Semana On

Sexta-Feira 22.out.2021

Ano X - Nº 464

Especial

Democratas se unem contra golpismo bolsonarista

Com apoio de uma minoria estridente, parte da PM e setores evangélicos, presidente ameaça a democracia

Postado em 03 de Setembro de 2021 - Estadão, Igor Mello e Josias de Souza (UOL), Leonardo Lellis (Veja) – Edição Semana On

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Às vésperas do 7 de Setembro, quando estão programados atos no País convocados pelo presidente Jair Bolsonaro e por seus apoiadores, a defesa da democracia, da harmonia entre os Poderes e de reformas que sustentem a recuperação econômica permeou manifestos, comunicados e declarações de representantes do empresariado nacional, de instituições bancárias e das cúpulas do Judiciário e do Congresso.

Após vir a público a iniciativa da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) – suspensa pelo seu presidente, Paulo Skaf, que adiou a divulgação de um documento que cobra a harmonia entre os Poderes –, empresários mineiros divulgaram na quarta-feira, 1º, um manifesto destacando que a “ruptura pelas armas, pela confrontação física nas ruas, é sinônimo de anarquia” e que “a democracia não pode ser ameaçada; antes, deve ser fortalecida e aperfeiçoada”.

Na quinta-feira (2), a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) reafirmou, em nota, o apoio ao manifesto “A Praça é dos Três Poderes”, encampado pela Fiesp. A entidade, no entanto, procurou se desvincular das decisões da Fiesp e considerou que o manifesto, “aprovado por governança própria, foi amplamente divulgado pela mídia, cumprindo sua finalidade”.

Na seara do Judiciário, numa enfática e direta mensagem, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, disse nesta quinta-feira que a Corte está vigilante aos movimentos do Dia da Independência e não vai tolerar atos atentatórios à democracia. Quase ao mesmo tempo, em reunião com o Fórum de Governadores, o presidente do Senado e do Congresso, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), defendeu um esforço entre os agentes políticos para a “construção de um ambiente de estabilidade política”.

Intitulado “Segundo Manifesto dos Mineiros ao Povo Brasileiro”, em alusão ao documento assinado por líderes estaduais, em 1943, que exigia o fim do Estado Novo e a redemocratização do Brasil (na época, a carta aberta trilhou o caminho para o surgimento de diversas outras, contribuindo para um clima político que levou à deposição de Getúlio Vargas, em 1945), o documento subscrito por representantes de peso da economia mineira diz que “as mudanças estruturais que o Estado brasileiro necessita (e que o povo reclama) exigem das lideranças, todas, e daqueles que ocupam cargos e funções nas estruturas produtivas e fornecedoras de serviço e de conhecimento (tanto públicas quanto privadas) uma urgente tomada de posição”.

Entre os signatários do manifesto estão Salim Mattar (fundador da Localiza e ex-secretário de Desestatização do governo Bolsonaro), Cledorvino Belini (ex-presidente da Fiat Chrysler Automobiles), Henrique Moraes Salvador Silva e José Henrique Dias Salvador (Rede Mater Dei), Modesto Carvalho de Araújo Neto (Drogaria Araújo) e Evandro Neiva (Grupo Pitágoras). 

O texto, que não cita Bolsonaro, foi divulgado horas após a Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) divulgar um outro manifesto com críticas ao Supremo e apoio a temas defendidos pelo presidente. No documento, os industriais mineiros pedem que o STF revise sanções e a possibilidade de desmonetização de sites e portais de notícias alvo de inquéritos que apuram fake news – alegam que se trata de uma luta pela “segurança jurídica e institucional” e contra o “cerceamento à liberdade de expressão”.

Reformas

No “Segundo Manifesto dos Mineiros”, o foco é outro. Os empresários e executivos defendem uma reforma do Estado, com “a reforma político-eleitoral, a reforma administrativa, a reforma do sistema de educação (só a educação transforma as pessoas), a reforma do sistema de segurança, a reforma orçamental e econômica, a reforma do sistema tributário (são reformas de conteúdo)”.

