Semana On

Segunda-Feira 27.set.2021

Ano X - Nº 461

Coluna

Quando a ansiedade se instala na boca

A cadeira da dentista me faz sentir como se estivesse sentada em um equipamento de execução

Postado em 19 de Agosto de 2021 - Theresa Hilcar

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A cadeira da dentista me faz sentir como se estivesse sentada em um equipamento de execução. Enrijeço cada músculo do corpo, cravo as unhas na palma das mãos para dispersar a tensão. Cada minuto gera intenso estresse nas minhas células. Sempre foi assim.

Desde criança o pavor da broca e dos instrumentos me assusta. Costumava fugir das sessões sempre que podia. No colégio interno era a única aluna a ter permissão para ir ao dentista. Foi a única época em que não fugi, nem reclamei. Qualquer coisa era melhor que a rigidez do internato.

Contei a história recentemente à doutora, e ela demonstrou surpresa dizendo que eu disfarçava muito bem a ansiedade e o medo. Deve ser o hábito, pensei. O pavor da cadeira está tão entranhando que é como se fosse uma extensão do braço ou dos pés que ficam se debatendo em silêncio.

Tenho uma coleção de coroas, pinos e, até pouco tempo ouro que, embora seja material de excelência para restaurações maiores, caiu em desuso devido a sua aparência, digamos, chamativa. Retirei a última há uns dois ou três anos. Todos estes consertos, digamos assim, são a prova real da minha resistência quase ancestral aos cuidados odontológicos preventivos.

Em vista disto, minhas visitas aos consultórios, na maioria das vezes, são por conta de alguma dor ou incômodo. Há uns quatro anos, em visita à Minas, fui parar duas vezes no Pronto Socorro, já que não havia dentistas disponíveis àquela hora da noite. Tudo por conta de um simples dente que, depois de longo calvário, não me pertence mais. E nem me faz nenhuma falta.

Há uns 15 anos, em Paris, deixei escapulir um dente provisório, aqueles que usamos enquanto não colocamos os definitivos. Felizmente não perdi o danado, mas ficou o problema: como colar o dente de volta? Ao chamar o dentista aqui no Brasil ele me preveniu: nem pense em procurar consultório dentário, eles cobram fortunas. E me deu o nome de uma colinha básica para reparar o dano e continuar a viagem.

Algumas vezes também já tirei profissional da cama, clamando por ajuda na madrugada. Por isto sempre me lembro quadrinho da antessala do doutor Renato que me atendia na infância, onde se lia: para ser dentista é preciso ter paciência de um monge. E haja paciência.

Deve ser por isto que, no século passado, era natural que as pessoas usassem dentaduras. Havia pouquíssimos dentistas. Na minha cidade havia dois. Um deles só fazia dentes postiços, dentaduras tão perfeitas que a clientela ultrapassava os limites da cidade. O consultório, bem na praça central da cidade, era sempre lotado.

Meus avós maternos e minha mãe usavam o artefato bucal assinado pelo Dr. Guadalupe. Se ninguém visse os dentes dentro do copo com água ou embrulhado em lenços de tecido, como eram guardados durante a noite, ninguém diria que eram falsos. Muitas vezes, durante o martírio de uma dor de nervo exposto, desejei ardentemente que arrancassem todos os dentes e me dessem logo um par de dentaduras. Que além de práticas, eram fáceis de limpar e guardar.

Depois de anos fugindo de consultórios dentários, os dentes vão cobrando o seu preço, como aliás tudo na vida. Tenho uma enorme variedade de cores e texturas resultado de restaurações feitas ao longo do tempo. De uns tempos para cá, com ansiedade no pico, comecei a ranger os dentes, o que piora consideravelmente a situação. Espaço para manobras é quase ínfimo.

A recente solução, talvez a única, para ter de volta o sorriso confiante, vem das tais lentes de contato dentais. Mas para isto, além de uma pequena fortuna, é preciso submeter-se a procedimentos demorados. Diante do imbróglio, confesso que em meus delírios persecutórios, me vejo entrando no consultório do doutor Guadalupe e pedindo com fervor e pureza d’alma: me vê um bom par de dentaduras, por favor. Problema resolvido.


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