Semana On

Segunda-Feira 27.set.2021

Ano X - Nº 461

Coluna

Quem sustenta o retrocesso?

Presidente aparelhou a PF, imobilizou a PGR, cooptou a presidência da Câmara e venezualizou as Forças Armadas. Agora, age para desmoralizar o Judiciário

Postado em 12 de Agosto de 2021 - Victor Barone

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Numa parceria inédita, o Tribunal Superior Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal tentam enquadrar Bolsonaro. Num movimento previsível, o presidente reage ao cerco judicial dobrando a aposta. Ele mantém a língua em riste. Continua distribuindo insultos, mentiras e ameaças. Implantou-se no Brasil uma espécie de autocracia informal.

Como era previsto, o ministro Alexandre de Moraes acatou no Supremo Tribunal Federal mais uma notícia-crime do Tribunal Superior Eleitoral. Inaugurou no âmbito do inquérito sobre fake news nova investigação contra Bolsonaro, dessa vez para apurar o vazamento de inquérito sigiloso da Polícia Federal. É nítida a escalada do Judiciário sobre o presidente.

É cristalina também a desfaçatez de Bolsonaro. Ele desdenhou da decisão de Moraes, reiterou a mentira segundo a qual as eleições estão sujeitas a fraudes porque a contagem dos votos é feita "por meia dúzia de pessoas" em uma "salinha secreta", disse que as Forças Armadas o apoiam e voltou a insultar Luís Roberto Barroso, o presidente do TSE.

A velha tirada do Churchill, sobre a democracia ser o pior regime imaginável com exceção de todos os outros, poderia ganhar uma versão brasileira: até um simulacro de democracia é preferível à autocracia informal que Bolsonaro implanta no Brasil. O presidente já aparelhou a Polícia Federal, imobilizou a Procuradoria-Geral da República, trancou as gavetas da Presidência da Câmara e venezualizou as Forças Armadas.

Agora, o presidente age para desmoralizar o Judiciário. Nesse ambiente, ou a força do direito prevalece sobre a presunção de Bolsonaro de que dispõe do direito de se impor pela força da empulhação ou avacalha-se o que restou da democracia brasileira.

Por Josias de Souza

NO BOLSONARISTÃO, A DEMOCRACIA NÃO É INEVITÁVEL

Ao convocar os tanques para uma demonstração de força, Jair Bolsonaro seguiu o roteiro perfeito de ditadores e regimes que, com sua legitimidade cada vez mais questionada, usam os músculos do estado como se fossem seus.

Músculos que são convocados como provocação aos princípios de uma democracia. Atos que mais pertencem às imagens desbotadas de ex-repúblicas soviéticas paradas no tempo, estados falidos ou líderes megalomaníacos que abandonaram suas populações à morte.

As sirenes são ensurdecedoras: há um golpe em andamento. Mas ele não vem por conta da presença dos tanques prometidos para esta semana. Isso é apenas a parcela decadente e desesperada de um Bolsonaristão arrasado por suspeitas de corrupção, pandemia e estagnação.

O golpe mais eficiente vem de um desmonte institucional que, longe das câmeras e das redes sociais, ocorre desde o primeiro dia de governo, fechando espaços para a sociedade civil, impedindo o acesso à informação, difundindo mentiras, minando os demais poderes, restringindo direitos, armando suas milícias e ameaçando diariamente o estado de direito.

No Bolsonaristão, a prova é dada diariamente é que a democracia não é inevitável. Que ela não está em nosso certificado de nascimento e que temos de lutar diariamente por ela, inclusive em seu momento de mais solidez.

Há quase 20 anos, numa conversa com o jornalista Jamil Chade, do UOL, o então secretário-geral da OTAN, Javier Solana, confessou que estava "aliviado" com o fato de que o Brasil fosse um dos pilares da democracia Ocidental. E insistia: não havia mais risco algum de uma reviravolta.