Afirmam ainda que “é preciso pôr fim à vida estamental do aparelho do Estado que, no Brasil, desde sempre, é uma presa capturada por grupos de pessoas que se autoprivilegiam e conduzem a vida das pessoas segundo seus interesses pessoais” e fazem referência ao clima de tensionamento institucional e ameaças que vive o País. “A ruptura pelas armas, pela confrontação física nas ruas, é sinônimo de anarquia, que é antônimo de tudo quanto possa compreender uma caminhada serena, cidadã e construtiva. A democracia não pode ser ameaçada; antes, deve ser fortalecida e aperfeiçoada. O que se pretende provocar é outro tipo de ruptura: a ruptura através das ideias e da mudança de comportamentos em todas as dimensões da vida”, diz o manifesto. 

Signatários deste documento, ouvidos pelo Estadão, negaram que ele seja um contraponto ao texto da Fiemg. “A divulgação quase simultânea dos dois documentos foi pura coincidência. Neste momento de desarmonia entre os Poderes, ambos mostram que há uma insatisfação com o que está acontecendo no País”, afirmou Salim Mattar. Autor do texto, o presidente da Associação Comercial de Minas (ACMinas), José Anchieta da Silva, também disse que o manifesto não é uma resposta à entidade de indústrias. “Tem seis meses que estamos gestando esse texto. Não há contraposição”, declarou.

‘Cidadania’

Na abertura da sessão de julgamento da tese do “marco temporal” de terras indígenas (mais informações na pág. A11), Fux falou sobre liberdade de expressão. “Num ambiente democrático, manifestações públicas são pacíficas; por sua vez, a liberdade de expressão não comporta violências e ameaças. O exercício de nossa cidadania pressupõe respeito à integridade das instituições democráticas e de seus membros”, disse o presidente do Supremo.

No 7 de Setembro estão previstas também manifestações contra o governo Bolsonaro. Fux afirmou que o Supremo “confia que os cidadãos agirão em suas manifestações com senso de responsabilidade cívica e respeito institucional, independentemente da posição político-ideológica”. “Somos testemunhas oculares de que o caminho para a estabilidade da democracia brasileira não foi fácil nem imediato. Por essa razão, é voz corrente nas ruas que, na quadra atual, o povo brasileiro jamais aceitaria retrocessos”, disse o ministro. “Seja nos momentos de tormenta, seja nos momentos de calmaria, o bem do País se garante com o estrito cumprimento da Constituição.”

Mais tarde, em resposta, Bolsonaro afirmou que o País “está em paz” e que “ninguém precisa temer o dia 7 de setembro”. “Pretendo ocupar um carro de som na avenida Paulista (em São Paulo) que deverá ter dois milhões de pessoas. Pelo que tudo indica, será um recorde. O que essas pessoas estão fazendo lá? O que elas estão pedindo? O que elas estão clamando, a não ser aquilo que o ministro Fux disse hoje (quinta-feira) em sua sessão: não pode haver democracia se não tiver respeito à Constituição”, declarou o presidente durante solenidade no Palácio do Planalto.

‘Feijão’

Dez dias após pedirem uma reunião com Bolsonaro pela pacificação do País e pelo fim do clima de instabilidade política – sem que tenham recebido resposta –, governadores se reuniram nesta quinta-feira com Pacheco. Seis chefes de Executivos estaduais fizeram o mesmo apelo ao presidente do Congresso.

“Há um sentimento geral de que, a despeito de divergências, nós temos problemas para ontem. Nosso inimigo não está entre nós. Nosso inimigo é o preço do feijão, é o preço da gasolina, da luz elétrica. É o preço dos alimentos de forma geral, que tem sacrificado a população”, afirmou Pacheco. “Não há melhor ambiente do que a democracia. Portanto, esta manifestação dos governadores sem fulanizar, sem agredir, mas preservando esse conceito importante da Nação, que é a preservação do estado democrático de direito, é muito bem recebida pelo Congresso.”

