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Terça-Feira 17.mai.2022

Ano X - Nº 487

Coluna

Nunca precisamos tanto de um ombro amigo

Que a Pandemia tenha compaixão de nós e não nos deixe cair no vazio e no desafeto

Postado em 25 de Agosto de 2021 - Theresa Hilcar

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Que tipo de amigo é você? Segundo o filósofo Aristóteles, para quem a amizade é uma virtude extremamente necessária à vida, não existe apenas um tipo de amizade: há aquela baseada na utilidade ou no interesse, no prazer e na virtude.

O tema tem me chamado a atenção desde o início da Pandemia, quando a maioria de nós foi forçada a diminuir a circulação e o convívio. O vírus, creio eu, além de levar muitas delas, também testou nosso nível de afetividade, digamos assim. Ou, seguindo a ética Aristotélica, testou nossa virtude.

A menos que você tenha mais de 40, ou de 50 anos, vá lá, nosso círculo de afetos ficou bastante restrito. E isto nos fez muita falta. Pela sobrevivência – nossa e dos outros – nos conformamos com a distância, aceitamos a solidão que já dura um ano e meio.

Só agora, quando tudo está aos poucos voltando ao mínimo normal, percebemos o quanto nos fez falta um ombro amigo, um colo, uma palavra. E a outra pergunta que fica é: afinal, voltaremos a conviver com os mesmos amigos de antes, ou a distância abalou o vínculo da amizade?

Sabemos que existem amigos de todos os tipos e horas. Alguns entram na nossa vida para caminhar conosco a jornada de trabalho e acabam seguindo além. Outros chegam através da alegria e da celebração. Alguns se aproximam por meio do conhecimento, da cultura. Tem também quem conecte através da espiritualidade e outros que se revelam nas crises.  Há, por fim, os que vêm para alicerçar projetos, trocar generosidade, cumplicidade.

Não é algo fácil ter – e preservar – um amigo. Muitas vezes ele vai testar nossa resistência, vai mudar de rota, de cidade e até de país. Tenho amizades que já duram 60 anos. E mesmo distante fisicamente, mesmo há anos sem vê-la, sei que ela está sempre comigo. Basta uma simples mensagem, uma chamada e todo o afeto vem junto. É a minha alma conectada. O mesmo acontece com meia dúzia de amigas da adolescência, das quais nunca me separei. Nas raras ocasiões que nos encontramos é sempre como se fosse ontem.

No entanto, embora as amizades antigas tenham a capacidade de nos aceitar como somos, para denominar uma pessoa de amigo, não necessariamente as pessoas precisam se conhecer há muito tempo. Muitas amizades começam repentinamente e ganham importância por diversos motivos e qualidades.

E vamos combinar, nesses tempos estranhos, eles, os amigos, são aqueles que nos jogam as cordas para que possamos, inclusive, sair do fundo do poço. Lugar em que eu, particularmente, vez por outra, costumo entrar. Nessas horas a gente conta nos dedos os que ficam por perto. Alguns estão ocupados demais com a própria vida, outros mudaram de rota, muitos são afetados por dramas pessoais, vários pela política e outra parte desaparece na bruma da indiferença. É parte da vida.

Amigo é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito, diz o verso de uma canção do Milton Nascimento, o mesmo que usei na introdução do meu primeiro livro, que só foi possível graças a dois grandes amigos: o cartunista Ziraldo e o escritor Ignácio de Loyola Brandão. O primeiro desenhou a capa e o segundo fez o prefácio. Conviver e aprender com estes dois seres tão generosos, fez enorme diferença na minha vida.

Mesmo que o vírus tenha levado tantos e bons, o tempo e as ideologias me apartado de outros, gosto de relembrar a frase que a avó adorava repetir: "As coisas mais importantes da vida são a saúde e a amizade". Que a Pandemia tenha compaixão de nós e pare de levar ambos, sob pena de cair no vazio e no desafeto.


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