Semana On

Domingo 19.set.2021

Ano X - Nº 461

Poder

Bolsonaro foge a cavalo do trabalho e ignora desemprego e risco de apagão

Presidente soa como se planejasse proclamar a independência do Bolsonaristão

Postado em 02 de Setembro de 2021 - Redação Semana On

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Desemprego de 14,4 milhões, 19 milhões de famintos, PIB caindo 0,1% no segundo trimestre, grande chance de apagão elétrico até o final do ano, sem contar as mortes por covid, que reduziram, mas seguem em um patamar revoltante. Enquanto isso, o presidente da República passeia a cavalo em Uberlândia, em um ato de campanha eleitoral antecipada, em plena terça-feira.

Jair Bolsonaro não tem interesse em governar, apenas se dedica à sua reeleição. Vem procurando obras, mesmo pequenas ou inacabadas, para inaugurar pelo território nacional. E, através dessa justificativa, monta um palanque. Desta vez, de acordo com o Palácio do Planalto, o presidente viajou para Minas Gerais a fim de participar da "cerimônia de inauguração do complexo de captação e tratamento de água". Daqui a pouco, inaugura gira-gira e trepa-trepa em pracinha.

Mesmo assim, de forma cínica, ele afirmou em discurso que "no momento, não sou candidato a nada, deixo bem claro". Seria mais delicado chamar o eleitor de otário.

Jair Messias também estimulou o messianismo, uma de suas marcas registradas, ao afirmar que, na sua avaliação, ele está cumprindo "uma missão de Deus". Não tenho procuração do divino, mas nada indica que terceirizar para Jeová vá ajudar. Nem para São Pedro.

Por exemplo, o Brasil caminha a passos largos para conviver com cortes de energia elétrica até o final do ano devido à seca e o ministro de Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, trouxe xurumelas em cadeia de rádio e TV, na noite desta terça (31), medidas que deveriam ter sido tomadas meses atrás e que, agora, não vão resolver nada. A opção do governo Bolsonaro por empurrar com a barriga a adoção de ações mais duras, apostando em um dilúvio mandado por Deus, mostra que realmente só nos resta rezar.

E galopante como o presidente também é a inflação da cesta básica, de 22% nos últimos 12 meses, segundo o Dieese. Mesmo assim, Bolsonaro afirmou que a prioridade não é comprar feijão, mas fuzil, no dia 27: "Tem que todo mundo comprar fuzil. Povo armado jamais será escravizado. Sei que custa caro. Tem idiota, 'ah, tem que comprar feijão'".

Em outro evento de campanha eleitoral antecipada, no último dia 28, ele mesmo desmentiu a ideia de que não é candidato, ao afirmar que vê três alternativas para o seu futuro: "estar preso, estar morto ou a vitória". E desandou a falar da primeira opção, dizendo que não há a possibilidade de ele ir preso, mostrando o que, na verdade, o preocupa de fato.

Bolsonaro morre de medo de ir ao xilindró por qualquer um dos crimes que cometeu antes do mandato e durante ele - das rachadinhas às tentativas de genocídio.

Analisando a agenda da Presidência, é possível constatar que a campanha eleitoral antecipada se intensificou nos últimos dias como tentativa de bombar as manifestações programadas para o 7 de setembro em São Paulo e em Brasília. Anunciadas no dia 3 de agosto como o seu "último recado" ao Supremo Tribunal Federal, ele agora tenta dar uma coloração de defesa da liberdade para esconder a natureza golpista dos atos. Sim, quem for a esses atos apoia o golpismo também.

Em uma entrevista, no último dia 30, ele afirmou que "essa manifestação agora, a grande pauta vai ser a liberdade de expressão. Não pode uma pessoa do STF e uma do TSE se arvorarem agora como as donas do mundo e que tudo decidem no tocante a esse ponto, liberdade de expressão".

Com isso, reforça uma mentira: de que a Constituição garante que a liberdade de expressão seja um direito absoluto e que, portanto, ele pode usar a sua liberdade contra as liberdades de outras pessoas. Em outras palavras, exige que o Brasil seja tolerante com a sua intolerância. Pois, ironicamente, é ele que se arvora como "dono do mundo" ao demandar que seja livre para ferir a democracia de morte ao mentir sobre fraudes eleitorais e que seus aliados sejam livres para ameaçar ministros do STF até de espancamento.

