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Sexta-Feira 03.dez.2021

Ano X - Nº 470

Poder

Dinastia dos Bolsonaro transformou-se numa organização familiar sub judice

Ex-assessor de Flávio diz que ex-mulher do presidente cuidava de esquema de 'rachadinha'; Justiça quebra sigilos bancário e fiscal de Carlos Bolsonaro

Postado em 03 de Setembro de 2021 - Fabio Grellet (Estadão), Josias de Souza (UOL), DW - Edição Semana On

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Um homem que se apresenta como ex-assessor parlamentar do senador Flávio Bolsonaro (Patriota) e afirma ter trabalhado durante 14 anos para a família do presidente Jair Bolsonaro acusa os irmãos Flávio e Carlos Bolsonaro (que é vereador no Rio pelo Republicanos), além da ex-mulher do presidente, a advogada Ana Cristina Valle, de terem praticado o esquema de "rachadinhas" (devolução do salário de funcionários nomeados), entre outros crimes. Marcelo Luiz Nogueira dos Santos brigou com Ana Cristina neste ano e deu entrevista ao site Metrópoles, narrando sua versão dos fatos.

O ex-assessor disse que começou a trabalhar com a família Bolsonaro após um pedido de seu namorado, que era cabeleireiro de Ana Cristina, então mulher do presidente, em 2002.  Nogueira afirmou ao site que começou a trabalhar na campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro, que concorria pela primeira vez a deputado estadual no Rio. Flávio se elegeu, e Nogueira foi convidado a se tornar assessor parlamentar de nível quatro, com salário bruto oficial de R$ 7.326.

Mas havia uma condição, exposta por Ana Cristina: ele teria de devolver 80% do salário, no esquema conhecido como “rachadinha”, o que é crime. Nogueira aceitou a proposta e trabalhou de 19 de fevereiro de 2003 a 6 de agosto de 2007. Nesse período, segundo ele, outros funcionários também “devolviam” ao gabinete porcentuais de seus vencimentos. Ana Cristina era a responsável pelo recolhimento. Nogueira afirmou ao Metrópoles que o esquema vigorava tanto no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) como no de Carlos, vereador na capital fluminense desde 2001. A advogada só teria deixado de exercer a função ao se separar de Jair, em 2007.

Após a separação, em 6 de agosto de 2007, Nogueira foi exonerado do cargo. Teria passado então a trabalhar no escritório de advocacia de Ana Cristina. Ele diz ter sido então procurado por Jair Bolsonaro, que teria lhe pedido para passar a morar na casa de Ana Cristina, para cuidar de Jair Renan, na época com 9 anos. Nogueira aceitou a proposta e trabalhou como empregado doméstico de Ana Cristina até 2009, quando ela se mudou para a Noruega, onde se casou novamente, com o norueguês Jan Raymond Hansen. Embora tenha deixado de trabalhar para a família, Nogueira afirmou ter se tornado amigo de Ana Cristina, a ponto de ir visitá-la na Europa.

Em 2014, Ana Cristina voltou a morar no Brasil e contratou Nogueira para trabalhar na casa dela, em Resende, na Região Sul fluminense. Ali ficou até fevereiro deste ano, quando a advogada decidiu se mudar para Brasília. Começava aí, segundo Nogueira, a desavença entre ele e Ana Cristina.

Marcelo Nogueira sustenta que aceitou se mudar para Brasília e seguir trabalhando para a ex-mulher de Jair Bolsonaro pelo salário de R$ 3 mil. Mas a advogada, embora tenha se comprometido a pagar esse valor, só pagou R$ 1.300 mensais, alegando falta de dinheiro. O funcionário protestou. “Falei para ela: ‘Cristina, não sou obrigado a morar na sua casa. Trabalho para ter meu canto e em Brasília tudo é caro. Você pensa que vou ficar na sua casa e ser seu escravo? A escravidão já acabou. Você é racista. Isso é racismo. Você me tirou lá do Rio só porque em Brasília eu não tenho ninguém e não conheço nada? Acha que vou aceitar o que quer fazer comigo?'”, disse ao site Metrópoles.

Em junho, segundo Nogueira, ele teve ajuda de Jair Renan para deixar a casa da advogada e se hospedar, por algumas semanas, em um apartamento de Jair Bolsonaro em Brasília. Nogueira, então, fez uma denúncia de violações trabalhistas contra a advogada ao Ministério Público do Trabalho no Distrito Federal (MPT-DF). Em agosto, voltou para o Rio de Janeiro.

O MPT-DF confirmou ao Metrópoles que o empregado, de fato, fez a denúncia e uma investigação foi aberta para apurar o caso. Em nenhum dos momentos em que trabalhou para Ana Cristina ou para Jair Bolsonaro (para ser babá de Jair Renan), Nogueira foi registrado como empregado.

