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Sexta-Feira 20.mai.2022

Ano X - Nº 487

Coluna

Saudades do toque

Entre braços, abraços e a falta que nos faz este gesto que nos acolhe

Postado em 02 de Setembro de 2021 - Theresa Hilcar

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Nesses tempos sem abraços, manifestações de afeto e carinho efusivos, lembrei-me de um abraço bastante peculiar, que recebi lá pelos anos de 1990. O gesto de afeto tinha vindo da Índia, mais especificamente de Mātā Amṛtānandamayī Devī, mundialmente conhecida como Amma – a guru do abraço. 

Estava em Brasília, numa incursão espiritual, quando soube que um dos discípulos da guru fora autorizado por ela a transmitir o abraço. E lá fui eu pronta para mais uma experiência. A bem da verdade, a energia do abraço, mesmo terceirizado – digamos assim – foi incrível. Tive uma sensação de acolhimento total e amor incondicional. 

Em 2015 uma de suas discípulas conseguiu contabilizar que, aos 65 anos, Amma havia abraçado mais de 34 milhões de pessoas.  Ela já chegou a abraçar por mais de 22 horas seguidas. Na índia ou por onde ela passa, se formam filas com milhares de pessoas esperando pacientemente sua vez de abraçá-la. E o gesto tem a mesma duração e afeto com todos.

Amma também criou uma fundação em prol das pessoas necessitadas de todo mundo e foi considerada pela ONU, a Organização das Nações Unidas, como “a única organização não-governamental capaz de promover um esforço humanitário completo em larga escala”.

Há vários documentários e filmes sobre a guru (que quer dizer professor) indiana. Um deles, francês, do cineasta Claude Lelouch e estrelado por Jean Dujardim, mostra o local onde ela recebe as milhares de pessoas que vão visitá-la. O filme é lindo. O título “Un plus une” foi traduzido em português por Ele & Ela.

São vários os ensinamentos desta mulher fantástica, que descobriu no abraço a forma distribuir amor para o mundo. Amma sempre reforça que temos a nossa sabedoria interior, e devemos nos aprofundar no autoconhecimento para atuarmos de forma diferenciada. Diz também que que uma flor não precisa de instruções para florescer. Basta deixar fluir.

Há mais de um ano sem abraçar ninguém (exceto os netos) ando sentindo muita falta deste gesto tão precioso.  E vamos combinar, tem coisa melhor que um abraço apertado, sincero, fluido e cheio de energia?

A bem da verdade, já estou começando a sentir certo mal-estar quando a pessoa vem até a mim para cumprimentar e eu só consigo mover o cotovelo em sua direção.

Sou abraçadeira por natureza e vocação. E gosto de abraços largos, inteiros, afetivos. Foi uma das coisas que aprendi na minha busca espiritual. Mas não são apenas os amigos que tenho vontade de abraçar. Nos últimos dias, ao ligar a TV nos noticiários, tenho muita vontade de abraçar aquelas crianças em Cabul. Assistir, impotente, inocente atingidos por um sistema que insiste em misturar religião, ódio e poder, é desalentador. E cruel.

E hoje, quando escrevo este texto, é o aniversário desta cidade que me acolheu tão bem há mais de 40 anos, gostaria de ter longos braços para alcançá-la. Ou ter a energia de Amma para abraçar, mesmo de longe, cada pessoa que, de alguma forma passou por mim, me ensinou alguma coisa.

Dizem que após 30 anos fora da cidade em que nascemos, não temos mais um lugar para chamar de seu. Não é verdade. Sinto-me tão campo-grandense como qualquer um que tenha nascido aqui.  Eu literalmente pertenço a esta cidade e ela me pertence. Assim como as árvores da praça do Rádio Clube que costumo abraçar, todos os domingos. É através delas que abraço esta terra e todos que, como eu, fomos adotados por ela.


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