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Sexta-Feira 17.set.2021

Ano X - Nº 460

Poder

Ex de Bolsonaro e Jair Renan se mudam para mansão de R$ 3,2 milhões

Ana Cristina paga 8.000 reais de aluguel, mas o seu salário bruto como assessora parlamentar é de 8.100 reais

Postado em 27 de Agosto de 2021 - Redação Semana On

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A advogada Ana Cristina Valle, ex-esposa do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), se mudou para Brasília recentemente para ajudar o filho Jair Renan a tocar os seus negócios. Para viabilizar sua estada na capital federal, ela arranjou um emprego no gabinete da deputada federal Celina Leão (Progressistas-DF).

Há um mês, ela e Renan trocaram o apartamento que Bolsonaro residia antes de ser eleito presidente, que era pequeno demais, por uma casa bem ampla, de dois andares, com piscina e área de lazer, no Lago Sul, o bairro onde mora a classe mais abastada da capital. “Demorou para vocês descobrirem e aparecerem. Já tem um mês que mudei”, disse à Veja a ex-mulher do presidente, na segunda-feira 16, na porta da casa.

Ana Cristina paga 8 mil reais de aluguel, mas o seu salário bruto, é de 8.100 reais. A diferença, explica, é complementada com renda de outros imóveis que ela possui no Rio de Janeiro. “A casa está detonada. Fiz o trato com o locador de fazer pequenas melhorias, por isso o aluguel foi baixo”, explica.

Corretores consultados por Veja informam que o aluguel de um imóvel similar na região custa em torno de 14.000 reais.

Trecho da descrição do imóvel no anúncio da imobiliária diz: “Quatro suítes, com fino acabamento e todas com closet. Escada em mármore. Suíte master ampla com cerca de 100 m², abre para grande terraço com potencial para jardim, espaço fitness, solarium e outros. Closet amplo na suíte master, com excelentes armários planejados. Banheiro da suíte master com acabamento também elegante e de tamanho avantajado proporcionando conforto e espaço luxuoso. Duas suítes amplas localizadas na parte anterior da casa com amplas varandas que possibilitam vista parcial do Lago”.

A casa foi alugada de um homem que comprou o imóvel por R$ 2,9 milhões (cerca de R$ 300 mil abaixo do valor avaliado da residência), em 31 de maio, dias antes da mudança de Jair Renan e Ana Cristina. O corretor Geraldo Antônio Machado, dono da casa, vive em uma outra, uma edificação modesta a 30 quilômetros do local, num condomínio em Vicente Pires, região administrativa de classe média no Distrito Federal.

Ele pagou 580.000 reais de entrada e financiou o restante, 2,3 milhões de reais. A prestação é de 15 000 reais, quase o dobro do aluguel.

“Eu ia mudar para lá [casa do Lago Sul], mas infelizmente a pessoa declinou do meu negócio aqui [casa onde vive]. Eu tive que, infelizmente, alugar. É um sonho morar no Lago [Sul] né. É bem localizado”, justificou Machado, ao explicar o motivo de alugar a casa.

Por duas vezes, ele disse à coluna de Juliana Dal Piva, no UOL, que é o proprietário de fato da casa no Lago Sul. A mansão é o único imóvel registrado em nome dele no Distrito Federal. Machado afirmou que possui outros bens, mas sem escritura.

Rachadinha

Ana Cristina trabalhou, em 2007, logo após a separação de Bolsonaro, no gabinete do senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. É acusada de ter operado o esquema de “rachadinha”. Ela nega.

Cristina recebeu recentemente a visita do irmão, André Valle. Ela afirma que foi coincidência, mas a visita ocorreu logo depois que uma reportagem do portal UOL revelou o teor de uma gravação em que a irmã da advogada, a fisiculturista Andrea Valle, indica em uma mensagem que Jair Bolsonaro teria envolvimento no esquema da rachadinha.

Andrea afirma em áudio que André foi demitido do cargo de assessor do gabinete parlamentar de Bolsonaro por se recusar a repassar parte de seu salário ao então deputado. “O André deu muito problema porque ele nunca devolveu o dinheiro certo que tinha de ser devolvido, entendeu? Tinha de devolver 6.000 reais, ele devolvia 2.000, 3.000. Foi um tempão assim, até que o Jair pegou e falou: ‘Chega. Pode tirar ele porque ele nunca me devolve o dinheiro certo’”, diz Andrea.

Depois da divulgação do áudio e da repercussão, André, que mora em Volta Redonda, viajou para Brasília e ficou escondido na casa até que o assunto esfriasse.

Família Bolsonaro deve ao país exibição de patrimônio impresso e auditável

Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro, os filhos Zero Um, Zero Dois e Zero Três do presidente da República, já haviam demonstrado aos brasileiros que quem sai aos seus não endireita. A movimentação de Jair Renan, o Zero Quatro, consolida a impressão de que o Brasil é comandado pelo chefe de uma organização familiar.

Em condições normais, a mudança de Jair Renan, 23 anos, e sua mãe Ana Cristina Valle de um modesto apartamento de 70 metros quadrados, registrado em nome de Bolsonaro, para uma confortável mansão alugada no bairro mais chique de Brasília não seria da conta de ninguém. O problema é que a fonte de renda do Zero Quatro é desconhecida. E o valor de mercado do aluguel do imóvel elegante —coisa de R$ 15 mil— não combina com o salário líquido de R$ 6,2 mil que a primeira mulher de Bolsonaro recebe como assessora da Câmara.

Há um outro detalhe que coloca Jair Renan sob holofotes. Com acesso às maçanetas mais importantes da República, o Zero Quatro abriu as portas de ministros para empresas privadas. Essa atividade tem nome. Chama-se tráfico de influência. Para complicar, mãe, filho e o locador da casa elegante tratam o contrato de locação com uma transparência de copo de requeijão.

Em 2018, ano em que Bolsonaro se elegeu presidente, a Folha publicou reportagem sobre o patrimônio da primeira-família. Coisa de R$ 15 milhões em imóveis. Juntando os veículos, sobe para R$ 16,7 milhões. Impossível chegar a essa cifra apenas com o dinheiro que o pai e os filhos com mandato receberam como profissionais da política. E a coisa só piora, pois Flávio Bolsonaro adquiriu mansão brasiliense orçada em R$ 5,9 milhões neste ano de 2021.

Há um provérbio francês que diz que "um pai é um banqueiro concedido pela natureza." Bolsonaro, como pai, terceirizou a tarefa de banqueiro ao Estado. Transformou os filhos numa bancada parlamentar e espetou a conta da prosperidade familiar no déficit público. O presidente cobra transparência da Justiça Eleitoral. Mas a família Bolsonaro sonega ao país a exibição de um patrimônio impresso e auditável.


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