair da Febraban caso a federação assinasse o texto.

Apesar da resistência dos bancos públicos e do adiamento da divulgação oficial, a Febraban reiterou apoio ao documento, afirmando que sua "única finalidade é defender a harmonia do ambiente institucional no país".

"A Febraban considera que o conteúdo do manifesto, aprovado por sua governança própria, foi amplamente divulgado pela mídia do país, cumprindo sua finalidade. A federação manifesta respeito pela opção do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, que se posicionaram contrariamente à assinatura do manifesto", diz o texto.

Ao considerar o assunto encerrado, a Febraban ressalta também que "não ficará mais vinculada às decisões da Fiesp, que, sem consultar as demais entidades resolveu adiar sem data a publicação do manifesto".

Manifesto do agronegócio

Na segunda-feira (30/08), sete entidades que representam o agronegócio no Brasil divulgaram um manifesto expressando preocupação com os "atuais desafios à harmonia político-institucional" no país e possíveis reflexos na estabilidade econômica e social, e reforçam a importância do Estado democrático de direito.

"Somos responsáveis pela geração de milhões de empregos, por forte participação na balança comercial e como base arrecadatória expressiva de tributos públicos. Assim, em nome de nossos setores, cumprimos o dever de nos juntar a muitas outras vozes responsáveis, em chamamento a que nossas lideranças se mostrem à altura do Brasil e de sua história agora prestes a celebrar o bicentenário da independência", afirma o texto.

O texto diz que o desenvolvimento econômico e social do Brasil depende de "paz e tranquilidade" para seguir avançando na construção de uma nação "que reconhece a maioria sem ignorar as minorias, que acolhe e fomenta a diversidade, que viceja no confronto respeitoso entre ideias que se antepõem, sem qualquer tipo de violência entre pessoas ou grupos".

O manifesto é assinado pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo), Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Associação Brasileira de Produtores de Óleo de Palma (Abrapalma), Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) e Croplife Brasil.

Amor da Febraban pela democracia sai do armário com um atraso de 72 horas

Quem escolhe o momento exato economiza muito tempo. O amor da Febraban pela democracia levou 72 horas para sair do armário. Se as casas bancárias associadas à entidade dedicarem o mesmo apreço retardatário às carteiras de investimento que administram, a clientela perderá muito dinheiro.

Moralmente ligeiros, os banqueiros começaram a engolir sapos distraídos há pelo menos dez meses, desde que Paulo Guedes referiu-se à Febraban como "casa de lobby honrada" que financia estudos para "ministro gastador".

Politicamente devagar, a Febraban só reagiu quando lhe doeu a ideia de que fazia o papel de um baronato desatento, numa peça confusa, em que o protagonista era o Paulo Skaf e o epílogo era uma fuga sob o bombardeio de duas logomarcas estatais: Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil.

Intelectualmente lentos, os banqueiros demoraram a perceber o bem que a agroindústria fez a si mesma ao reagir instantaneamente contra o recuo de Paulo Skaf, um quase-ex-futuro-presidente da Fiesp.

Divulgado com a rapidez de um raio, o manifesto de sete entidades do agronegócio teve o efeito de um feixe de luz em meio ao apagão empresarial.

Ficou demonstrado que, diante da intensidade dos ataques de Bolsonaro à democracia, as três velocidades da Febraban —moralmente ligeira, politicamente devagar e intelectualmente lenta— são insultuosas.

Ficou entendido também que os manifestos empresariais que começam a pipocar no noticiário com atraso indicam que o PIB já não se dispõe a pular na cova junto com Bolsonaro.

Debandada?

Os manifestos assinados nas últimas semanas por empresários, figuras do agronegócio e do mercado financeiro são o lado visível de um "desembarque silencioso" de parte da elite econômica da base de apoio do governo Bolsonaro.

Quem faz a avaliação é o economista José Roberto Mendonça de Barros, secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 1995 e 1998, fundador da consultoria MB Associados, em funcionamento desde 1978, e membro do conselho de diferentes empresas.

O "desencanto" de parte do mercado financeiro e de empresários com o governo se aprofundou nas últimas semanas diante do que ele considera uma virada no cenário político e econômico.

À tramitação atrapalhada da reforma do imposto de renda e à proposta de parcelamento de precatórios com o intuito de turbinar um novo Bolsa Família se misturaram a antecipação da sucessão presidencial, o aumento da inflação e dos juros e, agora, uma crise hídrica e energética.

A resposta veio como aumento do dólar, queda da bolsa e elevação das taxas de juros futuros (que mostram a expectativa do mercado em relação à Selic nos próximos anos e acabam sendo um termômetro da percepção de risco do país).

"Isso que aconteceu nas últimas duas, três semanas é que essa realidade se abateu no mercado financeiro. Houve uma revisão generalizada de cenários", diz Mendonça de Barros em entrevista à BBC News Brasil.

"Estamos falando de outro mundo, outro cenário, em que finalmente o mercado financeiro capitulou."