Ele afirmou ainda que Ana Cristina comprou a casa onde passou a morar com o filho Jair Renan – ela disse à imprensa ter alugado o imóvel. Segundo o ex-funcionário, a advogada comprou a mansão, que tem 1.200 m² de área total e 395 m² de área construída, piscina de 50 m², aquecimento solar e quatro suítes, por meio de dois laranjas, com quem teria firmado um contrato “de gaveta”. Trata-se de um documento não registrado em cartório para que eles repassem o imóvel a Ana Cristina ao final do financiamento. Segundo Nogueira, o objetivo seria não chamar a atenção da imprensa para a compra de mais um imóvel de luxo pela família Bolsonaro.

O ex-funcionário afirmou não saber qual foi o preço pago pela mansão, mas disse que a casa estava sendo negociada por um valor entre R$ 2,9 milhões e R$ 3,2 milhões. O Metrópoles informou não ter conseguido contato com Ana Cristina Valle. Jair e Carlos Bolsonaro não responderam aos questionamentos do site. Flávio Bolsonaro afirmou que desconhece as acusações de Santos e que nunca praticou irregularidades na Alerj.

Cachorro doido

A rachadinha, eufemismo para roubo de dinheiro público, é uma prática disseminada nas casas legislativas do Brasil. Mas nenhum outro político conseguiu executar o desvio com a sofisticação empreendedora de Bolsonaro. Ele chegou à Presidência da República como chefe de uma organização familiar que administra há três décadas uma holding da rachadinha. Fundado no mandato de Bolsonaro na Câmara Federal, o empreendimento ganhou pelo menos duas filiais nos gabinetes dos filhos Flávio e Carlos Bolsonaro.

A revelação de Marcelo Luiz Nogueira dos Santos, que conta ter sido obrigado a devolver mensalmente 80% de seu salário quando trabalhou no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, é a reiteração de um vício já dissecado. Diante de um escândalo tão escancarado, cada vez que Bolsonaro dá uma de cachorro louco constrange alguém no Brasil.

O Supremo Tribunal Federal precisa explicar, por exemplo, por que contribuiu com decisões que adicionaram mais de um ano de protelação no Bolsa Prescrição, o projeto criminal idealizado pela holding da rachadinha. O Superior Tribunal de Justiça fica devendo uma justificativa aceitável para o fato de ter enviado à lata de lixo documentos que atestaram desvios de mais de R$ 6 milhões no antigo gabinete do primogênito Flávio.

O próprio Bolsonaro, quando rosna para as instituições ao declarar que chama seus devotos às ruas no 7 de Setembro para defender a liberdade de expressão, deveria se sentir obrigado a explicar a dificuldade de se exprimir sobre as mordidas da rachadinha, incluindo as dentadas que chegaram à conta da primeira-dama Michele.

Mais embaraçoso do que o silêncio do patriarca sobre as perversões familiares, é ausência de Carlos Bolsonaro, um especialista em barulho que perdeu a língua depois que a Justiça concedeu ao Ministério Público autorização para apalpar seus dados bancários e fiscais. O Judiciário abandonar o papel de estorvo para que a primeira-família possa fornecer ao país as explicações que está devendo.

Justiça quebra sigilos bancário e fiscal de Carlos Bolsonaro

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro autorizou a quebra dos sigilos bancário e fiscal do vereador Carlos Bolsonaro, no âmbito de uma investigação que apura a contratação de funcionários fantasmas no gabinete do parlamentar carioca.

Atendendo a um pedido do Ministério Público do Rio, a quebra foi autorizada pela 1ª Vara Especializada de Combate ao Crime Organizado do TJ-RJ em 24 de maio, mas a decisão foi revelada somente no último dia 31. Outras 26 pessoas e sete empresas também tiveram os sigilos quebrados.

Carlos é investigado desde julho de 2019 pelo MP do Rio de Janeiro. Agora, pela primeira vez, a entidade levanta a possibilidade de um esquema de "rachadinha" no gabinete do vereador.

O MP afirma ter indícios de que vários assessores nomeados no gabinete de Carlos ao longo desses 20 anos não cumpriam expediente na casa e podem ser considerados funcionários fantasmas. Segundo o regulamento da Câmara de Vereadores do Rio, assessores de parlamentares precisam cumprir uma jornada de trabalho de 40 horas semanais.

Agora, a quebra de sigilo foi pedida pelo Ministério Público para apurar se a contratação desses funcionários foi usada ou não como meio para desviar parte de seus salários.

Os promotores apontaram que Carlos manteve em sua posse e usou grandes quantidades de dinheiro em espécie durante seus seis mandatos na Câmara de Vereadores do Rio. Três episódios ocorridos ao longo desse período foram mencionados pelo MP.

