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Sexta-Feira 03.dez.2021

Ano X - Nº 469

Cultura e Entretenimento

Festa de Nossa Senhora dos Navegantes e Festa do Divino são registradas como Patrimônio Imaterial de MS

Ambas fazem parte do patrimônio cultural e religioso do Estado

Postado em 11 de Agosto de 2021 - Redação Semana On

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O Conselho Estadual de Políticas Culturais aprovou o Registro da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, em Bataguassu, e a Festa do Divino de Santa Tereza, no município de Figueirão, como Patrimônio Imaterial de Mato Grosso do Sul.

A Festa do Divino

Com a inserção no livro das Celebrações do Patrimônio Imaterial, a Festa do Divino Espírito Santo de Santa Tereza, no Município de Figueirão é reconhecida como uma manifestação cultural religiosa popular e oral, pois envolve os moradores da comunidade onde o passado, os moldes e normas seguidas pela celebração são veiculados pela memória e costumes coletivos.

A festa acontece na fazenda Santa Tereza, da família Malaquias, região da Pontinha do Cocho, em Figueirão. Esse município teve a população estimada em 3.059 pessoas, segundo censo IBGE (2020). A festa é divulgada e frequentada por turistas, festeiros, pesquisadores, produtores culturais, gestores de cultura, jornalistas, artistas, pagadores de promessas, religiosos, políticos e todo tipo de público. Com sua participação, valorizam e mantém essa manifestação cultural viva, além de divulgar o município, colaborando com o desenvolvimento local e a fruição desse Bem Cultural Imaterial.

A festa nesta região deu-se com uma promessa. Seu Domingos Malaquias, filho de Joaquim Malaquias da Silva, conta que tudo começou quando a segunda mulher de seu pai, dona Maria Francelina de Jesus, fez uma promessa por causa de uma epidemia de febre amarela. Seu Domingos ainda hoje é responsável por comandar o evento na comunidade, pagando a promessa todos os anos pela graça alcançada com o remédio para febre amarela salvando muitas pessoas da morte.

Seu Ereduzino Malaquias, chefe do giro e filho de Joaquim Malaquias, fundador da região, conta que cada integrante da comunidade tem uma atribuição, seja na organização, na limpeza ou na cozinha. Todo ano, ao fim da festa, é feito um sorteio que determina quem irá trabalhar no ano seguinte. A fé mantém a tradição do povo há mais de 100 anos.

As etapas da festa

O sorteio do festeiro é realizado em reunião com os foliões no dia da páscoa, para fazer a demarcação do percurso que acontece 50 dias após a Páscoa. Os participantes passam de fazenda em fazenda a cavalo; a comida é gratuita, oferecida pelo dono do pouso. Levam somente rede, cobertor e capa de chuva. São ao todo 14 dias de viagem, chegam muitas pessoas após o término de cada percurso, foliões, promesseiro e até crianças.

A comitiva convida o Seu Ereduzino para a festa e pedem pouso por cantoria (2 cantam e 2 respondem). Agasalham o santo, rezam o terço, pela manhã tomam café, juntam a tropa e pedem a bandeira por cantoria. A toada é uma só, mas a cantoria é diversa como um repente. Foliões e promesseiros acompanham a festa. A rapadura de cana e mamão é um dos alimentos especiais preparados e ofertados.

São mais ou menos 120 pessoas envolvidas na Festa do Divino de Figueirão. No dia é servido o puchêro e a janta é o churrasco. Ao final, a entrega da bandeira para o festeiro que vai guardá-la para a próxima festa, no próximo ano. A tropa é liberada após a missa, reza cantada do Santo Terço com a queima da fogueira e a apresentação da catira.

Alguns moradores locais relatam que a catira foi trazida para a região por boiadeiros vindos de Goiás e Minas Gerais que, ao permanecerem vários dias no lugar, faziam suas rodas de catira. A família Malaquias foi aprendendo paulatinamente os passos e o domínio dos instrumentos musicais. Atualmente, as modas predominantes no catira são copiadas das duplas sertanejas Tião Carreiro e Pardinho ou Vieira e Vieirinha. Em algumas ocasiões os Malaquias chegam a compor seus próprios cantos, como a moda “Dezenove de Maio”, criada pelos violeiros da folia, para festejar o Senhor Divino.

No intervalo das modas, há uma rodada de água ardente (pinga), cuja garrafa é deixada no centro entres as fileiras. Todos tomam a bebida na própria garrafa, passada de mão em mão, ou de boca em boca. O sapateado e o palmeado também sofrem variações criadas por eles a cada ano, com o objetivo de melhorar o desempenho e testar agilidade cada vez mais complexa. Não é qualquer pessoa que pode dançar o catira no dia da festa. Os dançadores são convidados um a um, momentos antes da dança começar.

Em 2021, comemoram-se 112 anos de atuação da comunidade em Santa Tereza e da família Malaquias carregada de simbolismos e rituais religiosos de muita fé. A Fundação de Cultura conclui que a Festa do Divino Espírito Santo de Santa Tereza não se eterniza apenas pela devoção, pela execução das músicas, pela comida, pela bebida ou pelo bate pé e bate mãos. Pode-se afirmar que o conjunto dessas práticas culturais permite ainda hoje a partilha, o encontro e a união entre as pessoas, as famílias, o grupo de foliões, que todo mês de maio se reúnem para agradecer e celebrar a vida.

A festa de Nossa Senhora dos Navegantes

A Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, em Bataguassu, acontece desde meados do século XX, nas águas do Rio Paraná, por conta de uma promessa realizada em favor do regresso de um combatente da Segunda Guerra Mundial. Essa prática cultural une religiosidade a características geográficas do distrito de Nova Porto XV. Devido a inundação causada pela construção de uma hidrelétrica, o antigo Distrito XV de Novembro, foi obrigado a se deslocar de seu lugar de origem, a 12 km da margem antiga, formando o reservatório de Porto Primavera.

Desde 1948 a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes tem reunido sua comunidade que a mantém viva apesar de seu território ter sido modificado de forma compulsória e, ainda, que tenha perdido força e grandiosidade devido a inúmeros fatores. Por isso, é salutar o reconhecimento da festa do distrito de Nova Porto XV enquanto patrimônio cultural imaterial do Estado de Mato Grosso do Sul, tendo com isso um papel fundamental para a preservação e salvaguarda de uma das mais importantes e representativas celebrações religiosas da região.

A celebração religiosa acontece de 06 a 15 de agosto, com culminância na manhã do dia 15, ocasião que acontece o trajeto fluvial rumo à margem paulista de Presidente Epitácio. A festa, tradicional nas duas cidades envolvidas, conta com comissão organizadora que trabalha em conjunto para dar conta de extensa programação ao longo dos dias que antecedem a procissão fluvial, ápice do evento. A prefeitura disponibiliza ônibus que sai da Praça Manoel Cecílio de Lima para que a população de Bataguassu possa prestigiar o evento no distrito, e além da celebração religiosa, conta com queima de fogos, praça de alimentação com culinária envolvendo os pescados da região e parque de diversões.

Ainda que a mais significativa mudança da festa tenha sido geográfica, não há como negar que o ritmo musical também não seja o mesmo: o forró deu lugar ao sertanejo. Além disso, a quantidade de barcos que acompanham a procissão pelas águas do Rio Paraná diminuiu com o passar do tempo. Apesar das vicissitudes, a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes continua viva, unindo a comunidade do Distrito de Nova Porto XV há mais de 70 anos, com seus andores, orações, hinos e shows de música.


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