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Segunda-Feira 20.set.2021

Ano X - Nº 461

Coluna

Suor, garra e superação embalam o sonho da medalha olímpica

Os campeões que superam as batalhas da vida, as limitações do corpo e, principalmente, as desigualdades sociais

Postado em 05 de Agosto de 2021 - Theresa Hilcar

Reuters Reuters

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“Quando se sonha tão grande, a realidade aprende”. Esta frase é do belíssimo livro “O filho de mil homens”, do escritor português, Valter Hugo Mãe, que cai como uma luva nesta primeira semana de Olimpíadas. E apesar de não ser afeita aos esportes, e nunca consegui jogar nem peteca, considero o espirito olímpico uma das coisas mais bonitas que existe.

Aliás, a força interior que os atletas possuem ao superar cada desafio, me fez lembrar também do filme “Poder além da vida”, estrelado por Nick Nolte. No enredo, um talentoso ginasta, arrogante e bom vivant, prestes a disputar sua primeira Olimpíada sofre um acidente de moto. Com ajuda de um mentor, vai descobrindo que será necessário desapegar de várias coisas para se tornar um guerreiro pacífico.

O filme nos leva a crer que há algo superior que encontramos na concentração, numa conduta bem afastada daquela da nossa vida moderna, com seu hedonismo desenfreado. E o atleta não compete por medalhas, mas para vencer o seu destino e para viver cada momento como se fosse único

O surfista Ítalo Ferreira, potiguar, nascido e criado em Baía Formosa, é um belo exemplo de superação para mundo inteiro. O menino que chegou a surfar numa tampa de isopor conseguiu, além de outros prêmios, a medalha de ouro nos jogos de Tóquio.

Fernando Scheffer, 23 anos, ficou em terceiro lugar nos 200 metros livres, conquistando a medalha de bronze nas Olimpíadas em sua primeira participação nos Jogos. Com seu clube fechado por conta da Pandemia, recorreu a uma bicicleta ergométrica alugada e a halteres para não deixar o corpo parado. No começo de 2021, com o recrudescimento da crise sanitária, partiu para um sítio em Minas Gerais e foi treinar num açude.

O judoca gaúcho de 23 nos, Daniel Cargnin, trouxe o bronze para casa. Sua caminhada rumo ao pódio foi marcada por lesões em 2020 e até pela covid-19. Dedicando a vitória à mãe, ele contou: “.... Quando uma vez estava em um treino, pequeno, voltei chorando porque tinha apanhado muito. Ela falou: ‘não, Dani, vamos comer alguma coisa e amanhã é um novo dia.”

No skate street, modalidade que estreou este ano nas Olimpíadas, temos dois belos exemplos. Kelvin Hoefler, 27 anos, primeiro medalhista do Brasil em Tóquio e medalha de prata na categoria, quando criança era obrigado a andar de skate dentro de casa porque sua rua era de terra no Guarujá.

Além dele, tivemos a alegria de conhecer e vibrar com Rayssa Leal, a fadinha do skate, que aos 7 anos, viralizou na internet fazendo manobra chamada heelflip vestida com fantasia de fada, em uma calçada da cidade de Imperatriz, interior do Maranhão. Agora, aos 13 anos, traz a prata e o reconhecimento pela habilidade em cima das quatro rodinhas.

E o que dizer de Rebeca Andrade, primeira ginasta brasileira a conquistar uma medalha em Olimpíadas? Ela nasce numa periferia, entra no esporte através de um projeto social, negra, filha de uma empregada doméstica, seis cirurgias... vai lá e ganha uma medalha

É importante saber a história por trás das medalhas. O atleta que sobe no pódio – e mesmo os que não conseguem subir – são pessoas que têm dedicação e foco total naquilo que fazem. E a maioria é campeã também em superar as batalhas da vida, as limitações do corpo e, principalmente, as desigualdades sociais. A eles nossa profunda admiração. E um tantinho só de inveja.


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