Semana On

Quarta-Feira 29.set.2021

Ano X - Nº 461

Poder

Bolsonaro intensifica ofensiva contra imprensa e aumenta ataques em 74%

Ataques e 'fake news' rebaixam Brasil em ranking de liberdade de expressão

Postado em 30 de Julho de 2021 - Jamil Chade e Juliana Arreguy (UOL) – Edição Semana On

Imagem: Isac Nóbrega/PR Imagem: Isac Nóbrega/PR

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) intensifica sua ofensiva contra a imprensa e, no primeiro semestre de 2021, aumenta os ataques em 74% em comparação ao seu próprio comportamento no segundo semestre de 2020. Os dados fazem parte de um levantamento publicado nesta quarta-feira pela entidade Repórteres sem Fronteiras (RSF), que destaca humilhações contra jornalistas, os ataques contra mulheres e a fabricação de desinformação.

De uma forma geral, autoridades públicas do alto escalão do governo brasileiro realizaram 331 ataques contra a imprensa neste período, "um aumento de 5,4% comparado ao semestre anterior.

76 ataques foram dirigidos contra o Grupo Globo, 44 contra o Grupo Folha, além de 11 contra o Grupo Estadão e 8 contra o UOL.

Com 87 incidentes, Jair Bolsonaro foi quem mais disparou contra a imprensa". Desse total, 49 episódios estavam relacionados com ataques direcionados contra um jornalista ou meio específico.

Os dados são publicados num momento em que, na ONU e na OEA, o governo brasileiro passou a ser alvo de denúncias por violações contra o trabalho dos jornalistas.

Hoje, o Brasil ocupa a 111a colocação no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa 2021 elaborado pela Repórteres Sem Fronteiras, tendo entrado para a zona vermelha do Índice pela primeira vez.

Em 2 de julho de 2021, a RSF incluiu o presidente Bolsonaro em sua lista global de predadores da liberdade de imprensa.

Se o presidente é "o principal predador", seus filhos também têm lugar de destaque. "No mesmo período, Carlos Bolsonaro, vereador da cidade do Rio de Janeiro, foi autor de 83 ataques à imprensa (um aumento de 84,4% em relação ao segundo semestre de 2020), enquanto Eduardo Bolsonaro, deputado federal, atacou a mídia nacional 85 vezes - total elevado, embora apresente queda de 41,37% em relação ao final do ano de 2020, quando havia cometido 145 ataques", apontou o levantamento.

Na lista dos principais nomes do governo a lançar ataques contra os jornalistas também estão Onyx Lorenzoni, Damares Alves e o ex-ministro Ricardo Salles.

Natureza dos ataques

Segundo a entidade, se os números são graves, a natureza dos ataques é ainda mais preocupante.

"Enquanto a crise sanitária continua a devastar o país, devido sobretudo à gestão desastrosa do governo federal, os ataques do presidente e seus apoiadores contra jornalistas se intensificaram e diversificaram, atingindo às vezes um nível inimaginável de vulgaridade e violência", apontam.

Os episódios incluem atos como as seguintes frases do presidente contra os jornalistas:

"Enfiar as latas de leite condensado no rabo".

Bolsonaro, naquele momento, foi ovacionado e aplaudido, e sobretudo por seu ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo.

"Cala a boca (...) a Globo é imprensa de merda, imprensa podre"
.
"Volta para a universidade, depois para o ensino médio, depois para o jardim de infância, então você pode renascer!".

Vítimas: as mulheres

A entidade RSF também conclui que as jornalistas mulheres, assim como em 2020, permanecem em 2021 como as vítimas preferenciais do "machismo primário e grosseiro da família Bolsonaro". Elas concentram 6,1% dos ataques do presidente e seus três filhos.

"Em 2 de junho, o presidente qualificou Daniela Lima, apresentadora da CNN Brasil e alvo preferencial de seus ataques, de quadrúpede, causando uma avalanche de ataques misóginos e abjetos contra a jornalista nas redes sociais", apontou o informe.

"Em 31 de março, a jornalista Marla Bermuda, da TV Vitória, foi alvo de uma campanha de difamação e recebeu ameaças de morte depois que a deputada federal Carla Zambelli, fiel apoiadora de Jair Bolsonaro, a acusou de "manipulação" e de "transformar cemitérios em estúdios de gravação" em um vídeo", diz.

