Semana On

Segunda-Feira 16.mai.2022

Ano X - Nº 487

Brasil

Guedes imita Bolsonaro e ataca IBGE por revelar desemprego de 14,8 milhões

Desemprego, inflação e endividamento batem recordes no Brasil, tornando mais inseguro o dia a dia de famílias ainda sujeitas a uma pandemia mortífera

Postado em 05 de Agosto de 2021 - Leonardo Sakamoto (UOL), Estadão (Editorial) – Edição Semana On

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Copiando o comportamento do chefe, Paulo Guedes disse que o "termômetro" que mede o desemprego está quebrado só porque o tamanho da febre é constrangedor para ele. O ministro da Economia criticou a metodologia de cálculo usada pelo IBGE, no último dia 30, após o instituto divulgar que temos 14,8 milhões de pessoas procurando trabalho sem encontrar. Guedes disse que ele "está ainda na idade da pedra lascada".

Ironicamente, uma das principais características do período Paleolítico, que foi do surgimento dos primeiros hominídeos até uns 10 mil a.C., era que os seres humanos caminhavam o tempo todo em busca de sustento e abrigo. Mais ou menos como 14,6% da população brasileira, sob a sua gestão, neste momento.

O que nos leva a crer que não é o IBGE que ganhou ares de Idade da Pedra Lascada, mas, citando o economista Gil do Vigor, sob Guedes e Bolsonaro, o Brasil tá lascado.

O ministro reclamou que apesar do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) apontar um saldo positivo de 1,5 milhão de postos de trabalho no primeiro semestre deste ano, a Pesquisa Nacional por Amostra de domicílio (PNAD) Contínua, do IBGE, afirma que o país mantém 14,8 milhões de desempregados.

Diz que irá "rever" os procedimentos do instituto porque os métodos "não são os mais eficientes". E reclama de pesquisas realizadas por telefone durante a pandemia, por mais que o método tenha sido adotado pelas principais instituições em todo o mundo para evitar contaminação por covid-19.

O ministro não é burro, ele sabe que o Caged atua com empregos formais e a PNAD Contínua envolve a enorme massa de trabalhadores informais. Mas critica o indicador não por razões técnicas, mas políticas.

Segue assim os passos de Bolsonaro que, diante de altas taxas de desemprego, tem atacado não as suas causas, mas o IBGE, que informa o tamanho do problema. Voltando à metáfora do termômetro, é como se um médico, diante de uma febre, blasfemasse contra o aparelho ao invés de ministrar o remédio correto - médico que, aliás, deixou que o quadro do paciente chegasse a um estado crítico por sua omissão e negligência.

"Estamos criando empregos formais, e bastante, mês a mês, mas tem aumentado o desemprego por causa dessa metodologia do IBGE, que atendia ao governo da época. Esse tipo de metodologia, no meu entender é o tipo errado. Vou sofrer críticas do IBGE, mas eles podem mudar a metodologia", afirmou, em entrevista à CNN, no dia 8 de abril.

Para Guedes e Bolsonaro, a metodologia, que segue padrões internacionais, é errada porque não favorece o seu discurso. E, portanto, precisa ser mudada. Tal como Jair acusou o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) de mentir sobre o desmatamento na Amazônia porque as imagens de satélite não corroboravam as mentiras que ele contava.

Governo festeja o Caged e blasfema a PNAD Contínua

Como já disse aqui, governos autoritários, quando colocados contra a parede, reduzem a transparência de informações às quais a sociedade tem acesso a fim de adaptar a realidade à sua narrativa.

O ministro e o presidente afirmam que é impossível o Caged estar publicizando saldos positivos de contratações e o desemprego estar em um patamar alto. A reclamação não procede.

A taxa de desocupação depende de uma série de variáveis. Por exemplo, a quantidade de pessoas que já estavam procurando emprego sem sucesso. Mas também o montante que estava fora da força de trabalho e volta a procurar emprego ou inicia agora a busca pelo primeiro emprego.

Quem não está procurando emprego não é considerado desempregado pela metodologia da PNAD Contínua. Desempregado é quem está tentando encontrar emprego e não consegue. Ou seja, 14,8 milhões de pessoas. Quando a economia dá sinais de melhora, as pessoas voltam a procurar serviço. E, portanto, retornam à fila do desemprego se não encontram.

Com a volta paulatina de entrevistas presenciais, a PNAD Contínua pode apresentar alterações nos próximos resultados, mas a diferença não deve ser significativa. Ao mesmo tempo, os dados do Caged também estão sendo criticados por especialistas após mudança de metodologia promovida recentemente pelo governo, ampliando a base de referência. Ou seja, não são comparáveis e podem estar inflados.

Já virou folclore: toda vez que o Caged é divulgado, auxiliares de Bolsonaro têm feito festinha e tentado capitalizar nas redes sociais. Mas quando os dados da PNAD Contínua vêm a público, é só ranger de dentes e blasfêmias.

