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Sexta-Feira 22.out.2021

Ano X - Nº 464

Artigo da semana

A desumanização é um dos piores legados do bolsonarismo

Agora, até oferecer pão aos pobres virou coisa de 'comunista'. Como chegamos a esse patamar de desumanização?

Postado em 24 de Agosto de 2021 - Guilherme Boulos

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Dom Helder Câmara, bispo que combateu a ditadura, costumava dizer: “Quando dou pão aos pobres me chamam de santo, quando questionam por que estão na pobreza me chamam de comunista”. Os tempos mudaram, para pior. Hoje dar pão aos pobres também é coisa de comunista.

A deputada Janaína Paschoal, que oscila atualmente entre afagos e críticas ao bolsonarismo, resolveu atacar o trabalho coordenado pelo padre Júlio ­Lancelotti, quando distribuía comida à população de rua na região da Cracolândia. “As pessoas que moram e trabalham naquela região não aguentam mais. O padre e os voluntários ajudariam se convencessem seus assistidos a se tratarem e irem para os abrigos”, disse ela. Ao que parece, a deputada acredita que dependentes químicos não devem comer.

É evidente que a situação da Cracolândia não se resolve apenas com alimentos e o padre Júlio, que conhece de perto as pessoas que estão lá, sabe bem disso. Seria preciso uma atuação integrada de assistência social, acolhimento de quem vive na rua e tratamento de saúde mental, partindo de políticas de redução de danos consagradas internacionalmente. Em vez disso, os governos do PSDB atuam lá como se fosse território inimigo, com operações policiais e frequentes cenas de violência. Além de desumana, é uma linha absolutamente ineficaz para solucionar os problemas do local. João Doria, apoiado por Janaína, prometeu “acabar com a Cracolândia” em poucos dias de governo. Hoje ela está maior e mais espalhada.

Na verdade, o comentário da deputada revela uma ideia mais arraigada, de que dar alimentos às pessoas em situação de rua as deixa “acomodadas”. E essa ideia não é só dela. Quem não se lembra do diálogo de Bia Doria, primeira-dama de São Paulo, com a socialite Val ­Marchiori? “Não é correto você chegar lá na rua e dar marmita, porque a pessoa tem de se conscientizar que ela tem que sair da rua. Por que a rua hoje é um atrativo, a pessoa gosta de ficar na rua”, disparou a esposa do governador em plena pandemia.

Nesse mesmo período, entramos com uma representação no Ministério Público estadual – assinada por mim, padre Júlio e Luiza Erundina – para que a prefeitura da maior cidade do País acolhesse em caráter emergencial a população de rua na rede de pequenos hotéis, ociosos pela pandemia. Os promotores aceitaram a proposta e fizeram uma recomendação ao Poder Público. Nada foi feito. Chega a ser inacreditável que alguém pense que um ser humano deseja morar numa calçada ou debaixo de um viaduto e que uma marmita seja um “atrativo”. Ainda mais quando a rede de acolhimento se limita praticamente a albergues superlotados, com frequentes problemas de higiene e que, além de tudo, separam famílias e impedem que o sem-teto leve sua carroça, que muitas vezes é seu único instrumento de trabalho.

Há aqueles que vão além na desumanidade. Lembro-me até hoje de uma declaração da então secretária de Desenvolvimento Social de Porto Alegre, Comandante Nádia, hoje vereadora na cidade, a respeito de uma praça: “É um lugar público e as pessoas não podem levar seus filhos, seus pets. Não têm condições de caminhar nem em uma calçada, porque uma pessoa se acha no direito de morar na rua”. Reparem bem: as pessoas se acham no direito de morar na rua! E isso atrapalha os “pets” de circularem livremente.

Declarações como essas, vindas de pessoas investidas de autoridade pública, infelizmente não são aberrações isoladas. São sinais fortes da crise de valores que a nossa sociedade atravessa. É o cada um por si levado ao limite da desumanização do outro, da completa falta de empatia, da incapacidade de se colocar no lugar de quem sofre. A indiferença chega ao ponto de orgulhar-se de si própria, julgando e criminalizando quem sofre e também quem age para diminuir o sofrimento. É a criminalização da solidariedade.

Durante a pandemia, o Poder Público fez muito pouco para apoiar os desvalidos, desempregados e sem-teto. Mesmo governantes que questionavam o negacionismo bolsonarista pregavam o “fique em casa”, mas pouco se importavam com quem não tinha casa para se abrigar, nem pão para se alimentar. A tragédia só não foi maior por iniciativas como a do padre Júlio Lancelotti, com sua coragem e abnegação, pelas Cozinhas Solidárias do MTST, espalhadas nas periferias mais distantes, ou pelas doações de alimentos feitas pelo MST, pelo movimento negro e por dezenas de movimentos sociais. Os “comunistas” deram pão ao povo. Que esses exemplos ajudem a despertar o que o ser humano tem de melhor e mobilize forças para enfrentar um dos piores legados do bolsonarismo: a desumanização.

Guilherme Boulos  - Professor, bacharel em filosofia, psicanalista, ativista, político e escritor brasileiro


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