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Sexta-Feira 03.dez.2021

Ano X - Nº 470

Poder

YouTube suspende pagamentos a canais bolsonaristas após decisão do TSE sobre fake News

Um ‘apagão’ de vídeos nas redes bolsonaristas no cerco aos ataques à democracia

Postado em 27 de Agosto de 2021 - G1, Marina Rossi (El País) – Edição Semana On

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O YouTube informou na última quinta-feira (26) que suspendeu pagamentos a produtores de conteúdo de 14 canais, após decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre disseminação de notícias falsas.

"Em cumprimento à decisão do Tribunal Superior Eleitoral de 16 de agosto, o YouTube informa que já suspendeu o acesso à receita atribuída aos responsáveis pelos 14 canais indicados pelo TSE", afirmou a plataforma em nota.

"Reforçamos nosso compromisso de permanecer colaborando com o trabalho das autoridades no Brasil e de prosseguir investindo em políticas, recursos e produtos para proteger a comunidade do YouTube de conteúdo nocivo", adicionou a empresa.

Segundo a agência de notícias Reuters, o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Luis Felipe Salomão, determinou que YouTube, Twitch, Twitter, Instagram e Facebook suspendessem o repasse de valores obtidos por meio da exibição de propagandas para pessoas e páginas que estariam propagando notícias falsas sobre o sistema eleitoral brasileiro.

No YouTube, anunciantes compram espaços publicitários que aparecem antes ou durante os vídeos pela plataforma Google Ads. A empresa, então, repassa parte do valor aos canais de acordo com as visualizações dos conteúdos.

Há ainda opções para que usuários assinem conteúdos exclusivos ou deem "gorjetas" em lives.

De acordo com a decisão, os valores que seriam pagos pelas redes sociais a esses canais, páginas e sites ficarão indisponíveis, depositados em uma conta judicial até o fim das investigações. Enquanto isso, os canais vão continuar no ar.

O ministro pediu ainda um relatório detalhado os ganhos financeiros de cada um dos canais.

Entre os canais e páginas compreendidas pela decisão estão algumas das principais redes de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), como o canal Terça Livre, o Jornal da Cidade Online e o canal de Oswaldo Eustáquio, apoiador que chegou a ser preso na investigação sobre atos antidemocráticos (veja a lista abaixo).

A apuração da PF acontece dentro do inquérito aberto pelo Tribunal Superior Eleitoral para apurar os ataques feitos por Jair Bolsonaro às eleições brasileiras. Sem apresentar nenhuma prova, o presidente tem levantado suspeitas de fraudes, tanto nas eleições passadas quanto na votação prevista para 2022.

Bolsonaro criticou em lives e entrevistas a decisão do ministro do TSE, afirmando que a determinação foi parcial por retirar o repasse de dinheiro de páginas de direita que, segundo o presidente, não acreditam que o voto eletrônico seja plenamente confiável.

Veja a lista dos canais que tiveram os repasses suspensos pelo YouTube:

- Alberto Silva 1 e Alberto Silva 2 (Alberto Junio da Silva)

- Canal Universo 1 e Canal Universo 2 (Roberto Boni)

- Direto aos fatos (Camila Abdo Leite do Amaral Calvo)

- Emerson Teixeira

- Folha Política

- Jornal da Cidade On Line

- Oswaldo Eustáquio

- Ravox (Adilson Nelson Dini)

- Te atualizei (Bárbara Zambaldi Destefani)

- Terça Livre

- Vlog do Lisboa1 e Vlog do Lisboa 2 (Fernando Lisboa da Conceição)

Apagão

Quase 2 mil vídeos sumiram do Youtube ns últimas duas semanas. O conteúdo estava espalhado por 267 dos principais e maiores canais de extrema direita do Brasil e foi apagado, tornado privado pelos usuários ou até mesmo removido pela própria rede social. Durante três dias seguidos, foram mais de 400 vídeos retirados do ar, diariamente. Guilherme Felitti, fundador da empresa de análise digital que fez o levantamento, a Novelo Data, diz que o fato chamou atenção pelo ineditismo. “Essa sucessão de dias com altas centenas de vídeos sumidos é inédita”, diz. “O que já vimos antes são dias com limpezas grandes seguidos por momentos de calmaria, algo bem pontual. A limpeza que estamos vendo, desde a ação do TSE [Tribunal Superior Eleitoral], é continuada.”

