Semana On

Segunda-Feira 20.set.2021

Ano X - Nº 461

Poder

Augusto Aras produziu milagre da despolarização

Bolsonaro submete André Mendonça a um metódico processo de encolhimento

Postado em 27 de Agosto de 2021 - Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

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O movimento que resultou na recondução de Augusto Aras à função de procurador-geral da República produziu uma momentânea e inusitada despolarização da política brasileira. Juntaram-se numa mesma trincheira no Senado bolsonaristas e petistas, gente do centrão e da oposição, tucanos e troianos.

Por instante, sumiram as diferenças ideológicas. Uniram-se no apoio à manutenção de Aras na chefia do Ministério Público Federal senadores de todas as tendências ideológicas: meia esquerda, um quarto de esquerda, direita responsável, direita Bolsonaro... Desapareceram também os problemas nacionais.

Reconduzir Aras numa hora dessas corresponde a avalizar suas omissões. É como se o Senado considerasse natural a inação diante de anomalias como a insanidade sanitária de Bolsonaro, o uso de documento falso do TCU para reduzir a pilha de 575 mil cadáveres da pandemia, a demora na compra de vacinas, as suspeitas de corrupção, o menosprezo à devastação ambiental, o diabo.

A alturas tantas da sabatina, Aras cometeu uma pazuellada. Ao depor na CPI da Covid, o general Eduardo Pazuello classificou de "coisa de internet" a ordem de Bolsonaro para que revogasse no ano passado o compromisso de compra de 46 milhões de doses da Coronavac.

Aras adotou a mesma fórmula ao tentar explicar sua inércia diante das mentiras de Bolsonaro sobre o processo eleitoral, das ameaças às instituições e dos arroubos antidemocráticos. "Às vezes as bravatas da internet, as bravatas ditas numa live não têm nenhuma propensão ou aptidão para se transformar em realidade. E as vezes também tem", disse Aras. "O desafio do Ministério Público é separar este joio do trigo." O sabatinado não foi contraditado.

Coube ao senador Eduardo Braga, líder do MDB, exercer o papel de relator da recondução de Aras na Comissão de Constituição e Justiça, que sabatinou pela segunda vez o procurador-geral de estimação de Bolsonaro. O senador soou francamente favorável à permanência de Aras.

Ironicamente, Braga é membro da CPI da Covid. Integra o G7, grupo majoritário que imprime à investigação parlamentar um viés antigovernista. Vários senadores da CPI pegaram em lanças por Aras. Entre eles o relator Renan Calheiros, cujo relatório final atribuirá vários crimes ao presidente —comuns e de responsabilidade.

É grande a chance de o pedaço criminal do relatório de Renan micar embaixo da escrivaninha de Aras. Entretanto, certos senadores apreciam mais a natureza suprapartidária do gavetão do procurador-geral do que a coerência.

O indicado de Bolsonaro evitou comprometer-se com o resultado da investigação parlamentar. "É preciso esperar e respeitar as conclusões da CPI do Senado, para que o procurador-geral tome a atitude que deve", declarou Aras. Em verdade, a CPI só existe por que Aras deixou de tomar as atitudes devidas.

Aras parece ter esquecido do pito que levou de Rosa Weber quando seu braço direito, o subprocurador-geral Humberto Jacques de Medeiros, informou à ministra do Supremo que aguardaria até o término da CPI para decidir se Bolsonaro deveria ou não ser investigado por prevaricação no caso Covaxin. Rosa recordou a Aras e sua equipe que não há no figurino do Ministério Público o papel de espectador-geral.

Senadores que frequentam o patíbulo do Judiciário ouviram Aras como quem escuta música. O sabatinado disse ter trabalhado "sem espetáculo midiático". Atacou a falecida Lava Jato, os "vazamentos seletivos" e a "criminalização da política." Foi como se o procurador-geral transformasse a forca num inofensivo instrumento de corda.

O nome de Aras foi aprovado na Comissão de Justiça por 21 voto a 6. No plenário do Senado, o procurador-geral prevaleceu por 55 votos a 10. Em 2019, obtivera um placar mais elástico: 68 a 10. Mas a folga ainda foi expressiva. Ficou entendido que o Senado continua sendo uma Casa majoritariamente feita de investigados, denunciados e cúmplices.

Bolsonaro submete André Mendonça a um metódico processo de encolhimento

Já se sabia que o pastor André Mendonça prometera a Bolsonaro começar com uma oração toda primeira sessão da semana no Supremo Tribunal Federal. O presidente informa agora que o indicado à vaga do ministro Marco Aurélio Mello assumiu um segundo compromisso com ele. Vai "almoçar uma vez por semana comigo", contou Bolsonaro aos seus devotos, no cercadinho do Alvorada.

Depois de emplacar Nunes Marques, escolhido para a poltrona de Celso de Mello menos pelo currículo do que pelas doses de "tubaína" que dividiu com o capitão no Alvorada, Bolsonaro deseja dispor de uma toga do tipo "prato feito". Alguém que mastigue na mesa do palácio residencial as decisões que tomará nos julgamentos da Suprema Corte.

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado demora a sabatinar Mendonça. Julgando-se maltratado pelo Planalto, Davi Alcolumbre, presidente da comissão, usa os insultos de Bolsonaro a ministros do Supremo como pretexto para manter o preferido do presidente no freezer. Se não for aprovado rapidamente pelo Senado, Mendonça será uma pequena criatura depois do descongelamento.

Até outro dia, Mendonça era apenas um sujeito "terrivelmente evangélico" que Bolsonaro usava para fazer média com um pedaço do seu eleitorado. Com o acréscimo do almoço semanal no rol de serviços que terá de prestar, ficou claro que o quase-ex-futuro-magistrado amarga um metódico processo de encolhimento. Tornou-se um personagem terrivelmente vassalo.

No sistema feudal, vassalo é o indivíduo que, mediante juramento de fidelidade a um suserano, passa a lhe render tributos. A conta pode ser alta, pois Bolsonaro, o senhor do feudo, é estrela de inquéritos no Supremo, tem um filho denunciado por peculato e lavagem de dinheiro, tem outro filho investigado por liderar a milícia digital do gabinete do ódio e está cercado de aliados sub judice. Nesse ambiente, Mendonça logo estará dormindo numa caixa de fósforos.


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