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Terça-Feira 07.dez.2021

Ano X - Nº 470

Poder

Fora da realidade: 'Tem que todo mundo comprar fuzil, pô', diz Bolsonaro

‘Brasileiro não tem dinheiro nem para comprar uma faca’, rebate Randolfe

Postado em 27 de Agosto de 2021 - UOL - Edição Semana On

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Com a inflação superior a dois dígitos em algumas capitais, puxada principalmente pelo preço de alimentos básicos como arroz e feijão, o presidente Jair Bolsonaro aconselhou os apoiadores a comprarem fuzil, mesmo que seja caro.

"Tem que todo mundo comprar fuzil, pô. Povo armado jamais será escravizado. Eu sei que custa caro. Aí tem um idiota: 'Ah, tem que comprar é feijão'. Cara, se você não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer comprar", disse Bolsonaro, em frente ao Palácio da Alvorada nesta sexta-feira, 27.

A resposta foi dada quando um apoiador perguntou se havia novidade para os CACs, que incluem caçadores, atiradores e colecionadores. "O CAC está podendo comprar fuzil. O CAC que é fazendeiro compra fuzil 762", afirmou o presidente.  No governo Bolsonaro uma série de decretos foram editados para facilitar o acesso da população a armas e munições. Em setembro de 2019, por exemplo, o presidente sancionou uma lei que ampliou a posse de arma dentro de propriedade rural.

Pelas regras anteriores do Estatuto do Desarmamento, o dono de uma fazenda só poderia manter uma arma dentro da sede da propriedade. Com a nova norma, ele pode andar armado em toda a extensão do imóvel rural.

“Estão dizendo que quero dar golpe. São idiotas, já sou presidente”, declarou Bolsonaro. Ele, no entanto, vem reiterando que as eleições de 2022 poderiam não ocorrer sem a adoção do voto impresso, proposta do governo derrotada na Câmara. Além dele, o ministro da Defesa, Walter Braga Netto, fez a mesma ameaça ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), por meio de um interlocutor, como revelou o Estadão/Broadcast Político.

Novamente convocando simpatizantes para as manifestações marcadas para 7 de setembro, o presidente disse que fará um discurso mais longo no ato da Avenida Paulista, em São Paulo. Segundo Bolsonaro, os atos vão mostrar para o mundo “que o Brasil está sofrendo”. “O que está em risco é o futuro de vocês e a minha vida física. Tem uma van ali para evitar o sniper. É o tempo todo essa preocupação do que pode acontecer”, afirmou.

Mantendo sua posição de confronto com outros poderes, Bolsonaro afirmou que não pode sofrer interferências de outros entes da federação. “Não quero interferir do lado de lá, nem vou, mas precisam me deixar trabalhar do lado de cá. “Está difícil governar o País dessa forma”, declarou, desferindo novos ataques indiretos, ainda, a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). “Não pode um ou dois caras estragar a democracia no Brasil. Começaram a prender na base do canetaço, bloquear redes sociais. Agora o câncer já foi para o TSE. Temos que colocar um ponto final nisso”.

'Não teve aumento de nada no meu governo', diz o presidente, com inflação acumulada em 9%

Bolsonaro disse, mais uma vez, que não quer inflação alta, mas que não depende de seu governo. O controle da alta de preços, no entanto, é a principal missão do Banco Central, que tem instrumentos para desacelerar a inflação.

“Não teve aumento de nada no meu governo”, declarou o chefe do Executivo a apoiadores nesta manhã, embora os números da inflação mostrem que alimentos, energia elétrica, combustíveis e outros itens tiveram os preços acelerados nos últimos meses.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – inflação oficial do País – registrou alta de 0,96% em julho, chegando a 8,99% no acumulado dos últimos 12 meses, maior percentual desde maio de 2016, quando estava em 9,32%. Em 2021, o IPCA acumula alta de 4,76%.

Apesar de reconhecer o alto custo de vida nacional, Bolsonaro voltou a dizer que “a economia deu uma balançada, mas estamos consertando”.

Reforçando as críticas contra os medidas adotadas pelos governadores no combate à pandemia da covid-19, Bolsonaro disse que “político preocupado com vida do pobre está de sacanagem”. O presidente, no entanto, ponderou que lamenta as mortes pela doença. “Mas acontece, a vida é essa, mas destruir o País por causa disso?”.

Para driblar a crise hídrica no País, o presidente reforçou pedido feito na quinta-feira (26), em transmissão ao vivo pelas redes sociais, para a população reduzir o consumo de energia nas casas. “Vamos apagar luz em casa, ajude a economizar energia”, apelou Bolsonaro. Ainda que o governo federal se recuse a falar em racionamento, o chefe do Executivo reconheceu que “não tem mais água nas hidrelétricas”.

Nem faca

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) rebateu a declaração do presidente Jair Bolsonaro sobre armar a população brasileira com fuzis. Em entrevista à Rádio Bandeirantes, o parlamentar disse que as falas do chefe do Executivo “fogem da realidade”. “As pessoas nem tem dinheiro para comprar faca de mesa”, afirmou.

“Poxa, tudo que poderia fazer por decreto eu fiz. CAC está podendo comprar fuzil. Tem que todo mundo comprar fuzil, pô. Povo armado jamais será escravizado. Eu sei que custa caro. Tem uns idiotas: ‘Ah, tem que comprar feijão’. Cara, se não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer”, declarou o presidente. 

 “Parece que o presidente está vivendo em outro planeta. Ele deve estar governando outro país. Não é questão de ideologia, embora divirjamos que a prioridade seja o armamento. Ele não tem dimensão nenhuma do que o povo está sofrendo. O cidadão quer saber se tem dinheiro para ir ao mercado comprar feijão, já que não vai ter para o quilo da carne. Temos 19 milhões de famintos. Quase 14,5 milhões de desempregados. Quem vivia na pobreza está passando para a extrema pobreza. Voltamos a assistir cenas que o país tinha superado”, rebateu Randolfe. 

“O próprio presidente, o que é contraditório, tinha pedido ontem para as pessoas economizarem energia porque estamos na iminência de um colapso hídrico e energético. No meu estado já passou a ser comum acontecerem blecautes. Isso pode começar a acontecer no Brasil todo. É tanta coisa para se preocupar. Será que a grande preocupação do governo é que as pessoas comprem fuzil? Presidente, as pessoas nem tem dinheiro para comprar faca de mesa. Se dão por felizes se forem ao mercado e conseguirem comprar feijão ‘raladinho’ para o almoço e guardar para o jantar. O presidente deve estar em outro lugar. É uma anomalia”, completou. 

Segundo o deputado, o mesmo acontece com os ministros do governo, como o chefe da pasta da Economia, Paulo Guedes. Nesta semana, Guedes pediu para que as pessoas economizem energia elétrica para evitar uma crise e polemizou: “Qual o problema de a energia ficar um pouco mais cara?”

“Guedes não me surpreende em relação a nada. Ele foi nomeado com uma expectativa enorme do mercado e se tornou o gerente do RP9 do centrão. Lá em Brasília, o Parlamento criou uma espécie de orçamento paralelo. São emendas a parlamentares que apoiam o governo através de créditos que correm por fora. Temos dois orçamentos, o público e o paralelo. O ministro que faria uma revolução liberal, enxugaria a máquina pública, virou gerente do orçamento paralelo. Tanto as dele como as do presidente são declarações que fogem da realidade.”


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