Apoio de PMs a pautas antidemocráticas aumenta

A uma semana dos atos, um estudo do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) mostra que a adesão de policiais a ambientes bolsonaristas radicais nas redes sociais disparou em relação a 2020, quando o primeiro levantamento desse tipo foi feito.

Segundo dados de agosto, essa adesão é puxada pelas polícias militares: 51% dos praças (agentes de baixa patente, incluindo soldados, cabos, sargentos e subtenentes) são bolsonaristas —um aumento de dez pontos percentuais em relação aos 41% em 2020. Desses praças, 30% interagem hoje com conteúdos radicais, como pautas antidemocráticas e de ataque a instituições, contra 25% no ano passado.

Já entre os oficiais (membros da alta patente, incluindo aspirantes a oficiais, tenentes, capitães, majores, tenentes-coronéis e coronéis), a adesão ao bolsonarismo chega a 44% da tropa —23% deles interagem com conteúdos radicais ante 17% no ano passado. Em 2020, o alinhamento com o bolsonarismo não passava de 34%. O aumento expressivo é encarado pelo FBSP com ainda mais preocupação.

A adesão ao grupo político do presidente é bem menor nas outras corporações: chega a 17% na Polícia Federal e a apenas 13% nas polícias civis.

“A pesquisa mostra que existem riscos reais [de ruptura democrática]. Esses riscos cresceram do ano passado para esse ano. Existe uma confusão entre a liberdade de expressão dos policiais e das contenções necessárias na democracia”, afirma Renato Sérgio de Lima, presidente do FBSP.

O sociólogo pontua que, mesmo que esses riscos não gerem uma ruptura em 7 de setembro, vê-se um processo muito intenso de degradação institucional nas polícias. "O problema não é uma ruptura abrupta, mas o esgarçamento dos controles civis. Não é algo que começou com Bolsonaro e nem vai acabar em 2022."

Na pesquisa de 2020, o FBSP mostrou que, além do apoio ao grupo político do presidente, esses policiais também reproduziam discursos de ódio, o que também foi verificado no novo levantamento. Há adesão significativa a pautas racistas e contra os direitos LGBTQI+, além de rejeição à defesa dos direitos humanos.

Os dados são fruto de um cruzamento feito pelo FBSP entre as listagens de policiais da ativa contidas nos Portais de Transparência dos governos estaduais e um levantamento para identificar os perfis desses agentes no Facebook e no Instagram.

A partir disso, foi feita uma amostra com fundamentos estatísticos para representar proporcionalmente o efetivo policial no país. Foram selecionados 651 perfis, cujas ações foram monitoradas de maneira anônima. O estudo utilizou apenas informações públicas disponibilizadas pelas redes sociais a pesquisadores.

A pesquisa tem índice de confiança de 95% e margem de erro de 3%.

Aumenta a pressão

A pressão sobre os comandos e governadores por conta da politização dos quartéis aumentou com a aproximação do 7 de Setembr. Como o UOL revelou na última semana, apoiadores do presidente vêm tentando mobilizar policiais da ativa para engrossar os protestos e demonstrar um suposto apoio da categoria ao governo —a presença de PMs da ativa em manifestações políticas é ilegal.

A tensão se intensificou após o coronel Aleksander Lacerda, da PM de São Paulo, convocar colegas para o ato na avenida Paulista por meio de suas redes sociais. No dia seguinte, o governador João Doria (PSDB) determinou seu afastamento do comando de um batalhão no interior do estado, enquanto a Polícia Militar abriu um procedimento contra o oficial.

A defesa de Lacerda foi usada por apoiadores do presidente como uma forma de tentar inflamar a base bolsonarista a comparecer à manifestação.

Segundo Lima, o bolsonarismo tenta mobilizar suas bases —sobretudo nas polícias— em 7 de setembro não para dar um golpe de Estado, mas para gerar imagens que justifiquem um discurso de que a radicalização realizada pelo presidente nos últimos meses tem amparo popular.

"Vai ter gente provocando para causar comoção e ter uma imagem que seja usada para desestabilizar politicamente os governadores. Não é que o PM vai sair na rua para impor um golpe. Mas vai sair para defender o bolsonarismo. E, se tiver provocadores e com gente interessada em ampliar a fissura, pode haver problemas mais sérios", projeta.