E é cada vez mais difícil pensar em uma reversão, diz ele, com a entrada precoce do elemento da sucessão presidencial de 2022 no jogo.

"O executivo puxou essa discussão e agora não tira mais. Então, nós vamos com isso até outubro do ano que vem. Com as incertezas, as pressões... o que só reforça esse cenário de desaceleração", pontua.

Sob esse pano de fundo, a decepção da elite empresarial e econômica do país com o governo foi ganhando novos contornos.

"Já existe um bom desembarque. Para a maior parte desses agentes, isso é feito de forma silenciosa...atualmente, porém, não mais tanto. Aquele primeiro manifesto, em que todo mundo foi na [pessoa] física, havia empresários de peso ali."

Mendonça de Barros se refere ao manifesto "Eleições serão respeitadas", uma reação às ameaças do presidente às eleições no próximo ano.

Bolsonaro faz reiteradamente acusações infundadas e sem provas de que a urna eletrônica seria fraudulenta e diz que o país só teria eleições justas com o retorno do voto impresso. Também desfere com frequência ataques contra ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e inflama sua base de apoio que defende uma ruptura institucional por meio de um golpe militar.

O economista foi um dos mais de 200 signatários iniciais no manifesto, ao lado de figuras como o industrial Horácio Lafer Piva, acionista da Klabin, gigante da área de celulose e papel, e da empresária Luiza Helena Trajano, presidente do conselho de administração da rede Magazine Luiza.

Mais recentemente, foi a vez do agronegócio. Sete entidades lançaram um manifesto em defesa da democracia que dizia que o Brasil não poderia se mostrar à comunidade internacional "como uma sociedade permanentemente tensionada em crises intermináveis ou em risco de retrocessos e rupturas institucionais".

E há ainda o manifesto que vinha sendo costurado pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e pela Febraban (Federação Brasileira de Bancos), suspenso depois que os bancos públicos Caixa Econômica e Banco do Brasil ameaçaram deixar a Febraban caso o texto fosse divulgado.

Ainda que não tenha sido tornado público, o movimento seria mais um indicativo de que já há um desembarque desse grupo: "Eu sou testemunha disso, no mundo que eu consigo olhar, do qual eu consigo falar, é exatamente isso, um desencanto".

Mendonça de Barros diz que "ninguém está encantado pela esquerda", mas que há cada vez mais uma visão de que o caminho pelo atual governo tampouco é uma solução. "E aí todo mundo fica pensando e sonhando com o que se convencionou chamar de terceira via, algo tão desejável quanto difícil de se pôr em pé."

Otimismo exagerado

O mercado financeiro conseguiu segurar o otimismo até meados de maio e junho, lembra o economista.

Naquele período, havia uma visão de que a relação dívida/PIB vinha melhorando e de que a arrecadação crescia, além da expectativa de que o Congresso passaria reformas com alguma facilidade.

"Tinha uma certa [expectativa para] inflação, mas não era 8%, tinham um certo aumento de juro, mas não era 8,5%."

Mesmo naquele momento, contudo, a empolgação era exagerada, diz ele. A aparente melhora da parte fiscal sinalizada pela relação dívida/PIB, exemplifica Mendonça de Barros, era uma "ilusão estatística" causada pela aceleração da inflação.

A ideia é que, quando a inflação acelera, o PIB nominal cresce mais rápido (porque os preços sobem, não necessariamente porque a economia produz mais), enquanto o estoque da dívida demora mais a aumentar. Isso porque a dívida pública acompanha o movimento da taxa básica de juros, elevada pelo Banco Central em um segundo momento, em reação à inflação. Há, portanto, uma defasagem.

Na avaliação do economista, o mercado também se equivocou na análise de que a agenda de reformas caminharia de forma mais célere com a aliança entre o governo e o Centrão. O risco de que a qualidade do que fosse aprovado não valesse a pena — hoje materializado — sempre existiu.

Exemplo recente é a Medida Provisória de capitalização da Eletrobras, aprovada com tantos "jabutis" (termo comumente usado para se referir à inclusão de parágrafos completamente alheios ao tema do dispositivo) que, na avaliação de entidades do setor elétrico, deve encarecer o custo da energia. E há a reforma do Imposto de Renda, que tramita em uma versão com tantas modificações que, hoje, provocaria ainda mais distorções no já complexo sistema tributário brasileiro.

"Evidentemente que o mercado tinha muita vontade de acreditar no cenário otimista porque tinha negócios ali... eu sou consultor de mercado financeiro há 43 anos, já vivi o suficiente pra saber como é isso", pontua.

"Tinha uma fila de IPOs [sigla para Initial Public Offering, a estreia na bolsa de empresas até então de capital fechado], muito business, muito M&A [sigla para Mergers and Acquisitions, fusão e aquisição de empresas], que só vai pra frente com cenário otimista. No cenário defensivo essas coisas param, e de fato pararam."


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