Talvez nosso maior erro foi achar que ele - e tantos outros líderes - estavam certos em afirmar que nossa democracia estava consolidada.

O gigante que descobriu petróleo, retirou milhões da linha da pobreza, estabilizou a moeda, lidou com a inflação e buscou protagonismo mundial tinha pés de barro.

Questões fundamentais que servem de base para qualquer democracia não tinham sido resolvidas: a desigualdade, a fragilidade das instituições, o racismo e a pedra que se colocou no passado, na torcida para que aquele momento simplesmente desaparecesse sozinho.

Hoje, nossa geração tem de assumir a tarefa de colocar um limite ao desmonte. Adiamos debates sobre nossa essência como nação e fizemos reformas incompletas e repletas de lacunas. Com um inconsequente no poder, toda a obra inconclusa da democracia foi desnudada. E a erosão passou a ser uma realidade.

Muito já foi escrito sobre "como morrem as democracias". Já entendemos, infelizmente. Mas chegou a hora de instaurar outro debate: como renascem as democracias.

Por Jamil Chade

PROMESSAS

Na campanha eleitoral de 2018, o então candidato Jair Bolsonaro prometeu uma nova política e uma nova ética pública. Além de acabar com a corrupção e o mau uso do dinheiro público, o seu governo iria promover uma rigorosa aplicação da lei. De acordo com o tom das promessas, a impunidade teria seus dias contados. Agora, três anos depois, todo esse discurso soa não apenas muito distante, como ele parece ser a exata antítese do que vem ocorrendo. Em vez de promover o cumprimento da lei, o governo de Jair Bolsonaro vê-se envolto em novas suspeitas de desrespeito à lei. A cada dia surgem novas investigações sobre o comportamento do próprio governo federal.

ISOLADO

O presidente Jair Bolsonaro deu uma demonstração cabal de seu profundo isolamento político e de sua fragilidade como governante. A título de exibir força e reafirmar sua condição de comandante das Forças Armadas, Bolsonaro ordenou que a Marinha realizasse um desfile com veículos blindados no coração de Brasília, no dia em que estava programada, na Câmara, a votação da chamada PEC do Voto Impresso. Tratou-se de evidente tentativa de intimidar os parlamentares e, de quebra, as Cortes superiores, que têm sido o esteio da resistência à escalada autoritária de Bolsonaro. Se pretendia fazer as instituições democráticas se acoelharem, contudo, Bolsonaro fracassou.

A reação do Congresso foi imediata e dura. Mesmo o presidente da Câmara, Arthur Lira, que tanto tem se esforçado para minimizar os atos insanos e antidemocráticos de Bolsonaro, admitiu que a realização de um desfile militar em Brasília no momento em que a Câmara votaria matéria de profundo interesse do presidente foi “uma coincidência trágica”, que, “num país polarizado, dá cabimento para que se especule algum tipo de pressão”.

Já o presidente da CPI da Pandemia, senador Omar Aziz, usou as palavras corretas: “Todo homem público, além de cumprir suas funções constitucionais, deveria ter medo do ridículo, mas Bolsonaro não liga para nenhum desses limites, como fica claro nessa cena patética, que mostra apenas uma ameaça de um fraco que sabe que perdeu”.

O diagnóstico é preciso. Ao dar a ordem para que o comboio da Marinha, parte de uma operação militar rotineira, fosse usado em uma constrangedora encenação cesarista, Bolsonaro provavelmente reduziu ainda mais as escassas chances que tinha de aprovar a tal PEC do Voto Impresso. Ao saber-se sem votos, Bolsonaro apelou para os tanques. Com isso, Bolsonaro desmoralizou (ainda mais) as Forças Armadas, que imprudentemente se deixaram enredar pelo governo daquele que, como todos sabem, saiu do Exército como mau militar.