"Talvez tenhamos a tradução para o mundo real da adesão dos policiais ao bolsonarismo."

Ele destaca o crescimento expressivo do apoio ao bolsonarismo radical entre os oficiais da PM. Na visão do presidente do FBSP, isso é uma ameaça adicional, já que são esses agentes os responsáveis por zelar pela hierarquia e pela disciplina nas corporações.

"O discurso de que as instituições estão funcionando é baseado na hierarquia e na disciplina, e quem tem que controlar isso são os oficiais. Só que tivemos um crescimento de 35% no engajamento com ambientes radicais", completa.

Flerte com avacalhação

O estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública ajuda a dimensionar o estrago que Bolsonaro promove nas polícias militares. Considerando-se os acenos que o presidente faz às fardas, a adesão de policiais ao bolsonarismo —51% entre os praças e 44% entre os oficiais— é previsível. A notícia de que parte dos policiais bolsonaristas frequentam ambientes digitais de pregação radical, onde são despejadas teses antidemocráticas e ataques a instituições —30% entre os praças, 23% entre os oficiais— é um flerte com a avacalhação.

Contra esse pano de fundo, o timbre bélico de Bolsonaro soa como um convite à insubordinação e à irresponsabilidade. Em apenas cinco dias, Bolsonaro defendeu duas vezes a tese segundo a qual as pessoas precisam se armar. Nesta quarta-feira, discursando numa solenidade festiva da Marinha para atletas militares que ganharam medalhas na Olimpíada de Tóquio, o presidente declarou, do nada: "Com flores não se ganha a guerra. Se você fala de armamento... Se você quer paz, se prepare para a guerra."

Na última sexta-feira, Bolsonaro já havia chamado de "idiota" quem prefere o feijão aos fuzis. "Tem que todo mundo comprar fuzil, pô!"

O IBGE informa que a economia estagnou no segundo trimestre. A falta de chuvas e de planejamento produziram um aumento médio de quase 7% nas contas de luz. A inflação e o câmbio sobem. Há no olho da rua 14 milhões de desempregados. Algo como 19 milhões de brasileiros passam fome. Podendo presidir os problemas, Bolsonaro prefere desgovernar a si mesmo, marchando em direção ao feriado de 7 de Setembro como quem se prepara para a guerra.

Diante da insanidade presidencial, espera-se que os brasileiros, fardados ou a paisano, tenham mais juízo do que o inquilino do Planalto.

Quem são os radicais pró-Bolsonaro na tropa de choque do 7 de Setembro

As engrenagens da poderosa máquina digital de mentiras e exageros utilizada pelo presidente Jair Bolsonaro para mobilizar sua base de apoio estão girando a todo vapor na véspera do 7 de Setembro. Nas redes sociais e aplicativos de troca de mensagens, milhares de memes, vídeos, áudios e textões convocam bolsonaristas a ganhar as ruas e pressionar pelas duas bandeiras que, à revelia do republicanismo e da legalidade, não saem da cabeça do presidente: o voto impresso e o impeachment de ministros do STF, em especial Alexandre de Moraes, responsável por inquéritos de difícil digestão pelo Planalto. No comando das manifestações está uma tropa heterogênea de segmentos mobilizados em torno de Bolsonaro, composto de militares da reserva, policiais, produtores rurais, grupos evangélicos, católicos ultraconservadores e parte do empresariado.

O esforço dos organizadores para lotar as ruas pretende rebater com imagens de multidões a queda de popularidade do governo identificada nas pesquisas — 54% de ruim e péssimo em agosto, de acordo com o Ipespe. Por isso, em vez de espalhar os atos Brasil afora, decidiu-se concentrar esforços na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, e na Avenida Paulista, em São Paulo, ambos com presença anunciada, embora não confirmada, de Bolsonaro. Um levantamento realizado a pedido de VEJA pela Bites, empresa de monitoramento da internet, mostra que 69 500 perfis do Twitter disparam sem parar mensagens dedicadas a tornar realidade a hashtag #dia7vaisergigante, compartilhada quase 700 000 vezes.