Já Patrícia Campos Mello, alvo regular de ataques desde as eleições de 2018, venceu dois processos condenando, respectivamente, Eduardo Bolsonaro e Jair Bolsonaro a indenizá-la por danos morais devido a comentários machistas e degradantes contra ela.

A RSF ainda apontou como os jornalistas responsáveis pela cobertura presidencial em Brasília são vítimas "de ataques violentos e humilhações públicas por apoiadores do governo" e hostilizados por Bolsonaro.

"Atendendo a uma queixa registrada em 2020 pela RSF e parceiros no Brasil denunciando a vulnerabilidade desses jornalistas, o Ministério Público Federal (MPF) emitiu parecer em 3 de maio determinando a adoção de medidas para fortalecer a segurança desses jornalistas", explica o documento.

Governo é "fábrica de desinformação"

De acordo com o estudo, 80% dos ataques ocorrem no Twitter. Mas o presidente consegue limitar sua própria exposição a críticas na plataforma, bloqueando a maioria das contas incômodas que o seguem no Twitter, incluindo a da RSF em português.

"Trata-se de um hábito de Jair Bolsonaro. De acordo com estudo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), ele é a autoridade pública brasileira que mais bloqueia contas de jornalistas no Twitter; em média, 240 vezes mais que um deputado federal", aponta.

A RSF destaca como ele já foi punido várias vezes pelo Twitter em 2020, sobretudo por ter desrespeitado a política da plataforma sobre medidas de isolamento durante a Covid-19. Assim, em 2021, o presidente privilegiou outra plataforma para insultar e agredir jornalistas.

A escolha foi concentrar sua ofensiva em suas falas ao vivo no canal do Facebook da presidência. "Essa 'live', transmitida ao vivo no Youtube, permite-lhe, sem ser incomodado ou contrariado, falar diretamente ao seu público, propagar sua retórica anti-imprensa e atacar ferozmente os meios de comunicação, que ele acredita que "mentem e desinformam" permanentemente, principalmente sobre a situação sanitária do país", diz a RSF.

Das 24 lives semanais do primeiro semestre de 2021, Jair Bolsonaro atacou frontalmente a mídia em 19 delas. A live do presidente, portanto, concentra 58,62% dos ataques de Jair Bolsonaro a jornalistas.

"Nesse espaço, Jair Bolsonaro constrói novas narrativas sobre temas polêmicos. Desavergonhadamente, brinca com os fatos, afirma "suas verdades" e fabrica desinformação para servir aos seus próprios interesses e aos de seu governo, responsabilizando sistematicamente a imprensa por todos os males do país, pelas medidas de isolamento social, pela organização da vacinação", afirma o levantamento.

As lives de 14 de janeiro e 12 de fevereiro foram apagadas e bloqueadas pelo Youtube, que classificou seus comentários como desinformação. Em 21 de julho, pelos mesmos motivos, o Youtube decidiu excluir 14 dessas lives de sua plataforma, transmitidas entre 2020 e 2021.

O pior da América Latina

Nos últimos dez anos, o Brasil foi o país da América Latina que mais regrediu em termos de liberdade de expressão, com campanhas de desinformação chanceladas pelo governo federal e ataques à imprensa que não eram vistos desde a ditadura militar (1964-1985). A avaliação é da ONG Artigo 19, que publicou ontem (29) o Relatório Global de Expressão com dados de 2020 relativos a 161 países.

Em 86º lugar no ranking, o Brasil foi o país latino-americano que mais perdeu pontos frente ao relatório de 2019. Pelo segundo ano consecutivo, é visto como um local "restrito" à liberdade de expressão, classificação observada pela ONG como um alerta à democracia.

"Nos últimos cinco anos, o Brasil deixou de ser um dos países com maior pontuação mundial [de liberdade de expressão] para ser considerado uma crise de democracia e expressão — e agora também uma crise de saúde pública. O Brasil é a perfeita avalanche contemporânea de problemas de expressão: populismo autocrático, desinformação, desigualdade severa e controle tecnológico. A pandemia consolidou as tendências observadas no último ano", diz trecho do relatório.

