Semana On

Quarta-Feira 25.mai.2022

Ano X - Nº 488

Poder

Jefferson integra 'possível organização criminosa' para 'desestabilizar instituições', afirma Moraes

Ministro do STF autorizou prisão do ex-deputado e presidente do PTB. Ordem foi dada dentro do inquérito da milícia digital, que investiga ataques contra o Estado democrático de direito.

Postado em 13 de Agosto de 2021 - G1, Flávia Said, Naomi Matsui e Tácio Lorran (Metrópoles), Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

No mandado que autorizou a prisão de Roberto Jefferson, ex-deputado e presidente do PTB, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), escreveu que o político faz parte de uma "possível organização criminosa" que busca "desestabilizar as instituições republicanas".

Jefferson foi preso pela Polícia Federal na manhã desta sexta-feira (13). O mandado é de prisão preventiva (que não tem prazo estipulado para acabar).

"Uma possível organização criminosa – da qual, em tese, o representado faz parte do núcleo político –, que tem por um de seus fins desestabilizar as instituições republicanas, principalmente aquelas que possam contrapor-se de forma constitucionalmente prevista a atos ilegais ou inconstitucionais, como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o próprio Congresso Nacional", escreveu Moraes.

A ordem de prisão foi dada dentro do chamado inquérito da milícia digital, que é uma continuidade do inquérito dos atos antidemocráticos.

Na decisão, Moraes escreveu ainda que a suposta organização da qual Jefferson integra o núcleo político tem uma rede virtual de apoiadores que compartilham mensagens com o objetivo de derrubar a "estrutura democrática".

"Uma rede virtual de apoiadores que atuam, de forma sistemática, para criar ou compartilhar mensagens que tenham por mote final a derrubada da estrutura democrática e o Estado de Direito no Brasil", afirmou Moraes.

Discurso de ódio e homofobia

No mandado que autorizou a prisão de Jefferson, o ministro Alexandre de Moraes disse também que o ex-deputado publicou manifestações em suas redes sociais que continham "discursos de ódio" e comentários "homofóbicos", os quais se destinavam a ministros do Supremo e a "corroer as estruturas do regime democrático e a estrutura do Estado de Direito".

"As manifestações, discursos de ódio e homofóbicos e a incitação à violência não se dirigiram somente a diversos Ministros da CORTE, chamados pelos mais absurdos nomes, ofendidos pelas mais abjetas declarações, mas também se destinaram a corroer as estruturas do regime democrático e a estrutura do Estado de Direito", diz o documento.

Possíveis crimes e milícia digital

Moraes disse ainda que há "fortes indícios" de que Jefferson tenha cometido crimes, entre eles: calúnia, difamação, injúria, incitação ao crime e apologia ao crime.

O inquérito que investiga a organização e o funcionamento de uma milícia digital voltada a ataques à democracia foi aberto em julho, por decisão de Moraes.

Nessa investigação, a PF apura indícios e provas que apontam para a existência de uma organização criminosa que teria agido com a finalidade de atentar contra o Estado democrático de direito.

Essa organização se dividiria em núcleos: de produção, de publicação, de financiamento e político. Outra suspeita é de que o grupo tenha sido abastecido com verba pública.

Entre os nomes citados pela PF em um pedido para acessar quebras de sigilo, estão os assessores da Presidência da República acusados de integrar o chamado “gabinete do ódio”, que seria encarregado de promover ataques virtuais nas redes sociais contra desafetos da família do presidente Bolsonaro e adversários do governo.

Roberto Jefferson

O ex-deputado Roberto Jefferson foi o pivô do escândalo do mensalão, em 2005. Foi a partir de uma entrevista dele ao jornal "Folha de S. Paulo" que o país tomou conhecimento das denúncias de que o governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva passava dinheiro a deputados da base.

Em novembro de 2012, no julgamento do mensalão no STF, ele foi condenado a 7 anos e 14 dias de prisão, pelos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção passiva.

Nos últimos anos, já sem mandato parlamentar, Jefferson se aproximou do presidente Jair Bolsonaro. Em suas redes sociais, começou a postar fotos com armas. O armamento da população é uma das principais causas do presidente.