As postagens, que começaram em tom de guerra, passaram nos últimos dias por um certo abrandamento, de forma a não afastar simpatizantes menos raivosos e a não arriscar cancelamentos com base em ameaças à paz social. Palavras de ordem como “Fora STF” e “Intervenção Militar Já”, disseminadas até pouco tempo atrás (veja o ideário radical no quadro acima), estão sendo desencorajadas. Alimenta-se, agora, uma suposta defesa da liberdade de expressão contra decisões da “ditadura da toga” que levaram à prisão próceres do livre pensar como o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ) e o presidente do PTB, Roberto Jefferson. “É um discurso oportunista, muito adotado pela extrema direita em todo o mundo, mas que só vale para ela”, diz Pablo Ortellado, coordenador do Monitor de Debate Político no Meio Digital da USP.

O tom de indignação na internet bolsonarista atingiu o pico depois que o Supremo, acatando pedido da Procuradoria-Geral da República, determinou a realização de busca e apreensão na casa dos principais organizadores dos atos, investigados por atuar contra as instituições democráticas. Ao todo, onze pessoas foram identificadas e impedidas de se comunicar, de manter perfis nas redes sociais e de circular em um raio de 1 quilômetro do prédio do STF. O caminhoneiro Marco Antonio Pereira Gomes, o Zé Trovão, segue tranquilamente descumprindo a ordem, participando de lives e enviando vídeos. “Estão tirando meu direito de falar. Não posso cumprir uma ordem ilegal”, justifica o caminhoneiro, que já se prestou a “salvar o país dessa carniça chamada ministros podres do STF”. Trovão promete manter um acampamento em local não divulgado de Brasília e promover paralisações nas principais rodovias do país. Tudo pacificamente.

Abaixo da superfície, o discurso dos bolsonaristas radicais nos grupos de mensagem, sobretudo, segue colérico e provocador. São comuns as postagens de ameaças, inclusive armadas, contra a esquerda — que, por sinal, também se mobiliza para protestar no feriado. O risco de violência generalizada se intensificou depois que Aleksander Lacerda, coronel da Polícia Militar paulista, ignorou a lei e convocou os policiais da corporação a participar das manifestações pró-Bolsonaro no dia 7. Lacerda foi afastado por ordem do governador João Doria, mas o recado estava dado. Outro coronel da PM, Ricardo Mello Araújo, na reserva e ocupando a presidência da Ceagesp, a empresa de abastecimento de alimentos, por nomeação do Planalto, planeja se encontrar com aposentados como ele em frente ao batalhão da Rota, a divisão de elite da Polícia Militar, e de lá partir para engrossar os atos públicos. Araújo avisa: “É impossível garantir que essas pessoas não estarão armadas. Muitas vivem em bairros perigosos e precisam se proteger”.

Manifestação política é vedada por lei a militares da ativa, mas um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que a adesão ao bolsonarismo se alastra pelos quartéis e delegacias. A quantidade de policiais militares que circulam pelas páginas pró-Bolsonaro nas redes sociais subiu 24% no último ano — 30% nos perfis mais radicais. O chamado à violência não agrada aos evangélicos, um eleitorado cada vez mais crucial para o presidente, mas isso não impede que suas lideranças estejam na linha de frente da convocação para os atos do 7 de Setembro. Capitaneados por Silas Malafaia, confidente de Bolsonaro, diversos pastores gravaram vídeos e subiram ao púlpito para pedir engajamento dos fiéis — entre eles Estevam Hernandes, da Renascer, e Claudio Duarte, da Projeto Recomeçar, que conta com um rebanho digital de 5,5 milhões de seguidores. Outra voz a divulgar os atos do Dia da Independência é a dos católicos ultraconservadores, que divergem no sistema de governo — a maioria é monarquista —, mas estão juntos na luta contra o aborto e o casamento gay. “Vivemos a ameaça de um socialismo repaginado que avança por meio da ecologia e dos direitos dos animais”, exagera Frederico Viotti, diretor do IPCO, a antiga TFP de nada saudosa memória.

