Semana On

Sexta-Feira 03.dez.2021

Ano X - Nº 469

Brasil

Por reeleição de Bolsonaro, governo nos afunda em crises elétrica e hídrica

Guedes comenta a crise energética desde o Mundo da Lua: ‘Qual o problema?’

Postado em 26 de Agosto de 2021 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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Por evitar adotar um racionamento de energia elétrica, o que causaria impacto à campanha de reeleição de Jair Bolsonaro, o Brasil vai correr o risco de ficar sem energia e sem água para consumo humano em algumas regiões. Ou seja, podemos viver um duro racionamento duplo.

A avaliação foi compartilhada à coluna por membros da área técnica do governo federal. Relatam que a gestão Bolsonaro está "completamente perdida" sobre o tema.

Uma mostra disso é o decreto presidencial publicado, no último dia 25, com medidas para reduzir o consumo de energia nos prédios públicos federais em até 20%. "A esta altura do campeonato, economizar o ar condicionado da Esplanada dos Ministérios não vai salvar o país", ironizou um dos técnicos à coluna.

Também nesta quarta, o ministro das Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, informou que serão dados descontos na conta de luz para consumidores que, voluntariamente, economizarem energia.

O que também foi recebido como piada pelos servidores públicos, uma vez que o Brasil está no patamar mais alto de cobrança por quilowatt-hora (kWh) consumido, a bandeira vermelha 2, e já se discute criar mais uma faixa de preço.

Não só: os técnicos afirmam que se o período chuvoso não tiver proporções de um dilúvio bíblico, a energia continuará cara nos próximos anos.

Vale lembrar que a alta no seu preço já é um dos principais vilões da inflação, o que afeta principalmente os mais pobres - que, assim como nossas hidrelétricas, não têm reservas disponíveis.

Como já discutido nesta coluna, a crise elétrica não é consequência de fenômenos naturais periódicos, como a "La Niña", mas de um grave erro na operação do sistema, que negligenciou os efeitos das mudanças climáticas nas vazões dos rios brasileiros.

Com isso, em um ano particularmente seco como 2021, simplesmente não há reserva hídrica suficiente para atravessar com tranquilidade o período de seca sazonal. Se os reservatórios não tivessem sido mantidos tão baixos por tantos anos, não estaríamos passando pela crise atual. Agora, o governo reduz a vazão dos rios para suportar o período seco, mas o momento já demandaria medidas mais drásticas.

As mudanças climáticas associadas ao aquecimento global já estão alterando o regime hídrico no Brasil e criando problemas que não se limitam à geração hidrelétrica, uma vez que a gestão dos reservatórios tem impacto nos usos múltiplos da água - como consumo humano, animal, agricultura.

O governo está apostando em medidas que atingem o bolso dos consumidores, esperando o tal dilúvio e evitando um racionamento. Se der sorte, tudo volta ao normal.

Mas se chuvas fortes não vierem, com térmicas funcionando no talo e reservatórios chegando ao seu volume morto, podemos ter o pior dos mundos: seca e escuridão.

Mundo da lua

Sob Bolsonaro, o governo gasta mais tempo e energia discutindo os problemas do que enfrentando as dificuldades. Muitos não conseguem vislumbrar uma solução. O caso de Paulo Guedes é mais grave. O ministro da Economia ainda não enxergou nem o problema.

"Qual o problema agora que a energia vai ficar um pouco mais cara?", pergunta o ministro. "O problema agora é que está tendo uma exacerbação por que anteciparam as eleições?, ele acrescenta.

A má notícia é que Guedes está no mundo da Lua. A péssima notícia é que não será fácil recolocar os pés do ministro na Terra. Sua alienação atingiu um grau que roça o delírio.

O ministro já chamou servidores de parasitas e implicou com domésticas que conseguiam ir à Disney. Bolsonaro reivindica reajuste salarial para os "parasitas". E a alta do dólar impede as empregadas de continuar visitando Mickey Mouse. Tudo muda, exceto a habilidade de Guedes de tropeçar na própria língua.

Guedes está brigado com o bom senso. Segundo a superstição que vigorava na campanha de 2018, ele seria um moderador de Bolsonaro. Preferiu bolsonarizar-se. Ignora a lei da oferta e da procura. Mas se respeitasse a lei da gravidade perceberia que as encrencas sempre caem na cabeça de quem se coloca embaixo delas.

O ministro exagera quando se abstém de notar que a alta da energia é um drama para as famílias. O drama é maior nas casas onde não há dinheiro nem para comprar um botijão de gás. São agora obrigadas a lidar com uma conta de luz mais salgada e com uma inflação que faz sobrar mês no fim do salário. Isso, naturalmente, para os que ainda dispõem de salário.

Guedes ofende a inteligência alheia quando fala de antecipação das eleições sem apontar o dedo para o chefe. Em abril de 2019, quando o governo acabara de fazer aniversário de 100 dias, Bolsonaro declarou que sofria uma "pressão muito grande" para que se candidatasse à reeleição. Sinalizou gostosamente a intenção de ceder à pressão.

Desde então, Bolsonaro não faz senão campanha eleitoral. Está sempre em pleno calor da batalha, no centro de uma arena sanguinolenta, trocando caneladas com aliados e rivais, metendo o governo em constrangedoras exibições de insegurança e raiva. Esqueceu de governar.

Guedes também esqueceu o seu papel no governo. No último mês de maio, o ministro escalou o palanque de Bolsonaro numa entrevista à Folha: "Agora, vamos para o ataque". Num entusiasmo que destoou da ruína fiscal do governo, o ministro trombeteou projetos como o novo Bolsa Família. Por ora, o governo entrega aumento na conta de luz, não reajuste no benefício social.


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