Xingamentos e ameaças

Após ter a prisão preventiva decretada, o ex-deputado usou uma conta alternativa no Twitter para se queixar da determinação: “Vamos ver de onde parte essa canalhice”, escreveu. Na sequência, o político chamou o ministro Alexandre de Moraes de “cachorro do STF” e relacionou as ações do Supremo às da Venezuela.

Roberto Jefferson tem usado um perfil alternativo na rede social desde que a conta oficial foi retida pela plataforma.

A Polícia Federal foi a cada de minha ex-mulher, mãe de meus filhos, com ordem de prisão contra mim e busca e apreensão. Vamos ver de onde parte essa canalhice.

— Bob Jeff Road King (@BobJeffRoadKing) August 13, 2021

-

Xandão, maridão de dOna Vivi, Cachorro do STF, decretou minha prisão por crime de milícia digital. Ele está repetindo os mesmos atos do Supremo da Venezuela, prendendo os Conservadores para entronizar os comunistas. Deus. Pátria. Família. Vida. Liberdade.

— Bob Jeff Road King (@BobJeffRoadKing) August 13, 2021

Filha de Roberto Jefferson, a ex-deputada federal Cristhiane Brasil afirmou que “o bando de escroto que mandou prender meu pai, sabe-se lá porquê [sic], vai pagar caro”.

Dias antes de prisão, Ramos chamou Jefferson de “soldado pela democracia”

O ministro Luiz Eduardo Ramos afirmou, há 10 dias, que Roberto Jefferson era “um soldado na luta pela liberdade do nosso povo e pela democracia” do Brasil.  Recebi hoje a visita do Presidente do PTB, Roberto Jefferson. Mais um soldado na luta pela liberdade do nosso povo e pela democracia do nosso Brasil”, publicou Ramos em uma rede social, em 3 de agosto, após receber Jefferson no Palácio do Planalto.

Aras opera em duas velocidades, ambas insultuosas e autodesmoralizantes

A prisão de Roberto Jefferson ocorre à revelia de Augusto Aras. O mandado foi expedido no âmbito de um inquérito que o procurador-geral da República queria arquivar. No léxico do Poder, Aras virou sinônimo de vexame.

Intelectualmente lento, Aras demora a notar que a gratidão de Bolsonaro é menor do que a sua disposição de oferecer blindagem ao presidente e seu grupo. Moralmente ligeiro, o procurador-geral já não se importa em carbonizar o pouco que resta de sua biografia para proteger o seu patrono.

Essas duas velocidades de Aras —a lentidão mental e a ligeireza moral— são insultuosas. Até o ministro Dias Toffoli, que cultiva no Supremo uma proximidade radioativa com a família Bolsonaro, já notou.

Relator de uma ação em que o senador Alessandro Vieira pede ao Supremo que obrigue Bolsonaro a se explicar sobre as mentiras de que há fraude nas eleições brasileiras, Toffoli requisitou a manifestação do procurador-geral, como é de praxe. Aras respondeu num ofício que estava ciente da requisição. Mas não disse o que pensa sobre a ação. E Toffoli teve de lembrar ao procurador-geral que ele precisa informar se acha que Bolsonaro cometeu crime ou não.

Dias atrás, Rosa Weber foi mais enfática. Irritou-se com o pedido da Procuradoria-Geral para aguardar até o término da CPI da Covid para decidir sobre a eventual abertura de investigação contra Bolsonaro por prevaricação no Caso Covaxin. A ministra passou um sabão em Aras e sua equipe. Lembrou que, "no desenho das atribuições do Ministério Público, não se vislumbra o papel de espectador das ações dos Poderes da República".

Alexandre de Moraes foi mais prático. Simplesmente desligou Augusto Aras da tomada. Ignorou um pedido de Augusto Aras para arquivar investigação contra o então ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. E passou a abrir inquéritos inclusive contra Bolsonaro sem ouvir o procurador-geral previamente.

Não é sem motivo que quase três dezenas de subprocuradores-gerais assinaram um manifesto cobrando do procurador-geral atitudes contra as ameaças de Bolsonaro à democracia. Tenta-se evitar que a autocombustão do procurador-geral queime todo o Ministério Público Federal.


Voltar


Comente sobre essa publicação...