Uma outra corneta poderosa a trombetear as manifestações é tocada por uma parcela dos produtores rurais que dispõem de vastos recursos e prometem invadir Brasília com caravanas vindas do Centro-Oeste. A Polícia Federal investiga se a Aprosoja, a associação de produtores de soja, está financiando ataques contra o STF — foi na sede da entidade que o cantor Sérgio Reis gravou um vídeo de enorme repercussão com tolices. O presidente da Aprosoja, Antonio Galvan, restringe sua atuação a convicções ideológicas. “Não tenho nenhuma intimidade com Bolsonaro. Apoiaria o Zé das Couves se ele estivesse lutando pelos mesmos ideais”, diz o ruralista. “Todos esses grupos mantêm, sim, relação direta com o presidente. Como não há uma agenda comum, horizontal, ele assume posturas cada vez mais extremadas para mantê-los mobilizados”, explica David Nemer, professor da Universidade da Virgínia que estuda a extrema direita no Brasil. Refém de radicais, o Dia da Independência, decretada há 199 anos, não tem como raiar em clima de festa nacional.

Apear dos pesares, não estamos em 1964

Em uma retórica própria de líderes de seitas fanáticas, Bolsonaro anteviu três caminhos para o seu futuro: a prisão, a morte ou a vitória. Assim, dentro do peculiar imaginário do capitão, fica descartada a hipótese de uma derrota nas urnas em 2022. Como já afirmou mais de uma vez, o presidente acredita que só não será reeleito se houver um roubo nas urnas — daí a sua insistência em desacreditar o tempo inteiro o sistema eletrônico de apuração. O nível de irresponsabilidade é maior ainda quando insinua que poderá ocorrer um levante no caso de um revés no seu plano de recondução ao Palácio do Planalto. Dessa forma, em pleno século XXI, por incrível que pareça, entrou na pauta de assuntos nacionais a hipótese de uma ruptura democrática. Para pôr mais fogo ainda na história, Bolsonaro aposta todas as suas fichas nas manifestações de simpatizantes pró-governo no 7 de Setembro. Acredita que, assim, sua fantasia autoritária terá o devido respaldo popular. “Nunca uma outra oportunidade foi tão importante para os brasileiros”, afirmou. Para desgosto da claque radical, que incentiva o presidente a tentar alguma maluquice, e para alívio daqueles comprometidos com a democracia, felizmente temos hoje um cenário muito distinto daquele que permitiu a instalação de um regime autoritário em 1964.

Aquele Brasil não existe mais, tampouco Bolsonaro conta com uma rede de apoios que sustentou o golpe há quase seis décadas, a começar pelo respaldo internacional. Se hoje é inimaginável uma nação desenvolvida apoiar uma quartelada nos trópicos, nos anos 60, auge da Guerra Fria, os Estados Unidos mostravam-se empenhados em evitar que a revolução socialista de Cuba se repetisse na América Latina. Naquele Brasil, envolto em uma crise política desde a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, o apoio de Washington foi fundamental para a tomada do poder pelos militares. Agora, a ameaça comunista aparece materializada apenas nas teorias delirantes dos bolsonaristas. Além disso, o Brasil não só está longe da lista de prioridades dos americanos, como também o presidente Joe Biden antagoniza com Bolsonaro em questões como direitos humanos e meio ambiente. “Os Estados Unidos se opõem fortemente a qualquer tomada ilegítima e antidemocrática do poder no Brasil”, afirma o brasilianista Peter Hakim, presidente emérito do Diálogo Interamericano, de Washington.

