Semana On

Quarta-Feira 29.set.2021

Ano X - Nº 461

Entrevista

Pauta de costumes revela como guerra cultural é central para o radicalismo direitista

O pesquisador Ben Cowan analisa como a guerra cultural é o primeiro conflito que os radicais conservadores inscrevem para conquistar seus espaços na política

Postado em 02 de Agosto de 2021 - João Vitor Santos - IHU

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Atualmente, nem se ouve mais falar na chamada ‘pauta de costumes’, tida como uma das alas fortes do governo de Jair Bolsonaro. No meio desse turbilhão de crises, o atual presidente parece ter deixado esse grupo nos bastidores e tem tentado sobreviver politicamente se abraçando com o velho Centrão e tentando salvar o seu verniz liberal via – agora já mais combalido – Ministério da Economia. Mas não é porque não estão em tanta evidência que devem ser esquecidos. O professor norte-americano Ben Cowan tem se dedicado a estudar a extrema direita a partir da realidade brasileira, pois o que justamente chamou sua atenção é como a guerra cultural foi o primeiro conflito em que esses grupos se colocaram como forma de ganhar espaço. E, depois de olhar arquivos de escolas militares, viu como há por aqui um caso sui generis. “De fato, eu me surpreendi com o tamanho do interesse nos temas de moralidade e sexualidade mostrados pelos documentos da Escola Superior de Guerra - ESG”, destaca na entrevista concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

Ben ainda conta que já tinha certa noção de que a Guerra Fria era tida por muitos como um conflito cultural antes de tudo. “Mas ainda fiquei chocado com a proporção de material relacionado com esses temas e a especificidade das ideias que encontrei. Lembro, para dar um exemplo, de um ensaio que juntou Tom e Jerry e ‘casais homossexuais’ como perigos à moralidade pública e, portanto, à segurança nacional”, conta. “Nos vários universos e configurações de radicalismo direitista, sempre há uma fascinação com — até um pavor de — mudanças (reais ou imaginárias) no terreno da cultura, especialmente as hierarquias tradicionais de sexualidade e patriarcalismo”, acrescenta.

E faz todo sentido se pensarmos que essa ideia de ‘pauta de costumes’ esteve realmente no centro do debate das eleições de 2018 e até dos primeiros anos de governo. Se por um lado essa abordagem pode ser lida por alguns como uma cortina de fumaça para movimentos mais profundos e de maior impacto, por outro, os estudos do professor Ben mostram que essa guerra cultural vai como que armando a população. Depois, com tecido social rachado, tudo é sempre disputa e se perde de vista o que de fato se transforma. Não à toa, isso pode ser lido também como estratégia – militar – de guerra. “Acho perturbador, mas não surpreendente, a presença dos militares no governo atual. A relação entre a direita e as Forças Armadas (desde a polícia até o exército) é quase uma constante na história contemporânea, e não só no Brasil. Apoiar o uso de força — até a violência civil — em defesa de hierarquias tradicionais (raciais, de classe, de gênero) faz parte central do projeto da nova direita”, avalia Ben.

Para o professor, ainda é importante ter consciência de que “desde o início do século, e até antes disso, o anticomunismo tomou por uma das suas grandes ansiedades a noção de que os ‘desvios’ comportamentais (quaisquer que sejam) e o desaparecimento de uma suposta época dourada de ‘bons costumes’ faziam parte de uma armadilha marxista”. Segundo Ben, isso é tácito no Brasil. “No Brasil, a ditadura militar de 1964-1985 fez com que essas obsessões anticomunistas migrassem para os centros do poder, o que resultou num enfoque, desde os níveis mais altos até os porões das forças de segurança, na moralidade e no sexo”, aponta.

Por isso, mesmo em meio a um cenário que parece ter mudado, não se pode perder de vista esses movimentos e a centralidade da pauta de costumes, ou guerra cultural, nas palavras do professor. Afinal, por mais que governos conservadores tenham saído de cena, ele não acredita que esse seja o último ato. “Não vejo nenhuma queda nas perspectivas da direita atual. Só precisamos dar uma olhada na fé que apoiadores têm num Trump ou num Bolsonaro... Mas, mais reveladora, é a fé implícita que todo o panorama político, tanto nas Américas quanto em outras partes do mundo, demonstra nas ‘soluções’ do mercado livre”, reflete.

Benjamin A. Cowan, ou Ben Cowan, como é conhecido, é professor do departamento de História da University of California San Diego, nos Estados Unidos. Graduado pela Harvard University, possui mestrado e PhD pela Universidade da Califórnia em Los Angeles - UCLA. Seu interesse pelo radicalismo de direita, moralidade, sexualidade e imperialismo do século XX o levou a concentrar suas pesquisas no Brasil do período da Guerra Fria, com especialização na história cultural e de gênero da era pós-1964. Entre suas publicações, destacamos Securing sex: Morality and repression in the making of Cold War Brazil (University of North Carolina Press, 2016) e Moral Majorities across the Americas: Brazil, the United States, and the Creation of the Religious Right (UNC Press, 2021).