Quando, em março, Bolsonaro trocou intempestivamente os comandantes das Forças Armadas e o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, porque estes haviam se recusado a transformar os quartéis em linha auxiliar do bolsonarismo, já deveria ter ficado claro que o presidente não se deixaria constranger por qualquer limite da Constituição e do bom senso. Quando o novo ministro da Defesa, Braga Netto, a quem cabe gerenciar as Forças Armadas, mandou dizer ao presidente da Câmara que ou se aprovava a PEC do Voto Impresso ou não haveria eleições em 2022, a escalada autoritária ficou ainda mais explícita.

Nesse contexto, o espetáculo deprimente organizado por Bolsonaro e seu ministro da Defesa em Brasília serviu apenas para confirmar o que já estava evidente para todos os brasileiros: o presidente é hostil à democracia. Não há volta para um gesto truculento como esse, que foi além das já habituais agressões e mentiras do presidente contra ministros do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral.

O desfile militar realizado em meio a ameaças de golpe não dará um único voto a mais para o presidente no Congresso nem muito menos reverterá julgamentos contra ele nas Cortes superiores, mas, a esta altura, o mais provável é que Bolsonaro tenha outro objetivo em mente: manter seus camisas pardas em estado de mobilização permanente e estimular a confusão nas Forças Armadas para tumultuar as eleições do ano que vem. Ao presidente parece importar pouco, a esta altura, que seus tresloucados gestos e discursos façam o País parecer mais e mais com uma república bananeira, para vergonha internacional. Bolsonaro escolheu o caminho do confronto, o único que conhece, e nessa aventura liberticida ele só dá ouvidos aos urros de seus fanáticos seguidores, excitados com a visão de tanques na rua.

Como comentou o ex-ministro da Defesa Raul Jungmann, esse despautério de Bolsonaro se presta a criar a ilusão de que as Forças Armadas, instituições de Estado, existem para defendê-lo, mas tal ilusão “se voltará contra ele e provocará sua derrota”. Que assim seja

Por Estadão

REPÚBLICA DE BANANAS

Reública de bananas

FANFARRÕES DE REDES SOCIAIS

Após ter a prisão preventiva decretada, o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB) usou uma conta alternativa no Twitter para se queixar da determinação: “Vamos ver de onde parte essa canalhice”, escreveu. Na sequência, o político chamou o ministro Alexandre de Moraes de “cachorro do STF” e relacionou as ações do Supremo às da Venezuela. Roberto Jefferson tem usado um perfil alternativo na rede social desde que a conta oficial foi retida pela plataforma.

Filha de Roberto Jefferson, a ex-deputada federal Cristhiane Brasil afirmou que “o bando de escroto que mandou prender meu pai, sabe-se lá porquê [sic], vai pagar caro”.

O ministro Luiz Eduardo Ramos afirmou, há 10 dias, que Roberto Jefferson era “um soldado na luta pela liberdade do nosso povo e pela democracia” do Brasil.  Recebi hoje a visita do Presidente do PTB, Roberto Jefferson. Mais um soldado na luta pela liberdade do nosso povo e pela democracia do nosso Brasil”, publicou Ramos em uma rede social, em 3 de agosto, após receber Jefferson no Palácio do Planalto.

ESQUENTOU

O clima esquentou tanto ontem, no depoimento de Ricardo Barros à CPI da Covid, que a sessão foi encerrada antecipadamente. Os senadores avaliaram que o líder do governo Bolsonaro na Câmara mentiu em mais de uma ocasião e decidiram consultar o Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o que fazer quando um depoente que é parlamentar falta com a verdade diante da comissão. O deputado voltará à CPI na condição de convocado (quando a presença é obrigatória), e não mais convidado. 

Barros, envolvido até o talo nas denúncias de irregularidades na compra de vacinas, optou pelo contra-ataque: chegou seguro à oitiva e não pareceu se constranger ao levantar categoricamente argumentos frágeis em sua defesa. Minimizando as acusações sobre o caso Covaxin, disse que o aparecimento de seu nome nas acusações é um mero “mal-entendido”.

