Semana On

Sexta-Feira 17.set.2021

Ano X - Nº 460

Poder

Em momento de lucidez, Bolsonaro alerta: 'Tem muita gente melhor do que eu'

Rejeição ao presidente bate recorde de 64%, diz PoderData; Lula coloca 16 pontos à frente, segundo a XP

Postado em 20 de Agosto de 2021 - Leonardo Sakamoto (UOL), Julinho Bittencourt (Fórum), Brasil de Fato - Edição Semana On

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"Tem muita, mas muita gente melhor do que eu por aí. Não faço questão de dizer 'quero ser presidente'. Agora, a barra é pesada. Tu tem que ter couro grosso", afirmou Jair Bolsonaro em um evento em Cuiabá, na quinta (19), que ele usou para campanha pré-eleitoral.

Em resposta, a hashtag #RenunciaBolsonaro foi um dos assuntos mais falados na bolha do Twitter.

Fantasiada de falsa humildade, a declaração é um momento de rara e incontestável lucidez em meio ao mar de desinformação que ele produz desde que assumiu a chefia do Poder Executivo.

Apenas para tratar daquelas que circularam nas últimas semanas, temos a mentira sobre fraudes nas urnas eletrônicas, o ataque ao uso de máscaras contra a covid, a defesa de remédios inúteis contra a doença, as lorotas sobre a efetividade das vacinas no combate à doença e o embuste de que o Tribunal de Contas da União tinha um estudo provando que morreram menos pessoas na pandemia do que o que vem sendo divulgado.

Também mentiu descaradamente quando afirmou que o "povo" está ao seu lado, quando diferentes pesquisas de opinião mostram um derretimento de sua popularidade. Só para citar a que saiu hoje, a PoderData apontou que 64% desaprovam a sua gestão.

E tem uma nova balela circulando na praça. Apesar de ele ter ameaçado a realização de eleições no ano que vem caso o voto impresso não fosse aprovado, Jair afirma que o Brasil já sofreu um golpe do Poder Judiciário, dando a entender que pode adotar um contragolpe - que, na verdade, seria o golpe em si, uma vez que o STF e o TSE vem apenas limitando as tentativas do governo em atropelar direitos. É loucura? É, mas tem método.

Na quinta, ele afirmou também que "não vamos perder a oportunidade de mudar o Brasil". O que é mais uma verdade. Seu governo ajudou a alterar para sempre o curso da vida de dezenas de milhões de brasileiros. Tanto os que choram pelos mais de 570 mil mortos ao ter sabotado o combate à covid-19, quanto os que sofrem com o recorde de 14,8 milhões de desempregados, devido a uma pandemia estendida devido ao negacionismo do presidente e seus aliados.

"Não queiram a minha cadeira. Não é fácil estar naquela cadeira de criptonita, os interesses são os mais variados possíveis que chegam até você. Nem sempre ou quase sempre não republicanos, mas resistimos e aos poucos fomos ganhando a confiança do parlamento", disse Jair.

(Antes de mais nada: se o presidente continuar falando assim do centrão, pode dar desquite.)

A escolha da criptonita como ponto fraco, o mesmo de Clark Kent/Kal-El é fascinante. O analista de Bolsonaro, se ele tivesse um, certamente se sentiria em um parque de diversões.

A história do Super-Homem é de um pai que enviou o seu único filho para salvar a humanidade, semelhante ao mito fundador da cristandade. Que, por sua vez, encaixa-se no arco narrativo da jornada do herói - que precisa cair para triunfar.

Passando por um momento difícil, o (Jair) Messias aponta que está vivendo seu calvário e vai renascer em glória em 2022, iluminado pelos efeitos econômicos da vacinação (que ele fez de tudo para atrapalhar) e de um Auxílio Brasil (que é o Bolsa Família rebatizado). Ou seja, até seu renascimento será parasitado.

No mesmo discurso, contudo, ele já deixou a lucidez de lado e voltou a ser o velho Jair de guerra. Esbaldou-se em óleo de peroba ao afirmar que "estamos há dois anos e sete meses sem corrupção".

Os civis, os militares, os policiais e os religiosos envolvidos nas maracutaias para a aquisição de vacinas no Ministério da Saúde, tanto as 400 milhões de doses do imunizante-fantasma ofertado pela Davati quanto a vacina indiana superfaturada da Precisa Medicamentos, devem fazer um brinde e desejar longa vida e reeleição a Jair ao ouvir isso. Afinal, ele pode ser um péssimo governante e uma fraude como mito, mas será sempre o herói dessa turma.