 

O senhor passou a se interessar pelo Brasil depois de encontrar arquivos da Escola Superior de Guerra - ESG e os relacionar com temas como autoritarismo, radicalismo de direita, moralidade e sexualidade. O que, especificamente, lhe chamou atenção?

e fato, eu me surpreendi com o tamanho do interesse nos temas de moralidade e sexualidade mostrados pelos documentos da ESG. Nesta altura, eu já tinha a noção de que a Guerra Fria foi — nas mentes dos seus guerreiros — um conflito sobretudo cultural; mas ainda fiquei chocado com a proporção de material relacionado com esses temas e a especificidade das ideias que encontrei. Lembro, para dar um exemplo, de um ensaio que juntou Tom e Jerry (os desenhos animados) e “casais homossexuais” como perigos à moralidade pública e, portanto, à segurança nacional.

Nesses seus estudos sobre o Brasil, que autores o ajudam a pensar sobre autoritarismo, radicalismo de direita, moralidade e sexualidade? E que relação o senhor estabelece entre esses temas?

Fui ajudado muitíssimo na minha preparação por uma literatura rica, imprescindível. Eu citaria em especial o trabalho de Carlos Fico, Gizele Zanotto, Rodrigo Patto, Kenneth Serbin, Susan Besse, Sueann Caulfield, Margaret Power, Solange de Deus Simões, Victoria Langland, James Green, e ‘muitxs outrxs’. Existe um diálogo entre as minhas pesquisas e o consenso entre historiadores como ‘essxs’ que citei — um consenso em torno ao papel desempenhado pelo sexo, pelo gênero, e pela moralidade no exercício do poder.

Nesse sentido, é quase impossível escapar da importância desses temas na visão de mundo de todos os governos e instituições autoritários que eu conheço. Ou seja, nos vários universos e configurações de radicalismo direitista, sempre há uma fascinação com — até um pavor de — mudanças (reais ou imaginárias) no terreno da cultura, especialmente as hierarquias tradicionais de sexualidade e patriarcalismo.

O resultado das suas pesquisas nesses materiais foi a sua tese de doutorado e a publicação do livro Securing sex: Morality and repression in the making of Cold War Brazil. Como a moralidade e a repressão se articulam para o que o senhor considera a ‘construção da Guerra Fria no Brasil’?

Na minha tese e no livro Securing Sex, que escrevi baseado nela, quis mostrar como o ímpeto à repressão e, antes disso, o ímpeto ao autoritarismo anticomunista em si vieram, pelo menos em parte, de uma reação moralista. Isso teve a ver não só com o momento que mais me interessava (o período da última ditadura militar brasileira), mas também com toda uma história de décadas de preocupação anticomunista com a ideia de uma conspiração cultural contra o ocidente.

Desde o início do século, e até antes disso, o anticomunismo tomou por uma das suas grandes ansiedades a noção de que os “desvios” comportamentais (quaisquer que sejam) e o desaparecimento de uma suposta época dourada de “bons costumes” faziam parte de uma armadilha marxista. Isso se via claramente durante a Guerra Fria no Brasil e em outros países. No Brasil, a ditadura militar de 1964-1985 fez com que essas obsessões anticomunistas migrassem para os centros do poder, o que resultou num enfoque, desde os níveis mais altos até os porões das forças de segurança, na moralidade e no sexo.

Agora, o senhor está lançando Moral majorities across the Americas: Brazil, the United States, and the creation of the religious right. Que história do conservadorismo no Brasil traz nessa pesquisa?

O novo livro é sobre o papel do Brasil na criação da direita — ou das direitas — que a gente conhece hoje. Em termos gerais, tentei explicar como é que chegamos ao panorama atual, com seu notável surgimento de populismo e reação cultural e política. Não é por acaso que o Brasil acaba com um Bolsonaro no momento em que os Estados Unidos tiveram seu Trump. A história que eu descobri, e que quis compartilhar nesse livro, é de alguns atores e redes de atores que construíram, através das décadas, a plataforma política e a série de identidades que hoje chamamos “direita”.

Que conexões o senhor percebe entre Brasil e Estados Unidos no que chama de ‘direita religiosa’ (the religious right)? Há uma origem comum?

Há, sim. Ou melhor dito, há origens comuns e origens distintas, mas os pontos em comum acabam vencendo as diferenças, especialmente ao final do século XX. Esses pontos em comum são, mais ou menos, veneração de hierarquias tradicionais; um senso de assédio contra os chamados “valores tradicionais” e contra culturas tradicionais em geral; demandas para um retorno a um passado mítico; anticomunismo; antimodernismo; antiecumenismo; e oposição ao igualitarismo, ao racionalismo e ao Estado de bem-estar social.