Em outro documento publicado este ano, a Artigo 19 já havia alertado para as práticas de desinformação utilizadas pelo governo de Jair Bolsonaro (sem partido) para confundir a população sobre temas sensíveis à administração, como o combate à pandemia de covid-19. A privação à informação de interesse público, como o apagão de dados sobre casos e mortes de coronavírus que levou à formação do consórcio de veículos de imprensa, é vista como um dos indícios de queda na liberdade de expressão do país.

Muitos governos pareceram mais interessados em controlar a narrativa do que em controlar o próprio vírus." - Relatório Global de Expressão de 2020

A ONG calcula que, durante o ano de 2020, Bolsonaro emitiu 1.682 declarações falsas ou enganosas — média de 4,3 declarações por dia — e defendeu tratamentos sem eficácia comprovada contra o coronavírus em pelo menos 28 ocasiões. Levantamento feito pelo UOL Confere mostrou que, ao falar sobre a pandemia em um intervalo de três meses entre março e junho, Bolsonaro deu ao menos 30 declarações falsas, 14 sem contexto ou distorcidas e seis imprecisas.

A Artigo 19 também registrou 464 ataques à imprensa, feitas tanto pelo presidente quanto por políticos próximos. Muitos ocorreram de forma virtual e tiveram jornalistas mulheres como alvo. Recentemente, o advogado de Bolsonaro, Frederick Wassef, enviou mensagens atacando a colunista do UOL Juliana Dal Piva.

Esse nível de agressão pública não era visto desde o fim da ditadura militar. A crescente hostilidade social contra jornalistas e seus efeitos desencorajadores não devem ser subestimados." - Relatório Global de Expressão de 2020

Liberdade de expressão cai em todo o mundo

O relatório aponta que 4,9 bilhões de pessoas — cerca de dois terços da população mundial — vivem em países que foram classificados como ambientes altamente restritos ou em crise quanto à liberdade de expressão. Os lugares mais bem cotados são Dinamarca, Suíça, Noruega, Suécia e Finlândia. Os de pior desempenho são China, Síria, Turcomenistão, Eritreia e Coreia do Norte.

Para criar o ranking, a Artigo 19 atribui aos países notas que vão de 0 a 100; quanto maior a nota, maior a liberdade de expressão no país. Os valores são calculados a partir de 25 critérios, que incluem censura online, assédio a jornalistas, liberdade religiosa, leis de acesso à transparência e liberdade de expressão para homens e mulheres.

A partir das notas, os países são divididos em cinco categorias que remetem à situação de liberdade de expressão, como mostra o mapa abaixo:

  • 1) Em crise (0 a 19)
  • 2) Altamente restrita (20 a 39)
  • 3) Restrita (40 a 59)
  • 4) Menos restrita (60 a 79)
  • 5) Aberta (80 a 100)

Desde o ano passado, o Brasil se encontra na categoria "restrita", junto de nações como Mianmar (97º), Quirguistão (95º), Haiti (82º) e Afeganistão (79º). Na América Latina, o Uruguai (9º) e a Argentina (21º) foram as nações que melhor pontuaram.

A métrica foi reformulada em relação aos anos anteriores para incluir medidores relativos à covid-19. Para facilitar as comparações, a ONG recalculou as pontuações dos países nos últimos dez anos de acordo com o novo índice. Com isso, a pontuação do Brasil no ano passado, que foi de 46, passa a ser 54.

O relatório comparou a mudança de posição dos países no ranking nos intervalos de um ano (entre 2019 e 2020), de cinco anos (2015 a 2020) e dez anos (2010 a 2020).

Apesar de estar à frente de outros países da América Latina no ranking — como Bolívia (87º), Venezuela (138º), Nicarágua (140º) e Cuba (152º), o Brasil foi o que mais perdeu pontos no índice nos últimos dez anos. Com redução de 36 pontos, o país teve maior redução que Nicarágua (-31), Bolívia (-25), El Salvador (-23) e Venezuela (-20).

Em comparação ao resto do mundo, nos últimos cinco anos o Brasil só não perdeu mais pontos (-33) do que Hong Kong (-34). Já no cálculo dos últimos dez anos, o Brasil ficou atrás apenas de Hong Kong (-47) e Índia (-38).


Voltar


Comente sobre essa publicação...