Rejeição em alta

De acordo com pesquisa PoderData realizada entre os dias 16 e 18 de agosto, 64% dos entrevistados reprovam a gestão do governo de Jair Bolsonaro (Sem Partido). Uma alta de 6 pontos percentuais em comparação a duas semanas antes. Outros 31% aprovam o governo e 5% não sabem como responder.

Os números apontam para o pior momento do governo.

Em relação ao trabalho pessoal do presidente, o quadro é semelhante ao de 15 dias antes: 56% consideram Bolsonaro ruim ou péssimo, 28% o avaliam como bom ou ótimo e 13% o consideram regular.

O percentual dos que acham que Bolsonaro deve sofrer impeachment saltou para 58%. Um aumento de 8 pontos em relação ao levantamento anterior, no final de julho.

O apoio ao impeachment de Bolsonaro é o recorde registrado pela divisão de pesquisas do Poder360 para essa pergunta. Fica tecnicamente empatada com os 57% registrados no final de maio, considerando-se a margem de erro de 2 pontos percentuais da pesquisa.

Pesquisa XP mostra Lula com 16 pontos à frente de Bolsonaro

A nova rodada da pesquisa XP/Ipespe para a eleição presidencial de 2022, divulgada pelo instituto no último dia 17, registra continuidade na tendência de crescimento das intenções de voto no ex-presidente Lula (PT). No levantamento de agosto, ele aparece com 40%, dois pontos percentuais a mais que na pesquisa anterior, enquanto Jair Bolsonaro (sem partido) tem 24%, dois pontos a menos que na última sondagem.

Esta é a quinta pesquisa em que o ex-presidente repete a tendência de alta – ele tinha 25% em março, quando seu nome voltou a ser testado. Atrás dele e de Bolsonaro aparecem Ciro Gomes (10%), Sérgio Moro (9%), Mandetta e Eduardo Leite (4%). O petista também lidera cenário alternativo, em que João Doria (5%) é testado no lugar de Leite e em que são incluídos Datena (5%) e Rodrigo Pacheco (1%) e é excluído Sérgio Moro.

Nesse cenário, Lula tem 37% e Bolsonaro, 28%. Lula também continua registrando crescimento no levantamento espontâneo, quando o nome dos candidatos não é apresentado ao entrevistado: ele passou de 25% para 28%, enquanto Bolsonaro segue estável com 22%.

No principal cenário de segundo turno, Lula ampliou vantagem sobre Bolsonaro. O petista oscilou dois pontos para mais, e Bolsonaro, três para menos. Agora o ex-presidente venceria com 51% contra 32% do atual presidente. O interesse em relação ao pleito está em alta. Hoje são 49% os que dizem estar muito interessados na eleição, contra 46% na pesquisa anterior.

A rodada de agosto da pesquisa XP/Ipespe mostra continuidade na tendência de crescimento das avaliações negativas do governo Jair Bolsonaro. No levantamento atual são 54% os que dizem considerar o governo ruim ou péssimo contra 52% no mês passado.

O crescimento na rejeição é constante desde outubro de 2020, quando 31% diziam considerar a gestão ruim ou péssima. Na outra ponta, os que veem o governo como bom ou ótimo somam 23%, dois pontos a menos que na pesquisa de julho. Os dois números são os piores para o governo desde o início da série.

A visão contrasta com outros indicadores sobre a situação econômica: a percepção sobre as chances de manutenção de emprego, por exemplo, segue em tendência de alta desde maio. O grupo que vê possibilidade grande ou muito grande de continuar empregado chega a 56%.

A pesquisa registrou também estabilidade sobre o sentimento da população em relação à pandemia: o grupo dos que dizem estar com muito medo do surto oscilou de 38% para 39% -- esta é a primeira vez desde abril que essa fatia dos entrevistados não reduz seu tamanho. No mesmo assunto, a soma das pessoas que já se vacinaram com as que dizem que vão se vacinar com certeza atingiu seu maior patamar, chegando a 96%

Foram realizadas 1.000 entrevistas, de abrangência nacional, de 11 a 14 de agosto. A margem de erro é de 3,2 pontos percentuais.


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