Em 2003, o filho do presidente pagou 150 mil reais em dinheiro vivo na compra de um apartamento no bairro da Tijuca, no Rio. Em 2009, ele desembolsou 15.500 reais, também em espécie, para cobrir um prejuízo na bolsa de valores. Já em 2020, ao se candidatar à reeleição, Carlos declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) possuir 20 mil reais em dinheiro vivo em casa.

Ao pedir a quebra dos sigilos bancário e fiscal, o MP também citou um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que apontou duas operações financeiras suspeitas envolvendo o vereador, sendo uma delas de 1,7 milhão de reais, feita pela mãe dele, Rogéria Nantes Bolsonaro, entre 2007 e 2019.

Jair Renan converteu-se num novo escândalo esperando na fila para acontecer

Brasília observa os movimentos de Jair Renan com olhos de espanto. O filho Zero Quatro do presidente da República desfila pela Capital com ares de um novo escândalo que espera na fila para acontecer. Por enquanto, é apenas uma suspeita que ainda não se concretizou. Mas a violação ao Código Penal toma forma, e vem vindo. Depois, o pai do rapaz culpará a imprensa de perseguição.

A semana começou com a notícia de que Jair Renan, um buliçoso rapaz de 23 anos, mudou-se com a mãe para uma mansão no bairro mais chique de Brasília avaliada em R$ 3,2 milhões. Ficaram boiando na atmosfera as dúvidas sobre o valor do aluguel e o responsável pelo pagamento. A semana termina com a descoberta de que o prodígio mais jovem da família Bolsonaro abriu sua empresa de eventos em Brasília servindo-se dos bons préstimos do lobista Marconny Albernaz de Faria.

Marcony é investigado pela CPI da Covid como intermediário da Precisa Medicamentos, uma logomarca que frequenta o relatório final da investigação parlamentar no capítulo que trata da picaretagem do mercado de vacinas. Definitivamente, não foi uma boa semana para Jair Renan, que já é alvo de investigação do Ministério Público Federal sob a suspeita de cometer o crime de tráfico de influência ao abrir a maçaneta de ministros para empresários.

A explicação oficial é que Jair Renan tornou-se mais uma vítima de procuradores esquerdistas do Ministério Público e da imprensa comunista. A tese do complô é reconfortante. Não há melhor alternativa. Ou é mais um complô para embaraçar o presidente ou o país está diante de um fabuloso mal-entendido, de uma sequência impressionante de coincidências maliciosamente interpretadas que acabou fazendo um filho modelo de um pai exemplar parecer um malandrão.

Dinastia dos Bolsonaro transformou-se numa organização familiar sub judice

O futuro, como se sabe, a Deus pertence. Mas a dinastia Bolsonaro vive desde logo a síndrome do que está por vir. Pai e filhos tornaram-se clientes de caderneta do Judiciário. Num dia em que a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal adiou o julgamento sobre o foro privilegiado do Zero Um Flávio no caso da rachadinha estadual, veio à luz a notícia de que a Justiça quebrou os sigilos bancário e fiscal do Zero Dois Carlos no inquérito que apura a rachadinha municipal.

A dupla segue um vício introduzido no seio familiar pelo próprio Bolsonaro. Numa evidência de que quem sai aos seus não endireita, os filhos imitam o pai na prática de embolsar parte do salário dos assessores.

Os Bolsonaro consolidam-se como uma organização familiar cujo futuro está sub judice, pendente de apreciação judicial.

Tomado pelas pendências que acumula no Supremo Tribunal Federal e no Tribunal Superior Eleitoral, Bolsonaro tem a aparência de um delinquente em série. Acumula pelo menos sete processos.

Quatro no Supremo, onde correm as investigações sobre aparelhamento da PF, prevaricação no caso da vacina Covaxin, ataques às urnas eletrônicas e vazamento de inquérito sigiloso. Outros três no TSE, onde tramitam o inquérito das mentiras sobre urnas eletrônicas e um par de pedidos de cassação da chapa Bolsonaro-Mourão.

A rachadinha no gabinete de Flávio resultou numa denúncia em que o primogênito é acusado de peculato, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Carlos arrasta pela conjuntura um inquérito que prenuncia a repetição da trajetória do irmão.

Eduardo Bolsonaro, o Zero Três, é alvo de uma investigação preliminar sobre a utilização de R$ 150 mil em dinheiro vivo na compra de dois apartamentos no Rio.

Jair Renan, o Zero Quatro, é investigado pelo Ministério Público Federal em Brasília sob a suspeita de cometer o crime de tráfico de influência ao abrir a maçaneta de ministros para empresários. Os Bolsonaro revelam-se uma família dura de roer.

Dias atrás, o presidente Bolsonaro previu três alternativas para o seu futuro: "Estar preso, ser morto ou a vitória." Apressou-se em esclarecer que "a primeira alternativa, preso, não existe."

Se o Judiciário fosse um Poder confiável no Brasil, Bolsonaro e seus filhos talvez não abusassem tanto da sorte, confiando menos na Providência Divina.


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