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Domingo 22.mai.2022

Ano X - Nº 488

Poder

Senadores reagem contra uso da PF por Bolsonaro para intimidar CPI da Covid

PF abre inquérito contra comissão e senadores prometem ir ao STF para ‘trancar’ ação. ‘Tentativa de Bolsonaro e seu governo é transformar a PF em polícia política’, diz Randolfe Rodrigues

Postado em 06 de Agosto de 2021 - Eduardo Maretti - RBA

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A cúpula da CPI da Covid promete reagir às investidas do governo Jair Bolsonaro, que tenta pressionar e intimidar os trabalhos da comissão usando inclusive a Polícia Federal (PF). No último dia 4 – durante depoimento do ex-assessor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, o coronel Marcelo Blanco – surgiu a informação de que a PF abriu inquérito para apurar suposto vazamento de depoimentos sigilosos enviados pela corporação à CPI. As investigações da PF em questão são referentes à vacina Covaxin. O vice-presidente do colegiado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), acatou sugestão do senador Fabiano Contarato (Rede-ES) para que a comissão entre no Supremo Tribunal Federal com habeas corpus para “trancar” o inquérito.

O senador anunciou também que pedirá ao presidente do Congresso Nacional, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), “para que sejam tomadas as providências devidas contra o senhor ministro da Justiça (Anderson Torres) e contra o diretor geral da Polícia Federal (Paulo Maiurino)”. Segundo ele a Lei 1.579, de 1952, caracteriza como crime “impedir ou tentar impedir, mediante violência, ameaça (…)”, o funcionamento de CPI. “Acho que o ministro da Justiça deve se chamar Anderson Torres, não Franz Gürtner, afirmou Randolfe, citando ministro da Justiça de Adolf Hitler.

Os senadores do G7 – grupo de oposição ao governo que compõe a CPI da Covid – demonstraram indignação. A tentativa de Bolsonaro e seu governo é “transformar a PF em polícia política”, afirmou Randolfe. Para Otto Alencar (PSD-BA), “a estrutura do governo está montada para proteger depoentes como Marcelo Blanco”. “O governo treina esse pessoal para que venha aqui fazer esse ato cênico deplorável de mentir.” O parlamentar baiano disse também que a CPI está ouvindo “uma corporação de mentirosos”. Em coletiva após a oitiva, o relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL), disse que “o Brasil virou cemitério do mundo”.

Coincidência?

Os senadores de oposição e independentes consideraram “estranha” a coincidência entre o anúncio do inquérito da PF sobre supostos vazamentos da CPI e uma acusação feita pouco antes pelo senador bolsonarista Marcos Rogério (DEM-RO) – com sua habitual tática de tumultuar as sessões. O governista denunciou o que chamou de um “gabinete digital paralelo” da CPI que repassaria documentos sigilosos a internautas. A intervenção do aliado de Bolsonaro e o inquérito da PF provocaram reação incomum do normalmente cordial presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM).

Segundo Aziz, a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) do governo boicota a CPI da Covid ao não enviar informações ou enviá-las incompletas. “Não vejo dos órgãos, a não ser do ministro Alexandre de Moraes (do STF), rapidez para investigar fake news que mataram brasileiros. Não existe inquérito contra a senhora Mayra Pinheiro (ainda secretária de Gestão do Trabalho e Educação em Saúde). Ela foi no meu estado e na cidade de Manaus e lá levou a morte a centenas de amazonenses. Em vez de nos dar oxigênio, nos deram cloroquina. Não vi até agora ninguém representar contra essa senhora”, disse Aziz. “É um claro crime contra a vida.”

Bate-boca: Aziz x Marcos Rogério, o pitbull

Antes, o presidente da CPI reagiu à insolência de Marcos Rogério. “Onde o senhor não vê corrupção, a gente vê corrupção passiva. Onde não vê administração caótica, eu vejo, e o Brasil está vendo”, disse o presidente. Ele citou como “exemplo de caos” o fato de Onyx Lorenzoni ocupar quatro ministérios em pouco mais de dois anos e meio de governo: Casa Civil, Cidadania, Secretaria-Geral e agora, Emprego e Previdência, pasta recém-criada apenas para acomodar o aliado de Bolsonaro. “É o maior quebra galho que tem no Brasil hoje”, acrescentou.

“Aqui não tem otário, não”, prosseguiu Aziz dirigindo-se a Rogério. “Vossa excelência não é nenhum menino para acreditar em conto da carochinha, rapaz”, prosseguiu. O bolsonarista tentou interromper: “quando não agrada vossa excelência…”, mas foi cortado. Aziz aumentou o tom de voz: “Quando não agrada, não. Você quer desqualificar a CPI toda hora. Isso aqui que estamos mostrando é o governo que vossa excelência defende. Um governo desqualificado sim!”


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