A corrida acelerada pelo apagão de vídeos que atacam a democracia, espalham fake news e ameaçam autoridades reiteradamente começou na terça, 17. A pedido da Polícia Federal, o TSE proibiu as redes sociais de repassarem dinheiro às páginas bolsonaristas investigadas por difundir notícias falsas. O pedido foi feito junto com o envio de um relatório em que a PF aponta o modus operandi da rede de apoio bolsonarista na internet. E faz uma ligação direta entre a estratégia utilizada por Steve Bannon, estrategista de Donald Trump na campanha de 2016, e os canais ligados ao presidente brasileiro. Atacar veículos tradicionais da imprensa, desqualificar posições contrárias, atingindo o público de forma direta e sem intermediários, dissipando a distinção entre o que é informação e o que é opinião. Todo esse método está na cartilha de Trump, seguida à risca pelos bolsonaristas, de acordo com o documento da PF ao qual o EL PAÍS teve acesso.

O relatório da PF soma-se à aprovação pela CPI da Pandemia da quebra de sigilos de blogueiros bolsonaristas como Allan do Santos e Leandro Ruschel, e de canais de apoio do presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais. Sobre Santos ainda pesou a denúncia, também na semana passada, do Ministério Público Federal (MPF) por ameaçar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do TSE, Luís Roberto Barroso.

A sucessão de reações da Justiça diante dos difusores de fake news aperta o cerco sobre a principal plataforma de apoio de Bolsonaro em um momento em que sua popularidade derrete. Acuado pelas suspeitas de corrupção na negociação de vacinas e da má condução de ações para o enfrentamento da pandemia, o presidente sobe o tom no seu discurso antidemocrático e de ataque às urnas eletrônicas. E arrasta com ele uma enxurrada de conteúdo difundido na internet com falsas informações ou notícias com dados parciais que induzem a conclusões erradas.

Diogo Rais, professor de direito eleitoral e tecnologia do Mackenzie, faz um alerta justamente para esse cabo de guerra entre as ações de Bolsonaro e seus apoiadores, e a reação da Justiça. “Monitoro muitos grupos bolsonaristas e tenho visto o enfurecimento a cada medida tomada pelo judiciário”, diz. “Nesse sentido, [a ação da Justiça] pode ser um tiro no pé no combate ao ódio político e à polarização. A maturidade democrática das instituições está sendo colocada à prova como nunca foi.”

O monitoramento realizado pela Novelo Data mostra, no entanto, que as ações da Justiça geram repercussão no sentido de inibir o conteúdo falso em determinados canais. “A gente já viu essa correria para apagar vídeos quando a Polícia Federal fez, em junho de 2020, a primeira ação das fake news”, conta Guilherme Felitti. “Foi a primeira vez em que esses youtubers perceberam que não poderiam falar o que quisessem”, conta. Na ocasião, a polícia foi às ruas com mandados de busca e apreensão contra 21 pessoas, dentre elas o publicitário Sergio Lima e o empresário Luís Felipe Belmonte, ambos ligados ao Aliança pelo Brasil, partido que Bolsonaro tenta criar. O deputado federal bolsonarista Daniel Silveira (PSL-RJ) também foi alvo das investigações que apuram a realização de atos antidemocráticos.

Mais tarde, a própria prisão de Silveira, em fevereiro deste ano e dentro do inquérito das fake news, desencadeou uma nova corrida pelo apagão de vídeos, revela Felitti. Silveira gravou um vídeo em que dizia imaginar o ministro da Corte Luiz Edson Fachin “levando uma surra”. Diogo Rais pondera, contudo, que, embora as ações estejam ocorrendo, a coibição das fake news não ocorre na mesma velocidade. “A gente não teve nenhuma experiência no mundo que tenha resolvido o desafio das fake news”, diz.