Segundo ele, Bolsonaro teria sido induzido a citar seu nome na famigerada conversa com o deputado Luis Miranda (DEM-DF), na qual o parlamentar alega ter alertado o presidente sobre a pressão atípica para o fechamento do contrato para compra da Covaxin. Barros  disse que o deputado abordou Bolsonaro tendo em mãos uma reportagem que trazia uma foto sua. “Ele, Luis Miranda, levou ao presidente a minha fotografia numa matéria do caso Global e, provavelmente, é a esse fato que o presidente se referiu”, disse. A versão de Miranda, já bastante conhecida, é bem diferente: ele relata que Bolsonaro teria “olhado em seus olhos”, entendido a gravidade da situação e, espontaneamente, mencionado Barros. 

O tom subiu ainda mais quando o líder de Bolsonaro na Câmara acusou a CPI de dificultar a compra de vacinas, o que irritou os senadores da oposição. Ele chegou a exemplificar – e ser prontamente desmentido – com a farmacêutica chinesa Cansino, que, segundo ele, “não tem mais interesse em vender [imunizantes] para o Brasil”. Pouco depois, o vice-presidente de negócios da Cansino afirmou ao Valor que a empresa continua interessada em fechar contrato com o Ministério da Saúde. 

Também contraditória foi a fala de Barros sobre a ação por improbidade administrativa ajuizada contra ele em 2018, quando ainda estava à frente do Ministério. Na época, um contrato com a empresa Global deixou desamparados pacientes que dependiam do recebimento regular de medicamentos para sobreviver. Ao menos 14 pessoas morreram, quando, por falta de registro legal, a Global não entregou os remédios contratados pelo Ministério da Saúde. Mesmo assim, a pasta pagou R$ 19 milhões à empresa. Depois de longo atraso, os medicamentos foram entregues apenas parcialmente. 

Para lembrar: a Global pertence a Francisco Maximiano, que também é dono da Precisa Medicamentos, a empresa que está na mira das investigações do caso Covaxin. Quando questionado, Ricardo Barros apenas afirmou que as mortes em questão não estavam relacionadas ao desabastecimento de medicamentos. Uma resposta, no mínimo, frágil. O coletivo Aliança Rara, que reúne associações e movimentos de apoio a pessoas com doenças raras, divulgou nota repudiando as declarações de Barros e o responsabilizando pelas vidas perdidas. “​​O ex-ministro joga sobre os pacientes a responsabilidade por esse custo e nós o responsabilizamos pela morte de dezenas de pessoas com doenças raras por conta dos atrasos na compra e entrega de medicamentos, em ostensiva desobediência a sentenças judiciais​”, diz a nota.

KIT LUCRATIVO

De um lado, R$ 717 mil gastos em anúncios publicitários para promover o tratamento com ivermectina. Do outro, zero reais para realização de estudos que pudessem comprovar a eficácia do medicamento para o tratamento contra a covid. Essa foi a conta apresentada por Jailton Batista em seu depoimento à CPI da Covid.  Segundo Batista, o dinheiro patrocinou o manifesto assinado por médicos em defesa do “tratamento precoce” publicado em diversos jornais do país em fevereiro. Além disso, a agressiva estratégia de marketing contou com promoção de eventos e participação em lives. 

O empresário, que é diretor do Vitamedic – laboratório cujo carro-chefe é o famigerado medicamento incluído no “kit covid” – contou também que os lucros da empresa dispararam durante a pandemia. De R$ 15,7 milhões em 2019, os números chegaram a R$ 470 milhões no ano passado. Com tanto lucro, eficácia pra quê?

Falando em CPI, o depoente de hoje será Ricardo Barros. O líder do governo na Câmara e ex-ministro da Saúde será ouvido sobre as suspeitas de irregularidades no caso Covaxin. Como se sabe, as acusações feitas pelo deputado Luís Miranda dão conta de que Bolsonaro, ao ser informado sobre os estranhos procedimentos adotados nas negociações para compra do imunizante indiano, teria dito que “isso é rolo do Barros”. 

