Semana On

Quinta-Feira 19.mai.2022

Ano X - Nº 487

Coluna

O Tamanduá e outros Humanos

Multimundos nos rodeiam e pedem passagem

Postado em 05 de Agosto de 2021 - Ricardo Moebus

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Tantos encontros dos humanos com a potencia criadora, com o demiurgo originário, são descritos nas mais inúmeras histórias dos povos originários.

Conta Ailton Krenak, em uma de suas últimas tantas lives, que, em uma tradicional história do povo Krenak, o demiurgo teria deixado aqui esta criatura estranha que chamamos seres humanos e teria ido passar um tempo em outras bandas. Depois de muitos anos, a potencia criadora original sentiu saudades de nós, humanos, e quis voltar a nos ver, mas ficou intrigado com uma dúvida: no que teria se transformado aquela criatura que ele deixou por aqui? Teria se metamorfoseado em alguma coisa de bom? Ou alguma coisa terrível? Já que ele, como potência criadora, sempre soube que toda criatura, uma vez criada, seguia infinitamente em transformação, mutação, inacabamento, imprevisível até mesmo para ele criador original.

Por isso mesmo, resolveu voltar disfarçado, achou que seria mais seguro um bom disfarce neste reencontro com os humanos, e o melhor disfarce que lhe ocorreu então foi voltar como um tamanduá, como um grande tamanduá das savanas brasileiras chamadas Cerrado.

O criador original quando voltou, foi logo visto pelos antigos do povo Krenak, que foram logo rodeando e capturando o tamanduá, levando para a aldeia. Passada uma temporada ali no convívio, os Krenak perguntaram à potência criadora, então disfarçada  em tamanduá, o que ele estava achando disso tudo em que se transformou o povo krenak, depois de tanto tempo.

O criador original, neste momento na forma tamanduá, respondeu apenas mexendo sua exótica pata dianteira, com seus fortes dedos e longas garras, revirando o dedo, que seria como um polegar, para cima e para o meio, como quem diz: mais ou menos.

Mais ou menos, teria sido o veredicto da força criadora para o povo Krenak.

O que mais me impressiona nesta história Krenak é sua sabedoria de almejar alcançar o mais ou menos.

Em segundo lugar me comove que a força potência criadora se utilize mesmo de mil disfarces e fantasias infinitas, se metamorfoseando o tempo todo em todo tipo de criatura vivente, em todo tipo de terráqueo, nesta mascarada infinitamente criativa, nesta diversidade criativa inerente à vida, como nos lembra Emanuel Coccia.

Em terceiro, a história parece criar um sentimento do mundo no qual qualquer criatura pode ser, ou sempre será, o próprio Deus, a potência criadora original infinita, sob uma forma instante disfarce vivo.

Isto cria um sentimento de mundo, mas também uma atitude no mundo, a cada encontro nosso com outros viventes, é a própria criação, é o próprio resultado dos desdobramentos de nós mesmos, como criaturas, que está em jogo.

Neste mundo, habitado por disfarces vivos da potência criadora original, nosso cotidiano é tão intenso, rico, responsável e exigente, como um permanente encontro real e concreto com esta divindade original.

Certamente este outro modo de viver o mundo cria uma criatura humana que alimenta este mundo, com um tal respeito que reconhece em toda criatura vivente sua digna divindade.

Multimundos nos rodeiam e pedem passagem.


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