No livro, quis ilustrar como uma constelação de representantes de diversos conservadorismos e de diversas denominações religiosas criaram um terreno comum que consistiu e consiste num acordo em torno dos pontos que listei. Esse acordo foi produto nem só dos Estados Unidos nem só do Brasil, mas agentes e instituições nos dois países desempenharam papéis imprescindíveis, especialmente depois de meados do século XX.

O senhor trabalha com o conceito de uma nova direita transnacional. Em que consiste essa ideia e em que países podemos detectar sua atuação?

Acho que seria difícil apontar uma lista de países onde essa direita existe ou tem poder. Mas como disse antes, a história que eu conto no livro é de como o Brasil teve uma relação importante na criação do que se pode reconhecer como a direita, geralmente, em vários cantos do mundo atual. E não só isso, pois essa criação ocorreu por meio de colaborações através de fronteiras ideológicas, nacionais, e de denominação.

Não é por acaso, em outras palavras, que o Brasil torna-se um dos primeiros países a ter seu próprio “Conservative Political Action Conference - CPAC” [uma espécie de congresso de política conservadora] em outubro de 2019. O terreno para isso já tinha sido preparado, desde há muito. Quer dizer, ‘brasileirxs’ fizeram parte de um fenômeno transnacional, com contornos complexos e até obscuros, que uniu católicos e protestantes, ‘brasileirxs’ e ‘não-brasileirxs’, e representantes de vários ramos do direitismo apesar das diferenças e contradições inerentes nessa união. Por meio desse fenômeno, a direita atual tomou a forma que conhecemos, mais uma identidade, ou uma série de ressentimentos, do que uma ideologia coerente.

Como analisa essa nova direita atualmente? Num médio e longo prazo podemos falar em queda ou nova ascensão dessas perspectivas?

Sou historiador e evito arriscar prognósticos. Mas pelo momento não vejo nenhuma queda nas perspectivas da direita atual. Só precisamos dar uma olhada na que apoiadores têm num Trump ou num Bolsonaro... Mas, mais reveladora, é a fé implícita que todo o panorama político, tanto nas Américas quanto em outras partes do mundo, demonstra nas “soluções” do mercado livre. As ideias da nova direita, em outras palavras, estão no fundamento do discurso político, especialmente em países como Brasil e Estados Unidos — a Janela Overton, para usar esse termo, já mudou definitivamente para a direita. É uma direita que nem todos os conservadores do início do século XX reconheceriam, mas é a direita que foi produto dos anos 1960-2000 especialmente no Brasil e nos Estados Unidos.

Qual sua análise sobre a chegada dos evangélicos conservadores ao poder no Brasil? Há, ainda, a incidência de outros religiosos conservadores, como os católicos, nesse contexto?

Quanto aos católicos, acho que só precisamos apontar para Olavo de Carvalho — herdeiro e renovador de um legado do tradicionalismo católico —, Ernesto Araújo, e até os Bolsonaro, entre outros. Eu diria também que a aproximação entre o governo atual e a personagem do Bertrand de Orleans e Bragança também indica o ressurgimento do tradicionalismo católico e dos seus mais ferrenhos representantes.

No lado evangélico, essa história é também longa, mas acelerou muito depois dos anos 60. Como escrevi no livro, os evangélicos chegaram ao poder no Brasil num momento específico. Enquanto conservadores partilharam com o regime militar seu anticomunismo moralista e persecutório — e portanto lucraram nos anos finais da ditadura —, a ala progressista (para falar assim) dos evangélicos nessa época acaba perdendo espaço e poder.

Aqui no Brasil, a incidência de religiosos conservadores no governo de Jair Bolsonaro é muito lida através da chamada ‘pauta de costumes’. Qual a centralidade dessa pauta na nova direita e como se articula com outras perspectivas como o negacionismo e o liberalismo?

A “pauta de costumes,” como outras iterações do moralismo reacionário, é fundamental para a nova direita. Isso sim vem da história que já referi, mas também tem a ver com o fracasso total das políticas propostas pela direita nas últimas décadas. Nas próprias palavras que você citou — negacionismo e liberalismo — se vê o dilema da direita tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. As políticas no centro do programa da direita — liberalismo desenfreado e esvaziamento completo do Estado de bem-estar social; militarismo doméstico e externo; negação da ciência e de outras formas de racionalismo em favor de tradicionalismo e/ou misticismo — não são nem práticas nem populares, no longo prazo.

Por isso, conservadores permanecem só com a retórica e com seu trunfo: os costumes. Por isso que acabamos, no meio de crises sanitárias e ecológicas inéditas, discutindo a realidade dos desastres e enfrentando um debate público voltado imoderadamente para os “costumes” e os direitos (ou a falta deles) das minorias sociais.

Como analisa a presença de militares no atual governo brasileiro?

Acho perturbador, mas não surpreendente, a presença dos militares no governo atual. A relação entre a direita e as Forças Armadas (desde a polícia até o exército) é quase uma constante na história contemporânea, e não só no Brasil. Apoiar o uso de força — até a violência civil — em defesa de hierarquias tradicionais (raciais, de classe, de gênero) faz parte central do projeto da nova direita.


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