ELO PERDIDO

Entre empresas duvidosas, vendedores inusitados, militares, lideranças religiosas, ONGs e o alto escalão do governo Bolsonaro, começam a se desenhar alguns dos caminhos percorridos nas estranhas negociações para compra de vacinas contra a covid-19. Na terça (11), o coronel da reserva Helcio Bruno de Almeida admitiu em depoimento à CPI da Covid ter sido a ponte entre a Davati e o Ministério da Saúde, garantindo a participação da intermediária em reunião com a alta cúpula da Pasta em março deste ano. 

Até agora, o que se sabia é que a ONG Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah), presidida pelo “reverendo” Amilton Gomes, era quem havia “aberto as portas” do Ministério para a Davati Medical Supply, a empresa americana que ofereceu 400 milhões de doses de AstraZeneca ao Ministério sem autorização do laboratório. Mas não estava claro, exatamente, como a organização religiosa com nome de órgão público havia conseguido, em tempo recorde, uma agenda para a até então desconhecida empresa.

O elo perdido é justamente Helcio Bruno, coronel da reserva e presidente do Instituto Força Brasil (IFB), investigado no inquérito das fake news. Na oitiva de terça (11), ele disse que já tinha uma agenda pelo IFB com a Saúde quando o “reverendo” Amilton, em nome da Senah, lhe pediu que levasse a tiracolo para a reunião os vendedores que se diziam representantes da Davati no Brasil. 

Missão dada, missão cumprida: Helcio Bruno levou Cristiano Carvalho e Luiz Paulo Dominguetti para a reunião do dia 3 de março. Segundo o coronel, o objetivo da reunião era tratar da compra de vacinas pelo setor privado. Curiosidade: Domiguetti e Cristiano Carvalho pretendiam, pelo contrário, vender vacinas ao governo

Apesar do festival de fios soltos nessa história, a CPI não teve respostas a muitas de suas perguntas. É que o coronel se utilizou do direito de permanecer em silêncio, obtido no Supremo Tribunal Federal (STF). Ele se negou a falar sobre  a empresa Davati e seus representantes, sua relação com servidores do Ministério da Saúde, a Senah, o IFB e as suspeitas de participação em disseminação de fake news. O depoimento ficou restrito a relatar os fatos dos quais foi testemunha. 

O senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP), vice-presidente da comissão, chamou atenção para a cronologia de acontecimentos: uma semana após a reunião, que contou com a participação da alta cúpula do Ministério e, segundo Helcio Bruno, tratou da compra de vacinas pelo setor privado, foi aprovada em tempo recorde a lei 1425, a “Lei da Vacina”, que permite, com condições, a aquisição de vacinas pelo setor privado. “Acho que nós estamos com peças se encaixando”, disse o senador. 

BRASIL NO AQUECIMENTO

Em meio à imensa repercussão do novo relatório do IPCC (o Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), uma reportagem do G1 enumera tudo o que o governo brasileiro tem feito – na verdade, deixado de fazer – para cumprir o Acordo de Paris. Em dezembro do ano passado, quando todos os países signatários apresentaram novas versões dos seus compromissos assumidos em 2015, o Ministério do Meio Ambiente manteve na meta o mesmo percentual de redução definido cinco anos atrás: reduzir em 43% as emissões até 2030. E acrescentou a meta intermediária de chegar em 2025 com redução de 37% em relação aos níveis de 2005. 

Anunciou compromissos como o de zerar o desmatamento ilegal até 2030 (claro que há uma pegadinha – declarar por canetada qualquer desmatamento como “legal” resolve essa questão), reflorestar 12 milhões de hectares e assegurar 45% de fontes renováveis. Mas até hoje o governo não esboçou nenhum plano para alcançar essas metas. Antes de Bolsonaro assumir a presidência, um plano com prazos estava sendo construído pelo Meio Ambiente, mas a secretaria responsável pela manutenção das metas contra as mudanças climáticas foi extinta.