Neste momento, Bolsonaro está mais preocupado em garantir boas fotos e imagens de multidões no 7 de setembro para poder afirmar ao Brasil que o povo está ao seu lado - lembrando que ele considera como "povo" apenas o naco da população que concorda com tudo o que ele fala. O que, segundo o Datafolha, representa 15% da população. Isso dá uns 32 milhões de pessoas. O que não é pouco.

Mas vale sempre lembrar que há outros 181 milhões que prefeririam que Bolsonaro sentasse no Palácio do Planalto e trabalhasse pelo bem coletivo ao invés de atuar apenas no sentido de vencer a eleição e, se não for possível, dar um golpe de Estado. Por sua ideologia? Não, para permanecer fora da cadeia.

Essa maioria silenciosa gostaria que, caso ele não saiba como ajudar, o que parece ser o caso, pelo menos não atrapalhasse na busca por saídas para o desemprego, a fome, o crescimento econômico, as crises hídrica e elétrica, as mortes por covid-19.

Independência do Bolsonaristão

O governo ganhou a aparência de um bunker. Nele, abrigam-se Bolsonaro, seus filhos, o centrão e generais de pijama que se dispõem a fazer qualquer coisa para proteger o capitão. No bunker também fica uma fábula que Bolsonaro chama de "meu Exército."

Não há espaço no bunker para vozes dissonantes. Ali, o governo opera com uma verdade própria, desligando-se da realidade. O problema é que a realidade não deixa de existir porque o bunker presidencial a ignora.

Cada pronunciamento de um presidente que se equipa para o feriado de 7 de Setembro como se marchasse para uma zona de guerra ganha a aparência de um tiro de fuzil que atinge o interesse nacional.

Bolsonaro comporta-se como se estivesse em conflito permanente com o país que ele deveria presidir. É como se planejasse proclamar na próxima terça-feira que o Bolsonaristão tornou-se um país independente do Brasil.

No curtíssimo intervalo de cinco dias, Bolsonaro defendeu duas vezes a tese segundo a qual as pessoas precisam se armar. Nesta quarta-feira, o avião presidencial foi retirado do hangar para transportar o presidente até o Rio de Janeiro.

O capitão foi participar de evento organizado pela Marinha para homenagear atletas militares que conquistaram medalhas nas Olimpíadas de Tóquio. Discursou. A ocasião era festiva. Mas Bolsonaro injetou no seu pronunciamento um raciocínio de caserna.

"Com flores não se ganha a guerra", declarou. "Se você fala de armamento... Se você quer paz, se prepare para a guerra."

No último dia 30, Bolsonaro havia chamado de "idiota" quem prefere o feijão aos fuzis. "Tem que todo mundo comprar fuzil, pô", afirmou aos devotos que o aguardavam no cercadinho do Alvorada. "Povo armado jamais será escravizado. Tem idiota que diz: 'Ah, tem que comprar feijão.' Cara, se não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer comprar."

O timbre bélico do presidente soa nos dias que antecedem os protestos que ele mesmo convocou para o feriado do Dia da Independência. Bolsonaro parece preparar o Bolsonaristão para o pior.

O presidente demora a perceber. Mas seus ataques frontais à inteligência brasileira têm o efeito de disparos contra o próprio pé. No limite, Bolsonaro está em guerra contra os seus interesses políticos.

O IBGE informa que a economia estagnou no segundo trimestre. A falta de chuvas e de planejamento produziram um aumento médio de quase 7% nas contas de luz. A inflação e o câmbio sobem. Há no olho da rua 14 milhões de desempregados. Algo como 19 milhões de brasileiros passam fome. Até a Fiesp, com sua indignação de gaveta, já notou que o Bolsonaristão não é um bom lugar para se viver.

Bolsonaro ergue barricadas contra o que chama de "orquestração" contra o seu mandato. De fato, cresce o número de pessoas que levam a boca ao trombone. Mas a verdadeira orquestra funciona no bunker do Planalto e nos seus arredores.

O procurador-geral da República levando na flauta, o centrão montado na gaita, Paulo Guedes desafinando na caixa... Bolsonaro está na regência. E os fundamentalistas do Bolsonaristão dançam conforme a música. Um chorinho bem brasileiro. Ou bolsonarão.


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