Semana On

Sexta-Feira 17.set.2021

Ano X - Nº 460

Poder

Ganho de canais disseminadores de fakenews e ataques à democracia pode chegar a R$ 15 mi

Bolsonarismo apatifou o debate público no Brasil

Postado em 20 de Agosto de 2021 - Vinícius Valfré (O Estado de S.Paulo), Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

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A decisão do corregedor-geral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luis Felipe Salomão, de suspender a monetização de canais bolsonaristas deve congelar uma quantia milionária arrecadada por produtores de conteúdo considerado ofensivo à democracia e ao sistema eleitoral. Só no YouTube, os 14 canais atingidos pelo despacho da última segunda-feira podem gerar até US$ 2,9 milhões por ano em receitas – cerca de R$ 15 milhões. 

A estimativa é feita com dados da Social Blade, ferramenta que gera estatísticas sobre redes sociais e permite análises variadas, como sobre comportamento de seguidores, níveis de interação e previsão de ganhos.

Em um inquérito paralelo ao do TSE, o dos atos antidemocráticos, do Supremo Tribunal Federal (STF), a Procuradoria-Geral da República contabilizou US$ 1,1 milhão obtido por canais bolsonaristas. Esse montante, porém, dizia respeito a alguns canais distintos dos alcançados pela Corte Eleitoral, menores, e considerava receitas de junho de 2018 a maio de 2020. 

O dinheiro vem de vídeos que exploram informações falsas ou tiradas do contexto, como no caso da urna eletrônica. Por supostamente revelar informações “secretas e bombásticas”, atraem o interesse de milhões de pessoas. Juntos, os 14 canais na mira do TSE somam 10,1 milhões de seguidores. É quase o triplo dos 3,5 milhões de inscritos no canal oficial do presidente Jair Bolsonaro no YouTube.

O volume de acesso e de interações, as propagandas que aparecem nos vídeos e doações espontâneas de internautas se convertem em dinheiro. O YouTube ainda analisa as determinações do TSE, de modo que as receitas ainda não estão suspensas. Os ganhos exatos auferidos por cada um desses youtubers foram solicitados pelo TSE às plataformas, que têm 20 dias para prestar as informações. Em reunião na Justiça Eleitoral, na quinta-feira, 19, representantes das redes sociais se mostraram dispostos a acolher as ordens e a colaborar com providências futuras.

O maior canal bolsonarista afetado é o Folha Política, com 2,5 milhões de inscritos e um ganho que pode se aproximar de US$ 1,7 milhão por ano, segundo a Social Blade. Na conversão, o valor passa de R$ 5 milhões. Um dos vídeos destacados no relatório policial que baseou o despacho do corregedor da Justiça Eleitoral dá uma versão falsa sobre ataques de hackers ao TSE. Alega que invasores acessaram “o sistema, a nave mãe, o cérebro, o computador do TSE”.

Nos últimos meses, a urna eletrônica virou o tema preferido de youtubers bolsonaristas. Com a audiência gerada a partir das teorias conspiratórias que o presidente sustenta, os youtubers ganham dinheiro com vídeos que ampliam essas versões falsas ou enganosas.

Alberto Junio da Silva, do canal O Giro de Notícias, tem 1,2 milhão de inscritos e receita estimada em US$ 92 mil, conforme a Social Blade. Em um dos vídeos citados no relatório  da PF ele afirma que o “PT teve acesso às urnas” e sugere um conluio do partido com a Justiça Eleitoral. “Eles (PT) foi o único que tiveram (sic) acesso permitido pelo TSE (em auditoria). Não é estranho?”, afirma. “Se eles não querem colocar o voto impresso é porque aí tem.”

Nos vídeos, Silva exibe na tela, em letras garrafais, o número para que contribuições a ele sejam enviadas via Pix como apoio ao canal. Portanto, por fora do YouTube. Ele se alterna entre ataques ao sistema eleitoral e publicidade contra a calvície. 

Os mecanismos para doações são uma preocupação permanente para as autoridades envolvidas no inquérito administrativo aberto pelo TSE a partir da live de Bolsonaro. Esse tipo de entrada, avaliam, pode mascarar doação ilegal de campanha eleitoral.

Planalto

Entre os youtubers afetados, há alguns com acesso ao Palácio do Planalto. Fernando Lisboa, do Vlog do Lisboa, tem vídeos gravados na sede do governo, ao lado do presidente, em que ambos fazem críticas à imprensa. O canal tem 716 mil seguidores e a receita por ano pode chegar a US$ 169 mil, segundo a Social Blade. “Quanto mais se atacam as instituições e o sistema eleitoral, mais proveito econômico os envolvidos obtêm”, disse Salomão. 

Emerson Teixeira, o “Professor Opressor”, também disseminou mentiras sobre as urnas conforme o direcionamento político de Bolsonaro. “Estamos diante do maior escândalo da República do Brasil das últimas décadas. O que o Bolsonaro fez ontem na live foi desmascarar toda essa corja que tem aí no STF e no TSE. A gente tem que brigar para que essas pessoas, Rosa Weber, Barroso e demais agentes do TSE, sejam presos imediatamente”, disse. 