O físico Paulo Artaxo, autor-líder de um dos capítulos do relatório do IPCC e professor da USP, falou da tragédia brasileira ao Estadão:  “O Brasil tem dois aspectos importantes. O primeiro é o desmatamento da Amazônia, e o segundo é a falta de incentivos para a geração de energia sem emissão de carbono, energia eólica e solar. Não há programas consistentes de longo prazo para isso. O Brasil está perdendo uma oportunidade de ouro de se tornar um país sustentável e com isso ter uma liderança mundial do ponto de vista econômico. Isso claramente está acontecendo. E não é só o governo Bolsonaro, o Congresso Nacional é dominado por 60% de ruralistas, que vão sofrer os efeitos das mudanças climáticas, mas na filosofia desse pessoal, só conseguem pensar nos próximos quatro anos, talvez oito, o ‘meu mandato’. Depois disso não têm o menor compromisso com a sustentabilidade do planeta. E com as empresas é a mesma coisa: querem o maior lucro no menor tempo possível. Se não mudar isso, não tem o que fazer”.

A propósito: a OMS lembra que os sistemas de produção, embalagem e distribuição de alimentos geram nada menos que um terço das emissões de gases do efeito estufa hoje. 

SIGILO PRA QUÊ?

Como antecipou a Crusoé, o Ministério da Saúde impôs sigilo a todos os documentos que tratam da compra da Covaxin, que está no centro das investigações da CPI da Covid por toda sorte de suspeitas de irregularidades. A comissão, claro, já recebeu os documentos. Mas, agora, eles não podem mais ser acessados publicamente via Lei de Acesso a Informação. 

A justificativa é curiosa: segundo respondeu o Ministério, o acesso aos documentos estaria “suspenso e restrito” porque os papéis ainda estariam em “fase preparatória”, ou seja, tramitando internamente na Pasta. Mas foi a própria Saúde que anunciou, no fim de julho, que o contrato para aquisição da Covaxin, intermediado pela Precisa Medicamentos, havia sido cancelado. A dúvida sobre a finalidade do sigilo paira no ar…

MUDANÇAS À VISTA

Bolsonaro entregou à Câmara dos Deputados as propostas do chamado Auxílio Brasil, programa que substituirá o Bolsa Família. E, pelo que se sabe até agora, a estrutura da política de transferência de renda irá mudar. 

O programa é uma das principais apostas do governo para a campanha de reeleição presidencial no ano que vem. Bolsonaro fez questão de ir pessoalmente à Câmara para apresentar o projeto, que, no entanto, ainda deixa em aberto um ponto crucial: o valor do benefício. A ideia é  que isso seja definido até o fim de setembro. O Planalto pretende, assim, pressionar o Congresso a aprovar as medidas orçamentárias que, segundo lógica de contingência de verbas para áreas sociais, são consideradas essenciais para “viabilizar” o auxílio. Segundo o governo, no entanto, a expectativa é que o valor médio das parcelas seja de R$ 300. 

Diferentemente do Bolsa Família, o Auxílio Brasil pretende ser uma espécie de “guarda-chuva” para distintos programas sociais e tipos de auxílio. Estão previstos o Auxílio Esporte Escolar; a Bolsa de Iniciação Científica Júnior; o Auxílio Criança Cidadã; o Auxílio Inclusão Produtiva Rural; o Auxílio Inclusão Produtiva Urbana; e o Benefício Compensatório de Transição, esses últimos buscando apontar vias de saída do programa. Também fazem parte benefícios à primeira infância, composição familiar e de superação da extrema pobreza.