Mas, a decisão do TSE de suspender os repasses oriundos da monetização das publicações dos canais da extrema direita parece vir ao encontro dessa tentativa. Isso porque custa caro produzir notícias falsas. E inibir a sua rentabilidade é uma tentativa de minar esse negócio, embora a raiz do problema ainda esteja na pergunta de ouro: quem, afinal, financia esses canais? “É caro fazer uma indutora de fake news. Precisa ter manutenção, administração, criação. É mais caro do que fazer uma campanha publicitária, por exemplo”, diz Rais.

As próprias plataformas recompensam esse trabalho, dependendo da quantidade de inscritos nos canais e de visualizações no vídeo. “As fake news costumam muitas vezes se transformar em virais, e o viral atrai a monetização da plataforma. É talvez na tentativa de afastar isso que Salomão [Luís Felipe Salomão, corregedor-geral da Justiça Eleitoral] pediu pra depositar em juízo a monetização desses canais. A plataforma não está errada. Não é proibido falar mal da urna.”

O relatório da Polícia Federal chama a atenção para o conteúdo das mensagens e sua monetarização. “Quanto mais polêmica e afrontosa às instituições for a mensagem, maior o impacto no número de visualizações e doações, reverberando na quantidade de canais e no alcance do maior número de pessoas, aumentando a polarização e gerando instabilidade por alimentar a suspeição do processo eleitoral, ao mesmo tempo que promove a antecipação da campanha de 2022 por meio das redes sociais.”

Rais observ que a discussão sobre a urna eletrônica e o voto impresso é, neste momento, o ponto nevrálgico dentro do debate sobre as fake news. E não é à toa. “É difícil explicar por que o voto impresso não é bom”, diz Rais. “Não é uma discussão de terraplanistas.” Por outro lado, ele diz, a campanha do TSE pela urna eletrônica foi muito “infantilizada” no início. “Como se fosse óbvio que ela funciona. Existem motivos razoáveis para quem pede voto impresso.” Ainda que a Câmara dos Deputados tenha rejeitado a PEC do voto impresso, o debate ainda está na pauta bolsonarista.

Para Rais, os embates políticos colocam a legitimidade da justiça eleitoral como alvo de ataques. “Se a gente não acreditar na gestão do processo eleitoral, não há por que respeitar o resultado das urnas. O impacto pode ser muito grande inclusive com a ruptura da democracia.”

Três investigações

Bolsonaro é alvo de três inquéritos relacionados, de alguma forma, à difusão de notícias falsas. Foi incluído este mês no inquérito das fake news (aberto em março de 2019 pelo STF), depois que fez uma live, no dia 29 de julho, pondo em dúvida sem provas a segurança das urnas eletrônicas. “Não tem como se comprovar que as eleições não foram ou foram fraudadas. São indícios. Crime se desvenda com vários indícios”, afirmou o presidente na ocasião, em que apresentou trechos de uma investigação da PF sobre urnas, mas sem as conclusões.

Desde a eleição de 2018 ele já vinha levantando suspeitas sem provas sobre a lisura do processo eleitoral. Mas a live veiculada em suas redes sociais no final de julho acendeu a luz vermelha do judiciário, pois veio na esteira de uma subida no tom das ameaças do presidente à democracia. Ainda no Supremo, o presidente também é alvo de uma investigação que se tornou um desdobramento do inquérito das fake news: a pedido do TSE, ele é investigado por ter vazado documentos sigilosos da Polícia Federal que apuram suposto ataque ao sistema interno do TSE em 2018. Uma outra investigação, essa realizada dentro do TSE, apura os ataques sem provas de Bolsonaro ao sistema de urnas eletrônicas. O cabo de guerra continua nas próximas semanas, após o presidente pedir o impeachment do ministro Alexandre de Moraes e anunciar outro similar contra Luis Roberto Barroso.


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