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Sexta-Feira 17.set.2021

Ano X - Nº 460

Comportamento

Pessoas reproduzem atitudes ruins que presenciaram no trabalho

Análise com dados de 35.344 funcionários elenca fatores que evitam — ou favorecem — a reprodução de atitudes hostis no ambiente profissional, criando um ciclo vicioso

Postado em 18 de Agosto de 2021 - Galileu

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Estudos na área da psicologia já demonstraram que experimentar ou testemunhar situações hostis no ambiente de trabalho pode levar à reprodução desses comportamentos entre colegas. Mas há fatores que aumentariam — ou diminuiriam — a probabilidade de que um funcionário que sofreu com isso reproduza essas atitudes mais tarde? Esta foi a pergunta que conduziu um estudo publicado no periódico científico Journal of Occupational Health Psychology no último dia 9.

Liderada pelo Departamento de Psicologia da Universidade Estadual em Portland, nos Estados Unidos, a pesquisa revisou e sintetizou a literatura científica disponível relacionada a comportamentos rudes no local de trabalho (que foi batizada de "incivilidade"). No total, a análise incluiu dados de 35.344 funcionários, oriundos de 76 amostras independentes.

Os pesquisadores consideraram uma definição de "incivilidade" que se refere a “comportamentos desviantes com intenção de prejudicar o alvo”, de forma a violar as normas corporativas de respeito mútuo. Os exemplos vão desde criticar alguém em público até verificar mensagens de texto durante uma reunião. "A incivilidade é tipicamente ambígua e não muito intensa, mas tem efeitos prejudiciais da mesma forma", observa Lauren Park, Ph.D em psicologia organizacional-industrial pela Universidade Estadual em Portland e coautora do estudo, em comunicado.

De acordo com a investigação, o bem-estar individual e certas disposições pessoais (a exemplo do narcisismo ou da afabilidade) são fatores importantes para prever a incivilidade, mas outros indicadores a nível corporativo também são importantes nesse cenário. Funcionários que tinham maior controle sobre seus empregos, por exemplo, se mostraram menos propensos a retribuir atitudes hostis.

Segundo os pesquisadores, isso pode acontecer porque esse grupo tem mais liberdade para decidir quando e como suas tarefas serão concluídas, o que lhes daria “mais tempo e energia para buscar apoio social ou organizacional, distanciar-se física ou mentalmente do trabalho, e refletir sobre a situação antes de confrontar o colega rude”.

O mesmo cenário foi observado entre trabalhadores cujas equipes eram caracterizadas como mais amigáveis. “Se um grupo de trabalho modela o comportamento civil, outros funcionários provavelmente o seguirão para se conformar às normas do grupo”, diz o estudo.

A idade também foi um fator moderador significativo: indivíduos mais velhos tendem a ter menor probabilidade de retribuir atitudes rudes do que os mais jovens. De acordo com a pesquisa, isso reforça evidências anteriores de que trabalhadores com mais experiência são normalmente mais bem-sucedidos em "compreender e controlar suas emoções" no ambiente de trabalho.

Tolerância zero

Para os autores da investigação, compreender os fatores de risco e protetores acerca de atitudes hostis nas relações trabalhistas pode ajudar organizações a limitarem a disseminação desse tipo de comportamento, sobretudo em uma realidade pós-pandêmica — quando muitos funcionários se encontrarão com seus colegas presencialmente pela primeira vez ou voltarão a dividir o mesmo espaço depois de meses de videoconferências.

"Os relacionamentos precisarão ser renegociados de diferentes maneiras e a probabilidade de que as pessoas sejam capazes de lidar com essas situações de maneira condutiva, em comparação com o período anterior à pandemia, diminuirá", avalia Park.

O estudo sugere que as políticas de intervenção para minimizar comportamentos hostis incluam educar os funcionários sobre como gerenciar suas respostas à observação ou vivência dessas situações. Além disso, reclamações de atitudes rudes devem ser levadas a sério pelas empresas, com a implementação de políticas de tolerância zero contra comportamentos rudes e outras formas de maus-tratos.

"Elas [as organizações] correm um grande risco de iniciar esses ciclos viciosos", alerta Park. "Oferecer suporte não é apenas a coisa certa a fazer, mas também impede que esse comportamento se espalhe pela organização.


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