Além de se acertar com as potências de fora, Bolsonaro teria de combinar o golpe com as tropas daqui — e esse apoio incondicional é improvável. Sua recente tentativa de demonstrar poderio bélico virou piada, com a patética exibição de velhos tanques expelindo fumaça preta por Brasília. A despeito da grande participação de militares no atual governo, há alas de oficiais muito descontentes com o presidente e com a insistência dele em tentar usá-­los como uma espécie de milícia particular (expressa na fala “meu Exército”, repetida por Bolsonaro). Na época do golpe de 1964, não havia incômodo entre as Forças Armadas em ter um papel de protagonismo na vida política. Muito pelo contrário. “Naqueles tempos, o poder militar exercia papel central na vida republicana ao se autoproclamar, e sendo visto assim por grupos civis relevantes, como regulador da vida nacional”, observa Marcos Napolitano, professor de história da USP. Superada a ditadura, as Forças Armadas tiveram de se adaptar ao rearranjo institucional e à Constituição de 1988.

No passado e no presente, os militares são sensíveis às vozes da população. Em 1964, eles tinham o apoio de parte expressiva da sociedade para derrubar João Goulart, sobretudo entre as chamadas elites. “Tanto a classe rica quanto a classe média alta eram contra o governo”, lembra o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, ex-ministro dos governos Sarney e FHC. Empresários e grandes fatias da população viam na intervenção uma possibilidade de estabilidade ante à tormenta política da época. Após o discurso de Jango para 150 000 pessoas na Central do Brasil, em março, que marcou a sua guinada à esquerda — anunciou a desapropriação de terras e de refinarias e o tabelamento de aluguéis —, a classe média e a Igreja Católica promoveram a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que contou com 300 000 pessoas em São Paulo, pregando contra a ameaça comunista e o governo em um movimento que se espalharia por outras capitais. O suporte religioso, porém, foi se esvaindo com o endurecimento do regime. “Depois de estabelecida a ditadura e a tortura como práticas do Estado, essas lideranças passaram a adotar uma postura de oposição, na qual arriscavam a própria vida”, conta Angela de Castro Gomes, docente da Unirio e da Universidade Federal Fluminense (UFF).

No cenário atual, a despeito do barulho que promove em torno do 7 de Setembro para mobilizar sua base radical, Bolsonaro conta com a reprovação da maior parte dos brasileiros. Pesquisa Quaest da semana passada mostra que mesmo o eleitorado evangélico, um dos esteios do bolsonarismo, não está mais tão ao lado do presidente: 35% avaliam de forma negativa a sua gestão ante 32% que a consideram positiva — entre os católicos, a desaprovação vai a 50% e a aprovação, a 21%. “No passado, havia um componente de pragmatismo daqueles que viam no regime a chance de estabilidade e uma oportunidade para emplacar mudanças de seu interesse”, explica Sérgio Praça, cientista político da FGV. Esse tipo de pragmatismo atua hoje contra Bolsonaro. Como o capitão é justamente a maior fonte de instabilidade no país neste momento, a permanência dele no poder justificada com o argumento de que isso poderia aplacar turbulências é mais difícil de engolir que a teoria terraplanista.

Para aumentar os obstáculos do capitão, saudoso da época do governo dos militares e que inclui entre seus heróis um notório torturador do regime, aquele país da ditadura também não existe mais. Em 1964, o Brasil somava 80 milhões de habitantes — menos da metade dos 213 milhões de hoje —, quase 40% da população era analfabeta e a maioria residia na zona rural. Hoje ela está concentrada nos centros urbanos, tem mais acesso a bens de consumo e a fontes de informação. Ao mesmo tempo, grandes empresários e os setores da classe média representados por profissionais liberais, advogados, médicos, comerciantes, por exemplo, não estão nada satisfeitos com a estagnação econômica, a volta da inflação e o dólar alto. O historiador Daniel Aarão Reis, da UFF, vê um sólido desapontamento desses segmentos com Bolsonaro e outros políticos: “Os estratos médios e superiores da sociedade em 1964 marcharam inclusive ao lado dos setores populares. As classes médias hoje estão muito mais fraturadas pelo desgosto promovido pelo Bolsonaro”.

