Semana On

Quarta-Feira 29.set.2021

Ano X - Nº 461

Poder

Relatório final da CPI já começou a ser redigido

Barraco de governistas na CPI faz parte da tática bolsonarista de melar o jogo democrático

Postado em 13 de Agosto de 2021 - Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

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O relatório final da CPI da Covid já está sendo escrito. Embora disponha de autorização para funcionar até a primeira semana de novembro, a CPI terminará bem antes disso. Bolsonaro será a grande estrela do documento final.

O relator Renan Calheiros já havia mencionado a decisão de enquadrar o presidente no crime de responsabilidade por retardar a compra de vacinas. O crime de responsabilidade é aquele que, em tese, pode levar ao impeachment.

Em decisão compartilhada os outros membros da cúpula da CPI, Renan decidiu indiciar Bolsonaro também pelos crimes de curandeirismo, charlatanismo, medicina ilegal e publicidade enganosa.

Servindo-se de provas fornecidas pelo próprio presidente, a comissão colecionou evidências de que, além de se converter em garoto-propaganda de remédios ineficazes no tratamento da Covid, Bolsonaro agiu para transformar o uso desses medicamentos em política pública do Ministério da Saúde.

A convicção dos senadores foi reforçada pelo depoimento de Jailton Batista, diretor-executivo da Vitamedic. Trata-se de uma das principais produtoras de ivermectina, um remédio de vermes e parasitas que compôs, ao lado da cloroquina, o chamado kit Covid, indicado por Bolsonaro e seu governo para tratamento contra a Covid, à revelia dos preceitos científicos.

Durante a pandemia, o faturamento da Vitamedic saltou 29 vezes. Indagado, o executivo da empresa disse na CPI que nunca antes um presidente da República havia propagandeado remédios. Ele admitiu que a empresa bancou anúncios publicitários da Associação Médicos pela Vida, que promove o tal tratamento precoce receitado por Bolsonaro. Gastou R$ 717 mil com a propaganda.

Por ora, Bolsonaro dá de ombros para as conclusões da CPI. O presidente se considera imunizado. Dispõe de duas vacinas com alto grau de eficácia. Contra o impeachment, Arthur Lira. Contra o charlatanismo, a blindagem do curandeiro-geral Augusto Aras.

Barraco

O comportamento de certos aliados do governo Bolsonaro que depõem na CPI da Covid se enquadra no que é conhecido como "Síndrome do Pombo Enxadrista": eles pousam no teclado, defecam no tabuleiro, derrubam as peças e voam cantando vitória. No fim, o debate é substituído pelo tumulto, que interessa a quem deseja esconder os fatos. É isso o que aconteceu, na quinta (12), no depoimento do líder do governo na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros (PP-PR).

Seria engraçado se o tabuleiro não fosse a democracia e a baderna não tivesse o objetivo de servir de cortina de fumaça para esconder a responsabilidade do governo nas quase 570 mil mortes por covid-19, nos 14,8 milhões de desempregados e em um escândalo de corrupção envolvendo a compra de vacinas.

Barros é alvo de apuração sobre seu envolvimento no esquema de propina e superfaturamento do imunizante indiano Covaxin. Após levar evidências a Bolsonaro de que haveria um cambalacho no Ministério da Saúde para uma patota levar um cascalho na aquisição de vacinas, o deputado Luís Miranda (DEM-DF) afirmou que ouviu dele que isso seria "mais um rolo" de Barros.

Desde o início da sessão, houve um esforço tanto do depoente quanto da tropa de choque governista, capitaneada pelo senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), para impedir que os demais senadores pudessem obter respostas. O primogênito de Jair, que se tornou suplente da comissão com a ida de Ciro Nogueira para a Casa Civil, é figura presente sempre que o depoimento pode gerar problemas para seu pai e sempre que é necessário adotar o tumulto como estratégia.

No último lance bizarro, Barros afirmou que a CPI "afastou muitas empresas interessadas em vender vacinas ao Brasil". O escárnio enfureceu senadores da oposição e independentes, uma vez que ocorreu a comissão frustrou a negociação do governo com empresas como a Davati, que tentou vender 400 milhões de doses inexistentes, e da Precisa Medicamentos, responsável pela superfaturada Covaxin. Ou seja, na prática, Barros reclamou que a CPI atrapalhou o cambalacho.

Vale ressaltar que a Precisa pertence aos mesmos responsáveis pela Global, que já havia passado a perna no Ministério da Saúde, em 2017, com uma venda de R$ 20 milhões em medicamentos que nunca foram entregues. Barros, ministro na época, aparece como réu em uma ação movida pelo Ministério Público Federal. Pelo menos 14 pacientes morreram e outras centenas tiveram piora pelo atraso na entrega desses remédios.

Diante do vídeo que mostra o momento em que Luís Miranda afirma, em plena CPI, que ouviu Bolsonaro citar o nome de Barros no "rolo" da Covaxin, o líder do governo e a tropa de choque governista afirmaram que aquele registro não valia. Para Barros, em entrevistas à imprensa e à Polícia Federal não houve citação de seu nome por Miranda, então esses eram os vídeos que deveriam ser considerados.

O presidente nunca negou que citou o deputado, o que levou a Barros a um contorcionismo retórico para tentar convencer que Bolsonaro se referia a outro caso. Tudo porque o presidente teme que apareça uma gravação da reunião com Miranda e com seu irmão, servidor da Saúde que identificou a mutreta.

A "Síndrome do Pombo Enxadrista" é largamente utilizada por Bolsonaro e seus aliados desde a campanha presidencial. Por conta da falta de argumentos, ele agride interlocutores, traz falácias para o debate e depois sai cantando vitória junto aos seus seguidores mais fiéis, que acreditam no que ele diz.

Tem sido assim, por exemplo, nas suas acusações contra a urna eletrônica. Como ele perderia um debate racional e baseado em fatos, inventa e coleta mentiras sobre fraudes, ataca o Tribunal Superior Eleitoral, diz que a derrota na aprovação do voto impresso na Câmara é, na verdade, uma vitória e tenta excitar o seu rebanho para minar a credibilidade do sistema eleitoral, pavimentando uma tentativa de golpe em 2022.

A solução para isso é simples: as instituições não podem permitir a transformação do país em Casa da Mãe Joana, seja por parte do presidente ou de um deputado federal. Ao que tudo indica, na próxima convocação, a CPI pode evitar que Ricardo Barros aja como um pombo, lembrando a ele que aves correm o risco de serem engaioladas.


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