BASTIDORES DA DIPLOMACIA

Telegramas internos do Itamaraty obtidos pelo colunista do UOL Jamil Chade dão mais uma dimensão de como o governo federal foi errático ao negociar vacinas. Os documentos tratam sobre a Covax Facility e mostram o país demorou a decidir entrar no consórcio porque não queria correr o risco de comprometer seus contratos bilaterais. No fim de agosto, a OMS indicou que haveria flexibilidade para os países que tinham contratos direto com as farmacêuticas, e só então o Brasil confirmou sua adesão. A preocupação até faria sentido se não fosse o fato de que, justo naquele momento, o empenho brasileiro para garantir a efetivação desses acordos bilaterais era quase nulo: a Pfizer e a CoronaVac eram esnobadas, e a única opção já certa era imunizante de Oxford/AstraZeneca. 

Como se sabe, em agosto do ano passado o Brasil chegou a dizer às autoridades internacionais que ficaria com 86 milhões de doses de imunizantes via Covax (suficientes para imunizar 20% da população), mas, no mês seguinte, reduziu o pedido à metade. Ao reconstruir essa linha do tempo, os telegramas indicam alguns alertas feitos pelo Itamaraty – que, entre outros pontos, punha em dúvida a segurança das vacinas que seriam aprovadas e oferecidas.

Meses depois, o Planalto acertou a compra de doses da Covaxin, por um preço 50% mais alto do que o oferecido pela Covax.

COINCIDÊNCIAS

As suspeitas sobre os contratos de empresas investigadas pela CPI com o Ministério da Saúde não param de crescer. Já comentamos aqui que a Precisa Medicamentos, alvo das investigações no caso Covaxin, havia sido questionada antes por outra negociação com a Pasta, referente ao fornecimento de preservativos femininos. 

Destrinchado em reportagem da Folha, o contrato envolveu um conjunto de procedimentos, digamos, familiares. Quebra de cláusulas contratuais, atraso na entrega dos produtos, recebimento de notificações do Ministério sobre possibilidades de sanções, preços inflados em relação aos praticados no mercado internacional e por aí vai… 

Esse é o terceiro de uma série de contratos firmados entre a Precisa e a Saúde para a venda de preservativos, de 2020. Os outros dois são de 2018 e 2019. Somados, os três totalizam R$ 102,3 milhões recebidos pela empresa do governo federal . Os dados são do Portal da Transparência, citados pela Folha. O último acerto ocorreu ao mesmo tempo em que as negociações da Covaxin andavam a todo vapor. 

QUEM SERÁ O BOB?

E tem mais: repercutiu, após reportagem d’O Globo, a existência de uma espécie de manual das negociações ilegais no Ministério da Saúde, de novo envolvendo a Precisa. É que mensagens que WhatsApp que estão sob posse da CPI e foram obtidas pelo jornal mostram Danilo Trento, diretor institucional da empresa, enviando um “passo a passo” a um lobista de Brasília

O manual instrui o lobista a atuar para acelerar as negociatas no Ministério. Nas mensagens, Trento orienta o lobista e explica como uma pessoa chamada por ele de “Bob” atuaria dentro da Pasta, para acelerar a trativa de compra de 12 milhões de kits de reagentes para exames de Covid-19. 

As mensagens estão no relatório da Controladoria-Geral da União (CGU) que apurou irregularidades na Saúde, e o órgão acredita que “Bob” seria mesmo Roberto Dias, o ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde que já está envolvido até o pescoço com suspeitas de irregularidades no Ministério. 

Por Outra Saúde

GENTE DE BEM

Um estudante de medicina, de 23 anos, foi xingado, agredido e ameaçado por um policial militar na noite do último dia 9, no bairro Parque Acalanto, na capital goiana. Vídeos de um celular e uma câmera de monitoramento mostram quando o militar, que estava no horário de folga, agride o jovem com um tapa e saca a arma. Em outro momento ele chama o estudante de “viadão”. A vítima, que se identifica como Lucas Dourado nas redes sociais, denunciou a violência que sofreu e escreveu um texto agradecendo o apoio que teve. Em nota, a Polícia Militar de Goiás (PMGO) informou que determinou o afastamento do policial de suas funções operacionais e instaurou um procedimento administrativo disciplinar para apurar o fato.