No passado, a simpatia pelo golpe contaminou até quem jamais deveria. Alguns veículos de comunicação embarcaram na aventura militar, inclusive manifestando apoio em editoriais como fizeram os jornais O Globo e Folha de S.Paulo. “O que eles não imaginavam é que 1964 seria uma coisa que se viraria contra eles mesmos”, afirma a professora de jornalismo Marialva Carlos Barbosa, da UFRJ, em referência à censura que calou a maioria dos órgãos de mídia. Hoje, a imprensa é tratada como parte da oposição por Bolsonaro e não há um veículo decente que tenha qualquer simpatia pela quebra da institucionalidade. Nascida em 1968, VEJA sempre se colocou contra o autoritarismo e tem na defesa da democracia um de seus pilares editoriais.

Totalmente anacrônica e sem perspectivas de desdobramentos práticos, a movimentação estimulada por Bolsonaro tem ao menos um ponto positivo: o de criar um efeito preventivo, aumentando os alertas de vigília das instituições, observa o historiador Carlos Fico, professor da UFRJ. “O que nós vemos no Judiciário, na imprensa e na maioria da população é uma rejeição ao autoritarismo. O que pode haver é baderna com a leniência de policiais que não controlem a ordem pública por estarem identificados com o bolsonarismo”, avalia. A antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz, da USP, acrescenta outro fator dificultador, relacionado à trajetória do presidente. “Ele sempre atuou na lei do mínimo esforço e, para dar um golpe, teria de fazer realpolitik, articulando com setores que muito provavelmente não concordam com ele”, diz. Dessa forma, os arroubos de Bolsonaro deverão virar fumaça — como a expelida pelos tanques que causaram constrangimento às Forças Armadas. Ainda bem.

Atos de 7 de Setembro viraram uma estratégia suicida de Bolsonaro

Bolsonaro meteu-se numa estratégia suicida. E não sabe como sair da armadilha que criou para si mesmo. O presidente busca nas ruas o poder que perde nos gabinetes e nos salões da Capital. Por maiores que sejam os atos programados para o Dia da Independência, eles não conseguirão apagar as evidências de que a base eleitoral de Bolsonaro não para de encolher.

O presidente informa que discursará em Brasília e São Paulo no 7 de Setembro. Mas a característica fundamental da dificuldade de julgamento de um governante que chama de "idiota" quem prefere o feijão aos fuzis é ter que ouvir o personagem por dois anos e oito meses para chegar à conclusão de que ele não tem nada de útil a dizer.

Na campanha presidencial de 2018, havia três grandes problemas sobre a mesa: ruína fiscal, estagnação econômica e corrupção endêmica. Jair Bolsonaro manda em Brasília desde janeiro de 2019. Para dar certo, precisaria aprovar reformas no Congresso, destravar a economia e higienizar o Estado. Num cenário agravado pela pandemia, forneceu aos brasileiros tuítes, crises, ineficiência e remédios mágicos.

Depois da reforma da Previdência, o governo não aprovou nenhuma outra reforma de peso. Assiste à evolução do desemprego. Convive com malfeitos atribuídos ao primogênito Flávio Bolsonaro. Alega ser vítima de uma orquestração capitaneada pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Tribunal Superior Eleitoral para roubar a eleição de 2022. O presidente vive num mundo 100% feito de mentiras.

Como os problemas não deixam de existir apenas porque Bolsonaro finge não enxergá-los, o Planalto perdeu a relevância. Houve uma pulverização do poder. O presidente foi cedendo pedaços de sua autoridade ao longo do caminho. Em meio a uma confluência de crises —política, institucional, econômica e social—, o poder se espraia entre o Supremo, o centrão, a presidência do Senado, a CPI da Covid, os governadores...

No feriado, o pedaço da sociedade que ainda tem simpatia por Bolsonaro irá às ruas para gritar em seu apoio. Imaginar que isso fortalecerá o presidente é uma fantasia. Na campanha de 2022, se tudo o que Bolsonaro tiver a apresentar contra o buraco fiscal, a sedação econômica e a perversão ética for um conjunto de desculpas, parte do asfalto que ainda o ovaciona pode rosnar para ele.

Não é que o governo está sem rumo. A questão é que o rumo do governo é a crise perpétua. Bolsonaro está em processo de autocombustão. O que obriga o Brasil a se desdobrar para não virar cinzas junto com ele.


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