A estimativa é a de que o canal renda a ele anualmente até US$ 28 mil, quase R$ 150 mil. O youtuber vem ganhando relevância. Em março, tinha 61 mil seguidores. Hoje, tem 134 mil.

É esse mercado nebuloso que o TSE busca combater com uma resolução que está sendo elaborada. Os temas preferidos pelos youtubers poderiam continuar em debate, conforme as regras das plataformas e as leis brasileiras, mas não servir para enriquecer quem viu no “segmento” uma oportunidade de negócio. Para autoridades, “política e ideologia não podem ser comercializadas”. 

Mais do que impor um revés a canais bolsonaristas na internet, o TSE quer limitar a atuação de “mercenários” no debate político. Especialistas concordam que a monetização proveniente das plataformas de redes sociais é uma das mais importantes fontes de financiamento de campanhas de desinformação contra instituições e adversários políticos.

No entanto, a medida exige uma mudança de postura das plataformas. Isso porque elas ganham parte dos valores doados pelas audiências aos produtores de conteúdo. No YouTube, por exemplo, os donos de canais abrem “superchats”, modalidade em que os inscritos podem fazer doações de dinheiro. A rede social fica com 30%.

Suspensão

No encontro com as plataformas, também foi mencionada a ideia da resolução que visa suspender, nas eleições, a monetização de canais relacionados à política. Uma outra reunião deve ser marcada nos próximos dias para que o debate seja aprofundado. “Não se trata de censura, nem mesmo perseguição. A forma mais indicada é retirar o incentivo financeiro dos canais listados”, afirmou a delegada Denisse Ribeiro, que lidera as investigações e propôs a suspensão das receitas de canais.

Horas depois da reunião no TSE com representantes das plataformas, nesta quinta-feira, 19, o presidente da Corte Eleitoral, Luís Roberto Barroso, fez uma cobrança às empresas. Disse que “dinheiro não é tudo na vida” e que uma “suposta neutralidade” não pode servir para “proveito financeiro do mal”. 

Apatifamento do debate público

Em maio de 2020, quando o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal arrastou o bolsonarismo para dentro de um inquérito sobre mentiras odiosas difundias na internet, Bolsonaro abespinhou-se: "Acabou, porra!" Era um engano. A coisa estava apenas começando. Hoje, sabe-se que a indústria do ódio virtual é o empreendimento que mais prosperou sob Bolsonaro. Frequentam o processo, além de empresários e parlamentares aliados do Planalto, os filhos de Bolsonaro e, desde o último dia 4 de agosto, o próprio presidente da República.

A esse ponto chegamos: Enviado ao Planalto como solução dos 57,8 milhões de brasileiros que o elegeram, Bolsonaro fez o pior o melhor que pôde. Os brasileiros precisavam de emprego, eficiência e probidade. Bolsonaro forneceu tuítes, inépcia e centrão. Sobreveio a pandemia. E o presidente submeteu o país a uma fase de faltas e excessos. Falta dinheiro, falta comida, falta solidariedade, falta celeridade numa vacinação que começou tardiamente. Excesso de dívidas, excesso de mentiras, excesso de ódio, excesso de cadáveres, excesso de cloroquina nos estoques do Exército e nas prateleiras do SUS.

Em meio a um processo de autocombustão, Bolsonaro elegeu como prioridade a destruição dos pilares da democracia. Conspira contra o regime full time. Ao pressentir que será derrotado em 2022, tenta completar no Brasil o Apocalipse institucional que Donald Trump deixou inacabado nos Estados Unidos. Há na língua portuguesa um verbo pouco utilizado que define apropriadamente o desvirtuamento que se observa no debate público no Brasil. O verbo é apatifar.

Significa tornar-se um patife, virar um canalha, aviltar-se. Na noite desta quinta-feira (19/08), ao abrir a sessão virtual do Tribunal Superior Eleitoral, o ministro Luís Roberto Barroso, presidente da Corte, disse um conjunto de obviedades que, em condições normais, não precisariam ser mencionadas. Entretanto, o apatifamento que marca a conjuntura nacional é um fenômeno que torna imperativa a enunciação do óbvio.

"Mentira deliberada, ódio, teorias conspiratórias e difusão da desinformação incentivando agressões e posições anticientíficas que levam à morte das pessoas, isso não é protegido pela liberdade de expressão", declarou Barroso a certa altura. A manifestação do ministro foi uma respostas às críticas contra a decisão do TSE que bloqueou a remuneração de pessoas e que disseminam desinformação na internet. Decisão tomada na última segunda-feira (16/08) pelo corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Luis Felipe Salomão, a pedido da Polícia Federal.

O apatifamento da política levou à degradação do discurso público. São exemplos dessa anomalia um presidente que mente deliberadamente sobre as urnas eletrônicas e insulta magistrados, um deputado que se aproveita da imunidade parlamentar para defender a ditadura, um pseudo-jornalista que busca remuneração na mentira... De fato, nada disso pode se enquadrado como liberdade de expressão. Ou dificuldade de se exprimir. Em português claro, trata-se de crime. E assim deve ser tratado.


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