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Quarta-Feira 25.mai.2022

Ano X - Nº 488

Coluna

Outros (e bons) tempos

O universo era tão pequeno que cabia num vestido, num sorriso e numa valsa

Postado em 12 de Agosto de 2021 - Theresa Hilcar

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Sempre ouvi dizer que a medida em que o tempo avança (metáfora explícita para dizer que envelhecemos), a tendência do nosso cérebro é recorrer cada vez mais às memórias do passado. De uns tempos para cá, algumas lembranças da infância e adolescência têm sido constantes. 

Ontem mesmo, antes de dormir, fui tomada por uma saudade imensa do Clube Recreativo Lagoense, da minha cidade natal, Lagoa da Prata, no interior das Minas Gerais. Não havia nada de excepcional naquele lugar, instalado no centro da cidade. Apenas o salão de baile, com mesas e cadeiras, um arremedo de bar (onde não havia bebidas expostas) e nos fundos, no pequeno jardim, uma mesa de ping pong.

Mas o clube para mim era o máximo, ponto de encontro dos amigos do colégio e palco dos mais diversos eventos. Quase todos os dias nós batíamos o ponto no local. Alguns ficavam na varanda, sentados em cadeiras de descanso, outros preferiam as mesas próximas à Tv. O grupo da varanda era geralmente de meninos. E eu que sempre gostei das rodas masculinas, ficava por lá apreciando a conversa dos amigos, que hoje são competentes cardiologistas, engenheiros, dentistas, empresários prósperos e até um embaixador de Portugal. 

O clubinho das meninas costumava ficar horas no banheiro. O lugar era amplo e limpo o bastante para acomodar cinco ou seis meninas que se refugiavam para fumar cigarros, escondido. Cigarro que aliás, era passado de mão em mão. E quem levava o maço, sempre com filtro, era a Marry e às vezes a Volanda, nossa miss. Lá também dividíamos nossos segredos e aflições.

Mas frequentar aquele reduto tão especial para nós, e única diversão na pequena cidade do interior de Minas, não era para todo mundo. Era preciso dispor de algum dinheiro e ser oriundo de boa família. Ainda na infância, eu passava na calçada, indo em direção ao cinema do avô, lançando olhares para o movimento através das janelas envidraçadas e desejando fazer parte daquele mundo. 

Era impossível convencer meu avô a ficar sócio do clube. Ele se recusava peremptoriamente a pagar o preço de frequentar um lugar onde não havia diversão. Mais tarde, na pré adolescência, passei a entrar como convidada. Lembro que sentia um certo constrangimento por ficar exposta na portaria, esperando que alguém autorizasse minha entrada. Sentia que o porteiro sempre me olhava como intrusa e não pertencesse àquele universo.

Até que, finalmente, convenci minha mãe a comprar a tal “cota” do clube. Que alívio poder entrar de cabeça erguida e passar pela recepção sem receio de ser barrada. Frequentar o clube me trazia uma sensação de pertencimento, de igualdade. Pude inclusive ser uma das 15 debutantes do baile anual, que naquele ano foi filmado por uma rede de TV que, possivelmente, noticiou o fato em dois segundos.

Para quem não sabe, baile de debutantes era uma espécie de apresentação oficial à sociedade, um rito de passagem. Não nos era permitido frequentar bailes antes de debutar. Daí o frisson que ele causava em nós. Nas fotos que guardo até hoje, dá para ver claramente a alegria e o brilho nos olhos da adolescente que fui.

Hoje tudo isto parece uma grande tolice. E até elitista — com certeza era. Mas, na época, tudo isto era absolutamente natural. Embora eu às vezes me rebelasse contra as normas vigentes, aquele ritual era algo muito importante para a maioria das meninas da minha idade.

Não havia as pompas das festas de hoje, com grandes decorações, bufês caríssimos e roupas de grife. Tudo que a gente precisava era um vestido branco feito pela melhor costureira da cidade, um belo sorriso no rosto e um par, de preferência um moço bem bonito, para dançar a valsa. Naquele dia o universo, mesmo pequeno, era todo meu. Simples assim.


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