AMANTE

NAS ASAS DA MAMATA

“Jair e Michelle se casaram no civil em Brasília, no dia 28 de novembro de 2007, uma quarta-feira. Sem alarde, rubricaram os papeis em um cartório na W-3 Sul, em Brasília. (...) No dia seguinte ao matrimônio, o deputado e a esposa viajaram para Foz do Iguaçu (PR). Pegaram um voo da companhia aérea Gol, com parada em Curitiba. Os bilhetes custaram R$ 1.729,24, em valores da época, quitados com a quota parlamentar – verba destinada a ressarcimento de gastos do mandato dos congressistas”. Ou seja: foi a Câmara dos Deputados que pagou as passagens da viagem de lua de mel do casal hoje formado pelo presidente Jair Bolsonaro e pela primeira-dama, Michelle.

E não foi a única vez que a família do presidente se valeu do dinheiro público para fazer viagens particulares. Seus filhos parlamentares foram a praias do Nordeste e de Santa Catarina com passagens pagas pelo Congresso, levando as suas parceiras. Seu filho Jair Renan também. E familiares de Michelle Bolsonaro. E o presidente não está na lista de parlamentares que devolveram o dinheiro do erário usado para turismo.

Em detalhes, a história é contada no livro Nas Asas da Mamata – A história secreta da farra das passagens no Congresso Nacional, publicado pela Editora Matrix, que será lançado na próxima terça-feira (17). Com novos capítulos além do que foi revelado na série de reportagens em 2009. A história que envolve o casal hoje formado pelo presidente e pela primeira-dama é um dos novos episódios exclusivos que Eduardo Militão, Eumano Silva, Lúcio Lambranho e Edson Sardinha – os autores tanto das reportagens originais quanto do livro agora – contam na edição.

BATENDO PALMAS PRA MALUCO DANÇAR

Em pouco mais de 10 minutos de palestra, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), convidado para o Simpósio Cibernético de Mike Lyndell, em Sioux Falls, nos Estados Unidos, desfiou um rosário de fake news sobre fraudes nas urnas eletrônicas no Brasil para uma plateia de entusiastas da extrema-direita americana. O objetivo do simpósio é discutir supostas fraudes eleitorais nas eleições de 2020, na qual Joe Bidden derrotou Donald Trump. Para dar o clima do evento, o próprio organizador alardeou que o simpósio havia sido hackeado horas antes do início. Ao lado de Steve Bannon - ex-estrategista de Donald Trump - e do empresário Mike Lyndell, mais conhecido como My Pillow, Eduardo  foi anunciado à audiência  como o filho do "Trump dos Trópicos".

No seu repertório, para provar a suposta insegurança das urnas eletrônicas brasileira, ele, assim como o pai, não apresentou nenhuma prova. Segundo ele, para justificar sua desconfiança, o TSE também não teria como provar que não houve fraude.

OPCIONAL

Que o presidente Jair Bolsonaro insiste em não usar máscara de proteção, seja em ambientes abertos ou fechados, não é nenhuma novidade. Um fato durante cerimônia no Palácio do Planalto, na quinta-feira (12), com o chefe do Executivo, no entanto, chamou a atenção.  Durante o evento de “Cumprimentos aos Oficiais-Generais Promovidos”, o mestre de cerimônias oficial do Planalto, Lademir Filippin, falou ao microfone para todos os presentes: “Informamos que o uso de máscaras nessa cerimônia…”.  Após uma breve pausa, emendou: “é opcional”. Boa parte das pessoas que estavam na cerimônia de fato não usava máscara. Bolsonaro só usou a proteção no início do evento. Depois, a retirou. Apesar do mestre de cerimônias ter “oficializado” o negacionismo, o uso da proteção segue sendo obrigatório por lei tanto no Distrito Federal como em todo o país.


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