O negacionismo e as maracutaias do governo estenderam a gravidade da pandemia por mais tempo do que a média mundial. Ao lutar contra o isolamento social e demorar meses para comprar vacinas em número suficiente, ele manteve a covid-19 martelando a economia. Culpa governadores e prefeitos pela crise econômica oriunda da crise sanitária, mas é ele o arquiteto do desemprego prolongado.

Bolsonaro precisa parar de brigar com números e passar a trabalhar para ajudar a reduzi-los. De preferência, evitando projetos que reduzam proteções sociais e direitos trabalhistas em nome de gerar emprego, como tem sido a tônica da atual gestão.

Recordes sinistros

Desemprego, inflação e endividamento batem recordes no Brasil, tornando mais inseguro o dia a dia de famílias ainda sujeitas a uma pandemia mortífera, num país com vacinação atrasada e governo concentrado em arranjos políticos e objetivos eleitorais. As projeções da inflação ao consumidor já se aproximam de 7% em 2021, superando de longe o teto da meta, mas nenhum sinal de trégua aparece no mercado. Novos aumentos são prenunciados pela alta dos custos de produção, turbinados pelas cotações internacionais de matérias-primas, pelo encarecimento da energia e pela taxa de câmbio. Nem tudo chegará ao comprador final, mas algum repasse ocorrerá, como tem ocorrido, e assim o dinheiro já escasso ficará ainda mais curto.

O surto inflacionário hoje enfrentado pelos brasileiros é um dos legados da grande crise sanitária de 2020. Parte dos problemas é atribuível a desarranjos no sistema produtivo. A oferta de certos insumos e componentes industriais foi prejudicada e nem todos os desajustes foram corrigidos. Pelo menos as pressões daí derivadas devem ser temporárias. Mas, apesar desse adjetivo, a duração desses efeitos ainda é desconhecida. De toda forma, o aumento de custos continua intenso e dificulta qualquer previsão otimista.

Em junho, o Índice de Preços ao Produtor (IPP) foi 1,31% maior que no mês anterior. Em maio havia subido 0,99%. A alta acumulada no ano chegou a 19,11%. Em 12 meses atingiu 36,1%. Esses custos, também conhecidos como preços em porta de fábrica, são contabilizados apenas na indústria, sem impostos e sem frete. Na indústria de transformação esses preços aumentaram 0,76% em junho. A alta chegou a 8,76% na indústria extrativa. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As duas taxas acumuladas, no ano e em 12 meses, são recordes da série iniciada em 2014.

Também os preços por atacado (IPA) medidos pela Fundação Getulio Vargas (FGV) subiram muito, desde o segundo semestre de 2020, e em 12 meses aumentaram 47,53%, segundo o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) de junho. Esse indicador inclui também matérias-primas minerais e agropecuárias.

Só uma parcela dos aumentos mostrados pelo IPP e pelo IPA chega ao varejo de bens e serviços. Ainda assim, as altas de preços no atacado acabam atingindo o consumidor e corroendo seu orçamento, já muito precário no caso da maior parte dos brasileiros. Segundo a prévia da inflação oficial, os preços ao consumidor, no período de 15 de junho a 13 de julho, foram 0,72% maiores que no intervalo mensal imediatamente anterior. Essa foi a maior variação para esse período desde 2004 – mais um recorde sinistro. Os dados são do IPCA-15 de julho, divulgado no dia 23.

Essa onda inflacionária ocorre numa fase marcada por dois outros recordes negativos. O pior deles é o desemprego. No trimestre móvel encerrado em abril os desocupados eram 14,8 milhões, 14,7% da força de trabalho. Essa porcentagem, alcançada já no trimestre de janeiro a março, foi a mais alta da série iniciada em 2012.

Esse quadro se completa com o nível de endividamento familiar. Em abril, as famílias deviam ao sistema financeiro 58,5% de sua renda anual, uma taxa recorde no período a partir de janeiro de 2005. Excluídas as dívidas imobiliárias, sobrariam débitos equivalentes a 36% da renda – também um recorde nesse tipo de sequência. Em abril de 2020, a dívida total das famílias com os bancos estava em 49,2% de sua renda. Com a pandemia, as dificuldades aumentaram e os brasileiros buscaram empréstimos para sobreviver ou para pagar outros compromissos. O quadro seria muito diferente se tivessem tomado financiamentos para melhorar de vida, como em tempos de prosperidade. As informações são do Banco Central.

Os dois últimos recordes infernais – do IPP e do endividamento – foram divulgados na quarta-feira. No dia anterior, o presidente Jair Bolsonaro, distante dessa realidade, havia completado o acerto com o senador Ciro Nogueira, convidado para chefiar a Casa Civil e tomar conta do governo em nome do Centrão.


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