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Domingo 23.jan.2022

Ano X - Nº 475

Coluna

Festas de Agosto

Das delicadezas das gentes que vivem

Postado em 27 de Agosto de 2021 - Ricardo Moebus

Marcelo Camargo/Agência Brasil Marcelo Camargo/Agência Brasil

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Ninguém sabe ao certo como ou quando isto recomeçou.

Mas no mês de agosto, na lua cheia, se encontravam naquele descampado, bem no alto, de onde se viam as montanhas, certamente um lugar consagrado, para celebrar e admirar.

No entardecer começavam a cantar e tocar, compartilhavam comidas e bebidas, e traziam coroas de flores de macela do campo, entretecidas em suas próprias ramas, e coroavam as crianças que seriam os mensageiros das águas.

Os velhos sonhavam com a avó água, Uaimií, que lhes dizia quem seria coroado a cada ano, qualquer um com mais de trinta e três fios de cabelos brancos, na cabeça ou em qualquer parte do corpo, tinha a direito de sonhar as crianças mensageiras.

Estas crianças iriam caminhar suas vidas sempre na consciência da onipresença das águas em todas as formas de vida, na defesa das águas, seriam a voz que fala pelas águas, aos homens surdos de ouvi-las diretamente em seus murmurares.

Mais tarde, na hora do pôr do sol, paravam para assistir aquele espetáculo solar, acendiam seus cachimbos e seus pitos, admiravam.

Depois do pôr do sol acendiam uma pequena fogueira e, enquanto cantavam e dançavam, perguntavam ao fogo, o mais velho de todos os elementos, ele que estava presente no instante primeiro da criação, perguntavam ao fogo de tudo o que queriam saber, perguntavam o que deveriam plantar e cultivar nos próximos meses de chuva, que estavam por chegar.

O fogo respondia muitas coisas crepitantes, mas sempre estavam na resposta a festa, a amizade, a música, a dança, a celebração da vida, deveriam sempre plantar e cultivar, com fervor.


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